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A Casa

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Perceber o quão sistemático o cinema pode mostrar-se no processo histórico é uma das inúmeras funções de um estudioso nesta arte. Porém, de tempos em tempos, sempre surge um filme que transgride o status quo vigente, criando assim uma nova estética fílmica, um novo padrão de construção narrativa ou uma inovadora técnica de filmagem, levando a crítica especializada para mais um processo de rediscussão da exegese teórica. Entretanto, não são muitas as obras que possuem tal poder e, além disto, retirando esses raros exemplos, a experiência cinematográfica têm se mostrado bastante óbvia, não sendo esta constatação necessariamente um desqualificativo, muito pelo contrário, algumas obras-primas contemporâneas são constituídas de elementos técnicos e narrativos facilmente perceptíveis.

Em A Casa, do diretor uruguaio Gustavo Hernández, vê-se nos primeiros minutos a sequência onde uma garota, ao entrar num carro, se depara com um crucifixo pendurado ao seu retrovisor; ela observa, pensante; a câmera capta esta percepção. Segundos antes, enquanto esta mesma garota caminha com o seu pai em direção a casa que serve de título ao projeto, a trilha sonora, bem destacada, acompanha seus passos. Tal trilha remete o espectador automaticamente a pensar naquelas melodias infantis, vistas por muitas vezes em filmes do gênero suspense/terror envolvendo crianças. Estas duas observações acima caracterizam para a trama o que em linguagem cinematográfica chama-se de relação pista e recompensa, onde o diretor, em um determinado ponto da história, deixa o espectador perceber certo elemento narrativo, a pista, para depois, em algum ponto de virada, ou mesmo no seu desfecho, ele apresentar a recompensa, fazendo o mesmo contemplar, sentindo-se com isso um privilegiado por conseguir seguir tal linha de raciocínio.

A trama de A Casa é centrada na personagem Laura, (Florencia Colucci), que chega com seu pai a tal casa; percebe-se através de um plano mais geral que é um sobrado bem isolado de tudo. Os dois foram contratados por um amigo do pai para realizarem a reforma da casa, e no planejamento implícito, eles dormiriam na primeira noite para assim começarem tal trabalho no dia seguinte. Acontece que nesta noite, Laura acaba vivenciando experiências aterrorizantes.

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Sua narrativa, muito próxima de projetos como A Bruxa de Blair ou até mesmo REC, possui um diferencial que o destaca inicialmente, que é o fato dele ser supostamente rodado em um único plano-sequência. Esta é a idéia passada pela equipe de divulgação, que no entanto se esvai, não sendo nem necessário um conhecimento profundo de técnicas de filmagens para perceber que, tal como Alfred Hitchcock, em Festim Diabólico, Gustavo Hernández também se utilizou de takes onde a câmera fechava em pontos escuros para assim realizar tais cortes. Este detalhe não desqualifica de forma alguma o trabalho de direção, que é admiravelmente bem realizado.

Com um bom trabalho de câmera na mão, uma direção de fotografia competente, preocupada em fornecer planos elegantes ao espectador, o ponto fraco da trama reside invariavelmente no roteiro, que, buscando certa originalidade em seu desenvolvimento, constrói uma história estapafúrdia, de uma confusão tremenda, que se delineia num desfecho anticlimático e que prejudica todas as boas intenções da equipe técnica do projeto. Sua história, vendida como sendo baseada em fatos reais, é desmentida pela idéia de verossimilhança, que a partir de certo momento da narrativa, fica inexistente, fazendo o filósofo Aristóteles, possuidor de tal idéia aqui, se revirar no seu túmulo com o aparente descaso que os roteiristas tiveram com este elemento importante do filme.

Fica a menção de que tal confusão de roteiro se instala somente na segunda metade da trama, que por sinal se inicia promissoramente, com bons elementos narrativos, incluindo ai a relação pista e recompensa já citada. A iluminação utilizada, bastante fraca, sendo construída basicamente pela luz advinda da lanterna carregada por Laura, é um ponto de destaque, trazendo como resultado uma atmosfera de suspense perceptível ao espectador. Alguns takes de câmera também merecem destaque, principalmente os que dialogam com simbolismos, e nesse sentido, todo o trabalho que ela realiza com espelhos é interessante, agregando qualidades.

Com o seu desfecho posto, fica a sensação no espectador de que a história de A Casa poderia ter sido muito melhor contada, prejudicando um projeto que possuía condições de realmente se destacar na multidão e que, mesmo sem o poder de mudar o status quo vigente, ele certamente seria uma referência no cinema deste gênero.


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