A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris
Literatura

A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris

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A mulher de vermelho e branco (A mulher de vermelho e branco, 2011)

Autor: Contardo Calligaris. Editora: Companhia das Letras. Assunto: Literatura brasileira – Romance.

Com receio de receber em seu consultório uma paciente nova apenas à uma semana de começar suas férias, Carlo Antonini, terapeuta sitiado em Nova York, se vê indiretamente pressionado (diriam alguns psicólogos, conscientemente levado a isso) a aceitar uma consulta com Woody/Tânia Luz imaginando com isso que não teria maiores problemas antes de viajar. Nos primeiros momentos de relato percebe-se que algo de intrigante se mescla aos seus anos de experiência e trabalho: ela se veste sempre de vermelho e branco. Em seguida mais um mistério, porque ele chama Tânia, a personagem principal, de Woody. E já nas primeiras páginas a imaginação e a narrativa te levam para algumas respostas, depois mais questões e mais desejos de descobertas.

Também fica evidente o cuidado com o leitor, por exemplo, no início do livro, quando o mistério do nome ainda não foi desvendado ele usa Tânia/Woody, depois que ele responde, passa a usar somente Woody e deixa claro o motivo de escolher esse e não o outro nome. O jogo entre as duas personalidades apresentadas por uma (“Tânia”) e por outra (“Woody”) também tem seus encantos em meio à trama e dão à narrativa um tom agradável de ação. O mais interessante é que mesmo que a impressão inicial seja a de que o romance será apenas terapêutico e direcionado, isso logo se desfaz.

A insistência de Woody para ser recebida, a ida dela ao Brasil e o aparecimento na palestra que Antonini faria em seu período de férias em São Paulo faz parecer uma trama doentia, talvez por isso mesmo tão curiosa. E essa questão psicológica se mistura com a questão particular, mais física e pontual, de uma amiga dos tempos em que morou em Paris reencontrada num restaurante no Bairro da Liberdade. Assim, entremeados por esses reencontros, pelas lembranças dessa amiga Vietnamita e pela narrativa ousada em vários trechos, o romance se faz ainda mais voraz.

De leitura agradável, permeada pelo mistério de um assassinato, de uma festa que talvez nunca tenha acontecido, dos relatos sobre a guerra do Vietnã, de conflitos internos, da retomada da terapia, as perguntas insistentes de Antonini, a dúvida se as respostas são fatídicas ou paranóia psicológica, as horas de “tiro em silêncio” já em Nova York, as dúvidas de Woody sobre a peregrinação muçulmana, o interesse do filho dela pelo Islã e o tom intrigante de um simples “cuide-se” dão a medida para um leitor curioso e apaixonado até o último capítulo do livro.

Cristiana de Oliveira

Cristiana de Oliveira é professora universitária, crítica cultural e editora do site


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