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Identidade regional no filme Cidade Baixa

Cidade Baixa

Cidade Baixa

É incrível como a linguagem e os trejeitos regionais são bem retratados: na briga de galo, na pechinha com a garota de programa, nas gírias e palavrões em quase todos os diálogos

Por Cristiana de Oliveira

Lançado em 2005, com direção de Sérgio Machado e produção de Maurício Andrade Ramos, Cidade Baixa pode ser descrito como um filme que tem sua força motriz no estômago, e não no intelecto. Não existem sequências dignas de divagações filosóficas tão diretas, aprofundadas e de cunho ideológico. Apesar de variadas sequências de violência e de uma narrativa fantástica, o que há em Cidade Baixa é uma história caracterizada pelo cheiro, pelo desejo, pela cor, pela intensidade, pelo instinto, que fazem do filme uma experiência viva. Se uma expressão pode definir este filme, essa expressão é identidade baiana.

É incrível como a linguagem e os trejeitos regionais são bem retratados: na briga de galo, na pechinha com a garota de programa, nas gírias e palavrões em quase todos os diálogos, no jogo de damas com peças feitas de tampinhas de garrafas, no almoço e no corte de cabelo na feira, nos recortes de revistas colados na parede do quarto, no cigarro compartilhado no cais, na cena dos vizinhos que assistem uma briga sem se envolverem nela, por medo; no quartinho emprestado do amigo, no improviso de uma cirurgia feita em casa, no apelido do dono do bar e em incontáveis traços visuais no decorrer de toda a narrativa. Muito se comentou que Sérgio Machado fez um filme para baianos verem, se identificarem, e caso este objetivo fosse alcançado, o resultado já seria em si bem sucedido. Deve-se dizer que o foi,  e de maneira encantadora. É, em suma, uma nova perspectiva de se ver e de se produzir cinema no Brasil, que ainda é muito visto sob os olhos das regiões sul-sudeste, principalmente no eixo formado por Rio de Janeiro e São Paulo. Neste aspecto, Cidade Baixa junta-se à uma cinematografia que busca incessantemente prover esta mudança de foco, e isto já o torna digno de respeito.

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O filme conta a história de uma dançarina chamada Karina, interpretada por Alice Braga, que sai de Vitória, no Espírito Santo, e sonha em encontrar um estrangeiro rico no carnaval de Salvador. No meio do caminho encontra dois amigos de infância, Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura), que lhe dão carona em um barco, onde são sócios, em troca de favores sexuais. Numa das paradas antes de chegar ao destino final, Deco e Naldinho se envolvem numa confusão em Cachoeira, por conta de uma aposta mal sucedida numa rinha de galo. É nesse momento que o filme ganha mais fôlego, quando Karina decide ajudá-los ao invés de seguir viagem numa outra carona que havia conseguido num caminhão. Podemos considerar esta sequência de fatos o primeiro ponto de virada da história, já que é através dela que os próximos momentos do filme são desenvolvidos. Os dois acabam se apaixonando por Karina, que também não consegue ficar longe nem de Deco, nem de Naldinho. Esta relação incomum, que começa aparentemente saudável, logo adquire contornos de uma tragédia grega. Não é difícil de imaginar que em algum momento da história um deles iria requerer a exclusividade do amor de Karina. E é justamente numa destas sequências, onde há uma suposta escolha por parte dela, que a história chega ao seu segundo ponto de virada. As cenas de ciúmes e o rompimento de uma amizade antiga por causa da garota trazem ao filme aspectos ainda mais emocionantes. É jogado a todo instante no espectador o questionamento da amizade ali apresentada. Até onde uma relação de décadas desenvolvida por Deco e Naldinho iria se sobressair perante a cada vez mais latente paixão que os dois nutrem pela mesma mulher? Com uma olhada mais aprofundada e menos preconceituosa, veremos na trama uma experiência cinematográfica maravilhosa, com grandes atuações e uma direção muito competente.

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A história é de uma densidade dramática crescente, que conta com cenas fortes que podem até chocar uma grande parte do público, induzindo-os de forma  errada a pensar que cinema nacional é feito somente de sexualidade desenfreada e elementos de sem-vergonhice.  Entretanto, essas cenas dão ao filme um encanto ainda maior. A opção do diretor Sérgio Machado pela técnica de câmera na mão e também pela iluminação sensivelmente baixa visam contribuir para uma maior liberdade artística. Fica evidente, com o desenvolver do filme, que muito do que foi visto pelo espectador foi resultado de um processo natural de improviso, ou no mínimo, liberdade colaborativa por parte de Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga. As ausências dos tripés e dos holofotes nas filmagens ajudaram sobremaneira os atores na arte do movimento e na expressão de seus sentimentos, pois a câmera que aqui corre atrás dos personagens, oferece a quem assiste uma experiência ainda mais visceral, e as expressões de atordoamento, urgência e medo são então bem mais destacadas, fazendo de Cidade Baixa um filme bem vivo. Em uma das seqüências finais, onde vemos Naldinho descendo a ladeira atordoado, o diretor se utiliza da técnica de câmera estridente, dando, através da imagem fora de foco, a idéia de confusão do personagem.

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O longa de Sérgio Machado é admirável pela pungência e pela força da direção (não atrapalhando em nada o fato de ser aqui a sua estreia em ficção), pela entrega total e quase sobre-humana dos atores (destaca-se a preparação da treinadora de elenco Fátima Toledo) e pelo teor de qualidade que exala em cada momento no filme.

Cidade Baixa é, enfim, um filme que te deixa o tempo inteiro sobressaltado pelas cenas bem vivas. Sendo baiano ou gostando de cinema, não é possível passar por ele sem se identificar de alguma maneira. O filme tem história, é envolvente e mais do que qualquer outra coisa, muito bem representado.

Cristiana de Oliveira é professora universitária, crítica cultural e editora do site

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