Uma Primavera, de Gabriela Amaral | Cabine Cultural
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Uma Primavera

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O curta-metragem da jovem diretora Gabriela Amaral tem conquistado admiração e simpatia pelo circuito dos festivais de cinema brasileiros por onde passou e, alguns meses após o seu lançamento, o público soteropolitano teve a oportunidade de conhecê-lo, isso graças ao sétimo Panorama Internacional Coisa de Cinema, que aconteceu entre os dias 18 e 25 de agosto.

A trama gira em torno de Lara, e a relação que se estabelece entre ela e a sua mãe. Lara acabara de completar seus treze anos, idade que marca na história o final do ‘ser criança’ para dar partida a tão temida adolescência. Esta transição não somente é importante na história, como se torna o fio condutor de todo o filme, fazendo o espectador pensar no quão difícil este momento pode ser para uma mãe.

A narrativa logo toma ares de suspense quando, no meio de um passeio, um piquenique em um parque da cidade, Lara, sem deixar qualquer aviso à mãe que então cochilava, some misteriosamente. Ao acordar, ela logo percebe a ausência e, a preocupação, de princípio normal, é aumentada com a descoberta do telefone celular da filha jogado ao chão do parque. A partir de então vemos na tela uma trama onde o suspense sobressai-se, a busca de uma mãe pela filha toma conta da história, e neste sentido, a trilha sonora, originada do próprio ambiente, auxilia sobremaneira no clima pretendido; alguns closes no relógio faz-se lembrar a todo instante que o tempo será um fator determinante para o desfecho. E como todo típico suspense, logo é apresentado um primeiro suspeito.

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Mostra-se bem interessante o modo como a diretora nos introduz ao suspeito, pois ele é desde o início mal encarado, pouco solicito e na sequência em questão, se incrimina para a câmera. A câmera, vale destaque, ajuda nesta suposição, pois quando a mãe de Lara despede-se para continuar a sua procura, foca-se em primeiro plano a expressão do sujeito enquanto que ela naquele instante se estabelece como personagem secundária, fazendo o espectador sugerir que, ao desfecho da história, ele será desmascarado. Inteligente também é o contraponto que se faz para reafirmar esta idéia, já que na cena seguinte a mãe aborda o rapaz responsável pelo aluguel de bicicletas do parque, e este reage de modo oposto ao primeiro, sendo mais prestativo, buscando auxiliá-la. Esta quase oposição ajuda o espectador a se prender no suspense que a história irá levar, e isso torna o final ainda mais prestigioso.

A multifacetada trama de Gabriela Amaral também nos apresenta um quadro dramático bem comum já há algumas décadas, pois vê-se uma relação de mãe e filha que vivem separados do parceiro/pai, e a história dá fortes indícios de que esta relação terminou de forma rancorosa. Em deteminada sequência, ao relatar ao ex-parceiro o desaparecimento de Lara, ela a caracteriza com a expressão “a sua filha”, mostrando assim o distanciamento desta relação, onde o termo “a nossa filha” já não é mais utilizado.

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Ao final do filme, com o desfecho então oferecido, percebe-se que a intenção da cineasta era retratar, através de metáforas e simbolismos, a passagem de Lara para a adolescência, e a cena em que a mãe observa-a beijando um garoto serve como uma espécie de rito de passagem para ambas, já que naquele instante, ela sente que acabara de perder uma filha e em contrapartida ganhara uma outra. Desde o início tinha-se pistas desta perspectiva, ao, por exemplo, obsevarmos a garota em seu banheiro depilando as suas pernas, mostrando toda a sua inexperiência no ato, chegando a cortar-se, fazendo gotas de sangue se espalhar, numa interessante alusão ao período menstrual, maior simbolismo desta passagem de fase.

Porém, o momento mais simbólico, e destacado, da narrativa, é o que envolve a morte de um pequeno canário. Ele aqui serve de metáfora para toda a história envolvendo a relação mãe e filha. Observa-se que numa primeira cena, ambas estão juntas, Lara encontra o animal desfalecido ao chão e logo sugere a mãe um enterro para o bicho, só que a mãe reluta, primeiro pelo receio de tocar em um cadáver, e depois, por não querer levar adiante tal conversa, como se ela desejasse não ter que passar por algo semelhante. Porém, numa das cenas que finalizam o filme, a mãe reencontra-se com o pássaro, estando agora sozinha. Ali, naquele exato momento, ela percebe que acabara de passar por algo semelhante, pois aquele pássaro representa para ela os primeiros treze anos passados com a sua filha, época em que comemorar o aniversário dela em um parque, com uma torta tipicamente infantil, e velas chamativas, era o melhor momento do ano, para ambas. Ela o toca, tal como numa despedida, com certa atmosfera nostálgica e melancólica, bem alimentada pela angulação da câmera, fechando-a num close para logo depois abrir aos poucos o foco.

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Contudo, não trata-se aqui de uma história triste, a mãe de Lara, como qualquer outra mãe, está certa de que sua filha talvez nunca mais seja a mesma garotinha que amava um bolo rosa; porém ainda há uma longa caminhada para compreender e amar a nova personagem que acabara de nascer: uma adolescente.

Gabriela Amaral afirma aqui sua capacidade na direção. Não bastasse o roteiro bem elaborado, Gabriela traduz na tela toda a sensibilidade da história. Sua câmera acompanha e sublinha as ações, as imagens trabalham bem com o que deseja ser passado, seja nas cenas fortes, seja nas mais introspectivas. Todo o tempo, fotografia e edição formam uma harmoniosa dupla que dialoga de modo coerente com o curso do filme.

* Visto no VII Panorama Internacional Coisa de Cinema.


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