Melancolia, de Lars von Trier | Cabine Cultural
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Crítica Melancolia, de Lars von Trier

Melancolia

Melancolia

Com atuações bem convincentes, seria até secundário comentar sobre elementos técnicos, como a fotografia

Por Luis Fernando Pereira

O mais novo projeto do cineasta dinamarquês Lars von Trier se inicia com a mesma estrutura narrativa do seu anterior, Anticristo (2009): uma série de imagens plasticamente belas em super câmera lenta. Temos pássaros caindo de um céu azulado, uma noiva aparentemente perdida, uma mãe correndo com seu filho pelo campo e um planeta se chocando com a Terra, tudo ao som de Tristão e Isolda, de Wagner. Essas imagens prenunciam o fim do planeta Terra, com o choque do planeta Melancolia.

Ao fim deste prólogo, nos restam dois capítulos: o primeiro dedicado à Justine (Kirsten Dunst) e o segundo vem com o título de Claire (Charlotte Gainsbourg, de A Árvore). Justine e Claire são irmãs e o evento que ambas compartilham é um casamento: Justine, como a noiva, Claire, como a organizadora.

Estes são os elementos básicos de uma história que envolve desintegração familiar, reflexões existenciais e o fim do mundo.

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Sobre as irmãs, percebe-se logo que as duas possuem personalidades bem distintas, diria até antagônicas: Justineé frágil, com sensibilidade aflorada, Claireé prática, racional. Ao redor delas, seus companheiros: o romântico noivo de Justine (Alexander Skarsgard) e o marido de Claire (Kiefer Sutherland, em boa atuação). Apresenta-se aqui quatro personagens muito bem construídos, complexos e que, tal como qualquer ser humano, é passível de mudanças comportamentais, sejam elas advindas ao longo do tempo, sejam elas resultados de uma personalidade multifacetada. Essas mudanças se mostram presentes no desenvolvimento da história, e quando o filme chega em seu segundo ato, vemos quase que uma inversão dos papéis já descritos: Justine aqui está segura de seu destino, parece não temer o seu futuro. Já Claire, à medida que o Planeta Melancolia se aproxima, se desespera, sobretudo com o que se mostra de mais incerto na trama: o amanhã.

Com atuações bem convincentes, seria até secundário comentar sobre elementos técnicos, como a fotografia. Contudo, ela em especial é um filme à parte: o azulado que sempre vem acompanhado com o planeta, por vezes toma conta da tela, iluminando-a, trazendo-nos uma perspectiva apocalíptica, um visual que nos remete a filmes como 2001, uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, grande clássico do gênero ficção científica.

Fundador do Dogma 95, que defendia um cinema mais realista e menos comercial, Lars von Trier continua leal a alguns de seus princípios. Com sua câmera na mão e filmagem em locações reais, o cineasta realiza um filme denso e existencial. Não tão angustiante quanto Dançando no Escuro, não tão vanguardista quanto Dogville, não tão perturbador quanto Anticristo. Mas, certamente, Melancolia terá seu lugar assegurado na filmografia do dinamarquês, e quem sabe, na história do cinema contemporâneo.

Cabe nota as destacadas atuações de John Hurt e Charlotte Rampling, respectivamente pai e mãe de Justine e Claire, e da talentosa participação de Stellan Skarsgård, que interpreta o patrão de Justine.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site


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