Resumindo o Ciclos de Jornalismo (Parte dois) | Cabine Cultural
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Resumindo o Ciclos de Jornalismo (Parte dois)

Completando o relato sobre o projeto Ciclos de Jornalismo, volto-me agora para a segunda parte do evento. Até então somente os críticos João Carlos Sampaio (Jornal A TARDE), Hagamenon Brito (Jornal Correio) e Antonio Marcos (Jornal O Globo) tiveram a palavra.

Messias, já na sua fala, afirmou que há uma série de limitações na leitura de uma obra de arte e que assim a crítica acaba funcionando como mediadora entre tal obra e público. E que sua função seria, dentre outras, apresentar ao criador uma outra interpretação sobre aquele objeto. Na sua rápida explanação, ele citou Adorno e indicou ser a crítica cultural um elemento que induz o consumo.

Hagamenon interveio à fala de Messias para compartilhar com todos um fato que o incomoda. Ele disse que as novas tecnologias têm tomado bastante espaço no processo de produção de textos, e que por isso deve-se diferenciar bem o amador do especialista e que ter um órgão que legitime seu trabalho é importante para que o mesmo seja respeitado no mercado.

João Sampaio então tomou a palavra para discordar de Hagamenon. Para João, tem que haver essa falta de distinção entre amador e especialista, não devendo existir diferença alguma. Caberá ao leitor fazer qualquer tipo de hierarquia ou juízo de valor na escolha dos seus colunistas e críticos favoritos. Claro que o trabalho legitimado possui um maior valor, mas não se deve diferenciar automaticamente, já que há vários ditos amadores que escrevem muito mais agradavelmente que muitos legitimados pela classe. João Sampaio continuou afirmando que o trabalho de escrever um texto crítico é desenvolvido também por um viés pessoal, pois seu trabalho se constitui em opinar sobre algo; deve-se, no entanto, tomar cuidado e tentar interpretar uma obra deixando as opiniões pessoais como elementos do texto e não como seu norte.

Antonio Marcos complementou essa discussão sobre amador versus especialista dizendo que devemos confiar na sagacidade do público, que rejeitaria tranquilamente qualquer um com o qual não se identifique, independente do nome que este possua no mercado.

A professora Rachel Lima interveio e acabou tocando em um tema que muitos evitam: estaria a crítica cultural vivendo uma crise de identidade? Para ela, é certo que a perspectiva vive uma transição, talvez paradigmática, mas que não é, de modo algum, apocalíptico. Assim, não se deve haver um certo ar de melancolia, mesmo percebendo que o trabalho de escrever mais densamente sobre um tema tem passado por momentos de deteriorização visíveis. O jornal impresso vem passando também por tal fase de deteriorização. A professora clamou por uma autonomia do crítico, que ele nunca deve escrever de modo impessoal, objetivo, pois é um mal. O que deve haver é uma coerência e respeito para com a obra, mas o criticar, mesmo que seja negativamente, é um princípio básico do trabalho. Ela até exemplificou com um determinado crítico que nunca tinha falado mal de ninguém em seus textos, e que isso não é produtivo, nem ajuda no processo de obtenção de credibilidade. Ela terminou afirmando que a crítica deve então ser subjetiva e sempre que possível, inovadora.

Hagamenon, ao relatar seu modo de trabalho, disse que ao escrever sobre um álbum ou sobre um artista, sempre busca compará-lo com os seus trabalhos anteriores, ou com outros artistas; ele busca em todo momento estes comparativos, pois agrega elementos qualitativos no seu texto e na compreensão do leitor.

João Sampaio, já dentro da perspectiva cinematográfica, disse que o crítico deve sempre evitar adjetivos desnecessários. Escrever que tal obra é impactante, acachapante ou esteticamente bela soa vazio e sem propósito, sendo muito mais adequado direcionar o discurso para elementos que se possa ilustrar com exemplos do próprio filme; além de ficar mais claro, torna o texto mais crível e honesto, digamos assim.

André Setaro, talvez o grande nome da crítica cinematográfica na Bahia, tomou, pela primeira vez no evento, a palavra, e discorreu brilhantemente sobre o fazer crítica. Ele, já na primeira frase, disse: crítica é a arte da paciência. Gênio!

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A partir daí ele afirmou que o repertório técnico de um profissional da crítica cinematográfica vem com o tempo e com o consumo de filmes, aliado ao estudo de linguagem e estética. Ele fez um panorama da crítica no Brasil, indicando os anos 1950 e 1960 como tempos de formação de grandes nomes desta arte: Paulo Emílio e Almeida Salles foram usados como exemplos. Mas afirmou que nesta época se sobressaia a crítica literária (semântica), voltada mais para o conteúdo narrativo, para a história do filme. Assim a obra era boa quando o tema era legal. Foi a partir dos anos 1960 e 1970 que veio a sintática, com José Lírio. Para Setaro, esta é a perspectiva mais adequada, pois o crítico acaba por ver o filme como uma obra de estrutura audiovisual, com significação semântica aliada a significação sintática, pois, por mais que o tema da trama seja nobre, ela não se sustenta sozinha. Setaro se mostrou incomodado (todos na verdade se mostraram) com o fato de ser por demais complicado escrever sobre cinema baiano, pois os autores sempre levam para o campo pessoal e o crítico acaba transformando-se em inimigo do cinema baiano somente por não escrever sempre de forma elogiosa. Para completar, ele confessou achar a produção baiana de cinema extremamente medíocre e para que a crítica de um filme local não seja horrível ele busca sempre analisar pela campo semântico (história), mas ainda assim, escrever sobre o cinema da Bahia equivale a procurar tirar cabelo de ovo.

João Sampaio acabou por compartilha desta angústia sentida por Setaro, afirmando que ter uma postura de independência é fundamental para ser respeitado, mesmo que a crítica não seja elogiosa com um filme produzido no Estado.

O debate, já próximo de seu fim, abriu-se para perguntas da plateia. Uma delas procurou saber se existe uma frustração do crítico, pois ele aparenta ser alguém que não consegue produzir arte, então resolve escrever sobre.

Hagamenon, em resposta, citou Oscar Wilde: Por não saber fazer algo, você escreve melhor sobre.

Antonio Marcos, ao responder sobre o estágio atual da crítica literária, mostrou-se triste por ver que críticos como José Castelo se perdeu com o tempo e que hoje seu trabalho não apresenta nenhuma antagonização, sendo somente babação de ovo para com os escritores. .

Perguntaram para Setaro se realmente o cinema havia morrido em 1959. Ele respondeu que, segundo Orson Welles, a linguagem foi construída de 1915 a 1962. Neste espaço de tempo se deu o apogeu do cinema em  termos de linguagem cinematográfica. O que hoje existe é uma vanguarda temática, mas não uma vanguarda sintática. Este era o ponto que queria tocar.

João Sampaio complementou ao afirmar que a criação continua, é inapropriado afirmar que o cinema morreu em tal época. Apresentou como exemplos os filmes Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, possuidor de uma narrativa bem peculiar e As Hiper Mulheres, que tem uma narração produzida a partir do modo indígena de ver o mundo.

João, ao responder sobre a relação tempo de produção de um filme (anos) e tempo de produção de uma crítica (horas) disse que realmente se sente prejudicado por essa rotina que exige um texto logo após a experiência de assistir um filme pela primeira vez. Deveria haver, segundo ele, um modo ideal, mas como não há, deve adequar-se ao sistema, sendo (pelo menos) o mais coerente possível com o leitor.

Antonio Marcos completou dizendo que o ideal é uma idealização.

Mais algumas questões foram feitas e ao fim todos os críticos foram intimados a indicar o que de bom vem sendo construído na Bahia nestas três perspectivas artísticas. Na área de cinema, João Sampaio citou os coletivos de cinema, mas disse que a Bahia está por demais atrasada neste viés. Disse também que investimento público não pode ser a única via para se produzir filmes no Estado e que a Bahia infelizmente ainda não acordou pra isso.

Hagamenon Brito disse que de três anos para cá o mercado fonográfico baiano tem crescido bastante em qualidade, indicando o trabalho da Mariela Santiago como exemplo. Também falou do campo do rock e pop, que a Bahia teve seu grande momento com o estouro da Pitty, mas não soube aproveitar tal fato para melhorar a cena local, pois ainda há aquele discurso antigo e vazio de que na Bahia só existe espaço para a Axé Music (termo criado pelo próprio Hagamenon, diga-se de passagem).

Antonio Marco disse que não consegue acompanhar a cena literária local, por isso não fez maiores considerações sobre.

Ao final do evento, ficou evidente que o trabalho de crítica cultural envolve uma série de fatores, desde técnicos (conhecimento de linguagens, estética, técnicas especificas) até estratégicos (saber conduzir um texto sobre uma obra local, saber evitar escrever sobre algo ou alguém por quem tem relação estreita de amizade…), mas que é, ao fim das contas, um prazeroso modo de viver, pois acredito que não haja nada de melhor para fazer do que dialogar com artes que você tanto ama e admira.

Fica assim o desejo de que mais e mais eventos desta natureza ocorram em Salvador. E parabéns aos organizadores!

* Imagens tiradas pelos estudantes Renato Alban e Daniele Rodrigues (Labfoto/Facom)

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