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Já me vi por diversos momentos refletindo sobre o quão minha vida seria diferente caso tivesse vivenciado, até mesmo presenciado algo de trágico na infância. Será que teria eu alguma capacidade de superação, seguindo assim o curso da vida sem sequelas? Será que conseguiria, mesmo com cicatrizes latentes, vencer esses possíveis traumas e de alguma forma viver bem? Ou será que minha personalidade seria uma consequência direta e imediata de tal acontecimento, fazendo-me emperrar no que chamamos de tempo, levando-me com isso pra um constante estado de estagnação, de desesperança, vivendo por anos e anos com este fato arraigado na cabeça?

Com esta última possibilidade em mente, vos apresento Submarino, de Thomas Vinterberg.

Não custará muito tempo para o leitor e espectador compreender o real significado do parágrafo acima, já que logo aos primeiros instantes da trama somos apresentados aos dois principais envolvidos na reflexão. Assistimos, numa espécie de preâmbulo, Nick (Sebastian Bull Sarning) e seu irmão (Mads Broe Andersen) tomando conta de um bebê, o então caçula da família, pois sua mãe, constantemente embriagada, já não mais consegue. Certo dia, porém, os dois, então pré-adolescentes, adormecem após uma noite regada com muita vodca, e que acaba acarretando na prematura morte do bebê.

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Partindo deste fúnebre evento, Vinterberg constrói sua história: um drama denso, cercado de pessimismo e possuidor de um vazio existencial provocador. Findada a tragédia que serve de premissa, a narrativa entra numa grande elipse, transportando seus personagens para a meia idade. Aqui, na primeira sequência pós-evento, observa-se um Nick (agora interpretado por Jakob Cedergren) com olhar visivelmente perdido caminhando pelas ruas da cidade e, assim que avista um carrinho de bebê, vê-se afrontado pela câmera; ele reage, fazendo-nos automaticamente perceber que ele não superou o trauma vivido na infância. A partir de então a trama apresenta diversas situações que reafirmam esta perspectiva, utilizando-se para isso de uma atmosfera cinzenta, arquitetada por uma fotografia preenchida por paisagens mortas, e de um interessante trabalho cenográfico, onde há sempre pouco espaço para ser mostrado e quando o são, percebe-se uma completa ausência de cores fortes, perpassando um ar de inalterável tristeza.

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O roteiro, assinado por Thomas Vinterberg, Jonas T.Bengtsson e Tobias Lindholm apresenta qualidades, mas também defeitos. O primeiro capítulo, por assim dizer, é competente ao apresentar o contexto no qual Nick é envolvido: sua relação amorosa bastante peculiar, a amizade com um sujeito de conduta visivelmente confusa e sua busca pelo irmão, afastados já há algum tempo. Contudo, a tentativa de emoldurar uma trama mais engenhosa acaba não agregando tanto valor, pois é de fácil captação pelo espectador. Presumimos com certa rapidez os próximos passos que serão dados pelo personagem, o que não seria problema algum caso o roteiro tivesse este viés em mente.

O capítulo seguinte apresenta o drama de seu irmão (vivido agora por Peter Plaugborg), obrigado a esconder do filho menor sua dependência química. Nesta parte, Vinterberg é bem feliz ao conduzir o personagem pra reprodução de todo um contexto que vivenciara na infância: desde a falta de maturidade ao colocar uma criança no mundo, até as constantes derrotas perante o vício, no caso agora, da heroína. Nesta parte da trama há o entrelaçamento das histórias, trazendo à tona toda a preocupação dos roteiristas em oferecer uma construção narrativa mais elaborada e não linear. O resultado não compromete, mas também não proporciona entusiasmo, pois, como já afirmado, não é de difícil percepção pelo espectador.

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Submarino mostra-se um drama poderoso, construidor de uma história de gradativa imersão à tristeza, que conduz o espectador às profundezas de almas desesperançadas, fazendo-me mais uma vez pensar numa das questões que introduziram este texto. Será que uma vez acometido por um trauma, não mais há possibilidade de salvação?

 Thomas Vinterberg acabou de responder-me.




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