Capitães da Areia: livro e filme – Cabine Cultural
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Capitães da Areia: livro e filme

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Capitães da Areia

Longe de pensar o livro como uma apologia ao que fere a dignidade humana, ler Capitães da Areia representou um misto de sorrisos, de revoltas, de luta, de busca pela sobrevivência

Por Cristiana de Oliveira

O encontro com o livro Capitães da Areia, ao menos para uma boa parte que cresceu na Bahia e o leu em sua adolescência, se mistura com uma espécie de encontro com a maturidade. Para quem ainda não via os meninos de rua abraçados com todo preconceito que o medo e a injustiça adulta nos traz, eles representavam, de igual para igual, a identificação com a vontade de liberdade, com os sonhos românticos, com o desejo mais que agradável de “girar num grande carrossel de cavalos invisíveis”. Andar pelas ruas de Salvador ganha um especial sentido depois desse encontro, talvez por isso o livro se torne tão cheio de idiossincrasias. Os relatos do sono à beira-mar, com lanterna de lua e noite em verde-escuro nada se pareciam com o fato de dormir ao relento e de ver nisso uma afronta social. A impressão que se tem é que se cresce com o livro. Os capitães da areia, antes de qualquer coisa, assumiam um papel de ordem ou mesmo de ensino: tinham um líder, regras, eram cúmplices…tinham sonhos.

Pedro Bala, como um herdeiro do movimento sindical, Gato, como um menino vaidoso e elegante, Volta Seca, com toda a carga de história que Lampião já trazia, Pirulito com sua fé voraz e o Professor, que também teve um destaque especial em meio a essa “formação”, como se o fato de ler para os Capitães da Areia tornasse esse último personagem um tanto peculiar, deixando a literatura o tempo inteiro presente, mesmo nas narrativas mais práticas de suas vivências. Não deve ter sido à toa também que Dora, uma figura feminina, entra para o “capitães”, como se o desejo fosse mesmo o de abarcar toda e qualquer alma, sem deixar nenhuma delas de fora da trama.A leitura parece nos alertar para algo que está fora do lugar. Na adolescência isso não parece tão político e não se mostra tão claro, mas quando se é adulto percebe-se que aos poucos, no decorrer de toda a nossa vida, esse processo de formação e indignação por tanta injustiça social se faz pelos mínimos detalhes, e Capitães tem lá seu lugar garantido.

Longe de pensar o livro como uma apologia ao que fere a dignidade humana, ler Capitães da Areia representou um misto de sorrisos, de revoltas, de luta, de busca pela sobrevivência, de encontro com a morte, de enfrentamento do abandono, de vontade de mudança, de reflexões sobre a religião, do encontro com a realidade. De uma realidade que só era lembrada quando alguém importante era alvo de um deles. A expectativa agora se volta para a visualização, por imagens e sons, de todos esses sonhos e experiências que a leitura do Capitães nos deu. Afinal de contas, ver os donos da cidade nas telas de cinema já tem lá seus encantos… em todos os sentidos.

Cristiana de Oliveira

Cristiana de Oliveira é professora universitária, crítica cultural e editora do site


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