Alexander Nevsky – Cabine Cultural
Cinema

Alexander Nevsky

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Alexander Nevsky

O filme Alexander Nevsky (1) começa com um quadro da paisagem desolada das estepes onde há algum tempo ocorreu uma batalha em que homens russos foram derrotados pelos mongóis. O branco dos ossos de guerreiros russos se sobressai em relação ao cinza da relva que cobre os campos sobre os quais os guerreiros em suas armaduras jazem. A cor escura dos capacetes, escudos e roupas de guerra ao lado dos corvos que vêm “visitar” os guerreiros são o contraste destacado naquela paisagem, dando uma idéia de que dali algo vai ressurgir da morte. E o algo não serão os próprios mortos, claro, mas aquilo pelo qual eles morreram. É como se os metais da guerra reluzissem o brilho rubro do sangue a ser ainda derramado em nome da soberania de um povo e o olhar do corvo vislumbrasse o futuro em que o guerreiro acabará com o jugo que sofrem os russos.

Baseado em eventos históricos relativamente bem conhecidos do povo russo, o filme de Eisenstein que comento aqui é um épico que conta a trajetória do líder russo Alexander Nevsky à frente do exército dos principados de Novgorod, Pereslavl, Pskov na guerra contra os cavaleiros teutônicos. O ano é 1242, momento no qual boa parte das terras que mais tarde farão parte do império russo estão ocupadas por estrangeiros. Do lado mais oriental, vêm os mongóis que têm governado várias pequenas cidades; do lado ocidental, os cavaleiros teutônicos germânicos lutam para garantir seu espaço de dominação.

Com os primeiros, Alexander estabelece uma espécie de “pacto” subentendido de apaziguação, depois de recusar o pedido do líder dos mongóis para fazer parte da horda tártara. O “pacto” pretende-se temporário, pois como diz o protagonista “os mongóis podem esperar. Nós enfrentaremos inimigos mais poderosos”. Os inimigos mais poderosos, ou seja, os cavaleiros teutônicos, já haviam penetrado em solo russo e começaram a dominação por Pskov. Nessa cidade os cavalheiros cometem as maiores atrocidades, subjugando toda a população, jogando crianças em fogueiras, enforcando o líder da cidade.

Notícias a respeito dessa ocupação chegam a cidade de Novgorod, onde vivem muitos dos personagens que serão importantes para o desenrolar da trama. Gravila, Vassili e Olga são alguns desses personagens que se encontram em assembléia nas ruas da cidade a decidir pela retaliação e por aquele que será o líder na batalha pela soberania do povo russo – Alexander Nevsky. Depois de o povo decidir pelo comandante na guerra contra os Teutônicos, Gravila acompanhado por alguns guerreiros de Novgorod vai procurar Alexander em Pereslavl para pedir-lhe que comande o exército. Assim como não foi sem impasse coletivo que os guerreiros decidiram por formar um exército sob a liderança de Alexander, não foi também sem impasse subjetivo que Alexander resolve liderar os povos russos na batalha contra os cavalheiros alemães. O exército de Alexander é composto sobretudo por camponeses de vários principados, mas Novgorod é a cidade com maior influência. É lá que se decide pela guerra e quem a conduzirá. Também é de lá que sai o exército a enfrentar os cruzados. Dois guerreiros que lá viviam se destacam: Vassili e Gravilo. Os dois pretendiam trocar as agruras da guerra pela suposta doce vida de casados. A pretendida é Olga que ambos disputam. No impasse, ela estabelece como critério de escolha do futuro marido que o casamento se dê entre ela e o mais bravo na guerra.

Vassili e Gravilo se esforçarão para se destacarem por seus feitos na guerra, mas sem criar qualquer clima de concorrência e sem intervir, a não ser favorável ao parceiro, numa espécie de companheirismo não declarado. O exército russo vai ao encontro dos cavaleiros e entram em batalha. Antes disso, o gênio de Eisenstein já havia preparado toda uma atmosfera pesada em torno do exército teutônico, suficiente para o espectador aderir emocionalmente a causa do exército de Alexander. A frieza do bispo e a arrogância e impiedade dos cavaleiros mestres refletidas em suas indumentárias carregadas e densas são aspectos que sufocam o espectador e o faz querer ser parte do exército de Alexander para sobrepujar a maldade que os alemães carregam consigo. Eisenstein sabia muito bem envolver o espectador nesse clima emocional. Certamente valia ainda muito mais aqui a sua fórmula de “apresentar não apenas uma narrativa logicamente coesa, mas uma narrativa que contenha o máximo de emoção e de vigor estimulante”. (2)

A guerra guarda uma das mais belas imagens épicas do cinema em termos de plasticidade e ritmo das imagens e sons.  Um volume grande de matéria visual e sonora se desenrolam na tela em harmonia compassada. Os movimentos dos guerreiros na batalha são quase os movimentos de uma dança. A sintonia entre a imagem e o som alcançada por Eisenstein com a ajuda do grande compositor Sergei Prokofiev faz do filme quase uma ópera ou balé. Os movimentos da composição de Prokofiev não só complexificou os sentimentos expressos na trama, como também criou imagens que ultrapassaram as imagens plásticas de Eisenstein. O movimento “A batalha no gelo”, por exemplo, é uma música que não esqueceremos. E em certo sentido é dela que depende o desenrolar imagético da batalha no gelo em nossa memória.  A primeira experiência de um longa sonoro do mestre russo das imagens, quase que é eclipsado pelas imagens sonoras de Prokofiev. A grandeza dos dois gênios, no entanto, fizeram da obra um equilíbrio de tensões.

Essas tensões equilibradas vão se desenrolando na trama e envolvendo o espectador. Dos momentos mais dramáticos das lutas corpo a corpo travadas contra os cavaleiros até a grotesca fuga desses em direção à própria morte na armadilha criada por Alexander no gelo quebrado, o espectador é levado a querer também lutar e sofrer e saborear o gosto da vitória. A tensão equilibrada entre imagem e som contribui para que o espectador esteja inteiramente envolvido na trama. E enfim o exército russo é vencedor! No retorno a Pskov se dá o julgamento dos crimes de guerra. É hora de apontar os traidores, determinar as penas dos prisioneiros de guerra e celebrar a vitória. Esse momento final do filme é também, e sobretudo, o da recompensa pela bravura dos guerreiros de Alexander. Vassili diz que o amigo Gravila, que estava bastante ferido, havia sido o mais bravo dentre os guerreiros na batalha contra os cavaleiros teutônicos e portanto Olga deveria casar com ele. Vassili, sem Olga, no entanto, não fica só.  Ao contrário, ele termina o filme com a bela guerreira Vassilissa, a princesa de Pskov, que lutou corajosamente no exército de Alexander. Este último, como um pai solteirão fala aos filhos que se outros povos vierem com ferro, com ferro morrerão e que se os filhos da mãe Rússia não lutar por ele voltará para “puxar as orelhas dos covardes”.

Todo o filme gira em torno da evocação do espírito guerreiro dos russos, da consumação de Alexander como líder e das batalhas que os guerreiros liderados por ele empreenderão contra os cavalheiros cruzados. Os mongóis cujo papel era secundário em relação aos cavaleiros Teutônicos, nos revela um elemento interessante para compreendermos a influência de Stalin na sua produção. Os mongóis poderiam ter conquistado um papel bem diferente na história se Eisenstein mantivesse a sua posição quanto ao tipo de relação que Alexander Nevsky mantinha com os mongóis. Como vai dizer Herbert Marshall no prefácio da autobiografia do cineasta russo, “Eisenstein teve finalmente de submeter-se a vontade de Stalin, aceitando filmar o tema de Alexander Nevsky, embora, na década de 20, pretendesse desmascará-lo como Vassalo dos mongóis”. (3)

As instruções do Partido era a de desenhar o protagonista Alexander à imagem e semelhança da figura que Stalin queria que o seu povo tivesse ao seu respeito, como o grande líder paternal. O filme Alexander Nevsky foi rodado em 1937 e lançado em 1938, nas vésperas da segunda guerra. Depois de 7 anos condenado ao ostracismo, limitado a dar aulas no instituto de cinema, Eisenstein recebe instruções do Comitê Central do partido para a execução do projeto de Stalin. Como vai dizer novamente Herbert Marshall, para garantir que o autor seguiria o prescrito e não enviesaria para aquilo que Stalin considerava formalismo.

“Ele (Eisenstein) teve de prender-se ao que se denominava um ‘roteiro fundido em ferro’ e não divergir do que fora aprovado em altas instancias. Assim, para Alexander Nevsky, deram-lhe Peter Pavlenko como co-autor e D.I. Vassiliev como co-diretor. Ambos pertenciam à linha dura de Stalin.” (4)

O filme em um primeiro momento era do desagrado de Stalin, apesar de ter construído a imagem que o tirano pretendia que fosse criada de si e da adesão aos ideais “socialistas” que o filme realmente despertou nos espectadores. A questão era que Stalin à época estava entusiasmado com as idéias de Hitler e os cavaleiros teutônicos eram justamente alemães que queriam invadir a Rússia na época medieval. Dessa forma, o filme foi rechaçado por Stalin e pouco exibido, sobretudo porque ele havia feito no início da guerra um pacto com os nazistas. Depois que o pacto foi quebrado por Hitler e a Alemanha invade a URSS, o filme volta a cair nas graças de Stalin e, por consequência, a ser exibido e premiado naquele país.

Por conta desses eventos e da sua subserviência a ideologia stalinista, a fita Alexander Nevsky de Sergei Eisenstein, não obstante sua acurada precisão técnica, está impedida de ir mais longe, de alcançar a ousadia estético-simbólica encontrado em obras como A greve ou Que Viva México, ou até mesmo sua obra posterior e mais sincera, Ivan, o terrível. Penso que, em termos de ousadia estética e posicionamento político crítico ou pelo menos independente, essa fita ficou um pouco a desejar. A linearidade e convencionalismo do enredo; o culto a personalidade; a centralidade de um personagem individual nitidamente referenciado a uma autoridade; a coadjuvância subserviente dos personagens; o patriotismo e o heroísmo de guerra bem como os piegas enlaces amorosos apeladores, fizeram desta produção muito mais um instrumento ideológico nas manobras de controle das consciências no regime de Stalin do que uma expressão livre do gênio artístico criador, em defesa da verdade, do bem ou do belo.

Descontados todos esses aspectos, sobretudo os que pretendem dar suporte a ideologia stalinista do conteúdo da fita, Alexander Nevsky é riquíssimo do ponto de vista plástico e rítmico, e não deixa de despertar nosso interesse a ponto de nos mover a encetar uma discussão a seu respeito. Certamente o seu valor histórico é muito valioso até para compreender as nuances políticas a que se submete a arte. Mas também porque a sua inegável qualidade estética nos faz lembrar do filme como uma das mais importantes referências para se pensar o cinema de ontem e de hoje, e de suas possibilidades e desafios ante o contexto no qual é elaborada.

NOTAS:
(1) – Alexander Nevsky. Original: Aleksandr Nevski. Direção Sergei M. Eisenstein, Dimitri Vasilyev. Elenco: Nikolai Cherkasov, Nikolai Okhlopkov, Andrei Abrikosov. URSS, 1938. 112 min.
(2) – EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Tradução Teresa Ontoni. Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor. 2002. p. 20.
(3) – EISENSTEIN, Sergei. Memórias Imorais: uma autobiografia. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. 2002. p. 15.
(4) – Idem, ibidem.

* Washington Oliveira é graduado em filosofia pela Universidade Federal da Bahia.


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