Falsos documentários de Terror: de A Bruxa de Blair até Apollo 18 | Cabine Cultural
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Falsos documentários de Terror: de A Bruxa de Blair até Apollo 18

Apollo 18

A habilidade de se construir uma idéia de realidade num filme ficcional não é peculiar do gênero terror, e nem é tão nova assim, mas foi certamente com A Bruxa de Blair, filme de 1999, que tal maneira de se contar uma história reencontrou-se, trazendo de volta a discussão sobre novas formas de se fazer cinema. Após mais de uma década de seu sucesso, estreou semana passada, em circuito nacional, o filme Apollo 18, do até então  desconhecido diretor espanhol Gonzalo López-Gallego, e com isso surgiu a idéia de colocá-lo num grande balaio e assim analisar  algumas características deste formato cinematográfico.

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O formato em questão é o falso documentário (Mockumentary), e mais estritamente os que dialogam com o gênero terror. Os exemplos utilizados aqui são os mais reconhecidos, como o já citado A Bruxa de Blair, além de [REC], Cloverfield, e agora, o mais novo membro deste grupo, Apollo 18.

No filme A Bruxa de Blair (1999), de Eduardo Sánchez e Daniel Myrick, vemos três estudantes de cinema que caem mata adentro para fazer um documentário sobre a lenda que envolve tal bruxa, e que logo após desaparecem de modo misterioso. Tempo depois, uma bolsa é encontrada, cheia de rolos de filmes que mostram o que os três vivenciaram e com isso auxiliam no desvelamento da história.

O espectador, assim, adentra de imediato no universo dos três personagens ‘ficticiamente’ reais e a câmera subjetiva, aquela que traz o ponto de vista de cada um, é utilizada com admirável competência. O roteiro privilegia o sentir medo pelo desconhecido, e em nenhum momento, monstro ou bruxa alguma é apresentado à trama; fica sempre a sugestão de que algo está acontecendo de ruim. Este artifício, que funciona muito bem neste filme, foi readequando-se e se desgastando aos poucos, até chegar no insosso Apollo 18 (2011), que inicialmente trabalha a idéia de sugerir que algo de errado está acontecendo, mas que em seu desenvolvimento resolve apresentar a razão do sentimento de pavor que se instala na história. Tal razão, clicherizada e bem abaixo de qualquer expectativa, só vem apoiar o discurso dos que entendem que o formato já ofereceu todas as ferramentas possíveis.

Em 2007, a Espanha apresentou-nos o ótimo [REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza, onde uma equipe de reportagem de TV acompanha um grupo do corpo de bombeiros por uma noite e logo no primeiro chamado se vêem encarcerados num prédio que acaba isolado em quarentena (título dado ao fraco remake americano), por conta de um suposto vírus encontrado ali e que transforma as pessoas em zumbis.

A Bruxa de Blair

Neste caso, a idéia de câmera nervosa, trêmula e a sua junção com um roteiro que traz dinamismo ao filme, elevam sobremaneira o clima de tensão proposto pela história. A ambientação, fechada e claustrofóbica, oferece ao espectador a possibilidade de compartilhar daquela sensação de desespero vivida pelos personagens. Essa ferramenta, por sinal, também é utilizada em Apollo 18, mas com duas diferenças que o colocam abaixo do filme espanhol, pois aqui o roteiro é mal construído, fazendo com que o espectador dificilmente se importe com os personagens, o que no cinema é primordial para o sucesso de um projeto.

E o roteiro também erra, ao expor a idéia de que o vídeo (filme) foi editado antes de ser mostrado ao público. Se o trabalho sofreu edição, então torna-se desnecessário exibir cenas corriqueiras vividas pelos astronautas, não acrescenta elemento algum para a narrativa, já que a proposta é tão somente denunciar a existência desta missão para o mundo.

Cloverfield (2008), de J..J. Abrams, é mais um interessante exemplo do formato. Aqui, acompanha-se cinco jovens de Nova York em uma festa de despedida que toma ares de guerra quando um monstro gigante passa a atacar a cidade. O filme é exibido através de uma série de cenas tiradas do cartão SD de uma câmera digital obtida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e que envolve o caso agora chamado de “Cloverfield”. A gravação segue o vídeo amador gravado por diversas pessoas.

Com elementos que lembram os exemplos já dados (câmera subjetiva, nervosa e muitas vezes fora de foco), o filme também traz novidades, que oferece certo tom de originalidade à trama. Tem-se um roteiro que consegue colocar sempre em destaque o relacionamento dos ‘protagonistas’ da história. Esse recurso ajuda o espectador a rapidamente passar a importar-se com eles. Além disso, o filme aqui sai do ambiente fechado e muda-se para a grande cidade e suas ruas e avenidas, mas ainda assim, muitas vezes sente-se um desconforto proporcionado pela noção de claustrofobia existente em algumas sequências.

Há ainda a opção pela idéia surreal de monstro gigante, escolha arriscada, principalmente pela pretensão de estar coerente com a noção de verossimilhança, que o filósofo Aristóteles já dizia ser imprescindível para uma boa narrativa. A idéia de mostrar tal monstro aos poucos também é feliz, fazendo com que o espectador sempre anseie pelas novas cenas, a fim de ver mais da tal coisa. Neste aspecto, Apollo 18 acaba acertando, pelo menos parcialmente, já que seu desfecho acaba sendo muito aquém do esperado, o que atrapalha a construção da trama.

Pode-se, assim, classificar Apollo 18 com duas perspectivas distintas em mente. Numa primeira, o filme acaba sendo mais do mesmo, com falhas, mas que no fim das contas, pode se transformar numa experiência até agradável. Já em outra, usando o método comparativo, Apollo 18 tende a ser esquecido perante seus similares tão melhores construídos. Neste viés, o filme assemelha-se mais com outra obra fílmica, também questionável: Atividade Paranormal (2007), de Oren Peli. Porém, certamente o projeto dos astronautas não será tão bem-sucedido comercialmente quanto o filme dos espíritos.


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