Conversas Plugadas – Márcio Meirelles | Cabine Cultural
Teatro

Conversas Plugadas – Márcio Meirelles

Márcio Meirelles

Segunda-feira passada, dia 17 de outubro, aconteceu mais uma edição do Projeto Conversas Plugadas, uma iniciativa da FUNCEB – Fundação Cultural do Estado da Bahia – e que trouxe como convidado o artista e ex-secretário de Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles.

Numa posição bem descontraída, Márcio Meirelles se deteve numa retrospectiva do então extinto grupo teatral Avelãz y Avestruz, projeto que o lançou na carreira artística e que projetou outros grandes nomes para o cenário cultural do nosso Estado. O grupo, vale destaque, completa agora em 2011, 35 anos de história. Bem à vontade com a plateia – formada em grande parte por amigos e integrantes do próprio Avelãz y Avestruz e do Bando de Teatro Olodum (que juntamente com Chica Carelli cria na década de 90) relembrou muitas histórias da gênese do grupo, desde uma turnê meio atabalhoada pelo Rio de Janeiro até a alimentação do pessoal em dias de ensaio, sendo composta por semanas de,  basicamente, leite e queijo. Ou queijo e leite, nas palavras do próprio Márcio, que destacou a importância de relembrar de um grupo que começou de alguma forma quando o Brasil estava repensando o teatro (1976) e quando vários outros  estavam surgindo, mesmo os de trajetória do teatro universitário que aparece como projeto artístico ou mesmo político.

Márcio também relembrou das primeiras montagens, Salomé, Fausto, Alice e MacBeth, todos clássicos estrangeiros. Ele continuou a contar histórias, muitas delas com a ajuda de Hebe Alves (uma das fundadoras do extinto grupo), sentada na segunda fileira da Sala do Coro do Teatro Castro Alves, local do evento e um espaço que ele destaca como sendo importante em toda a sua trajetória. Após pouco menos de uma hora de conversa, foi aberta à participação do público, o que trouxe certo dinamismo ao evento, até então um pouco monótono por conta de se voltar para histórias que envolviam apenas o grupo. Márcio Meirelles respondeu sobre como era o trabalho do grupo na Ditadura Militar, se havia censura por parte dos governantes. Sua resposta em alto e bom som foi um claro não, não fomos censurados. Mas isso se deve mais ao teor não politizado das peças encenadas do que por uma boa conduta dos governantes deste período nefasto da história brasileira.

Depois, ao falar das políticas públicas inexistentes nestas décadas – 70 e 80 – ele mencionou o fato de que isso acabou influenciando na sua conduta enquanto secretário estadual da cultura, cargo que exerceu no primeiro mandato do governador Jacques Wagner. A partir daí a conversa plugada entrou nos seus momentos, digamos assim, mais interessantes. Primeiro, ao falar de sua experiência como secretário, Márcio se disse chateado com o fato da classe artística ter sido a que menos acreditou nele nesta função. Este descrédito dos artistas com eles mesmos o incomodou na época de sua gestão. Também falou que o artista é, acima de tudo, um ser politizado, e que hoje em dia, longe da política propriamente dita, ele sente-se e age mais politicamente que antes. Falou que a função do teatro hoje é diferente daquela de décadas atrás, não sendo necessário uma comparação, já que o advento das novas tecnologias fizeram com que o mesmo fosse obrigado a readequar-se  ao mundo contemporâneo. Segundo Meirelles, é um processo ainda não bem sucedido para o teatro.

E por fim, ao falar  sobre a temática das primeiras peças do Avelãz y Avestruz, formada em sua maior parte de  releituras de peças internacionais. Márcio foi indagado do porquê dessa escolha por projetos de cunho estrangeiro já que ele como baiano deveria valorizar mais assuntos que espelhassem sua baianidade. Ele respondeu afirmando ter sido árdua esta constatação e que só obteve-a quando foi estudar nos Estados Unidos, onde inicialmente passaria mais de seis meses e voltou depois de apenas um. Foi lá que chegou à conclusão de que estava indo pelo caminho que não era o dele, que os americanos se voltavam para as próprias particularidades e que em vários momentos tentamos copiar. A partir dali percebeu que era necessário se redescobrir enquanto artista e enquanto baiano, ou seja, como artista que mostra nossa identidade e que faz alguma coisa que só pudesse ser vista ou feita na Bahia. Tempos depois criou o Bando de teatro Olodum, que segundo ele, é a grande resposta aos seus questionamentos do passado.

Para relembrar os 35 anos do Avelãz y Avestruz está prevista uma exposição que será realizada entre os dias 23 de outubro e 13 de novembro de 2011, das 12 às 18 horas, no foyer do Teatro Castro Alves, com entrada gratuita. A comemoração se dará também com o “Leitura Dramática: lá vem o elenco”, que acontecerá no dia 26 de outubro, quarta-feira próxima. Evento que compõe a grade de programação do FIAC-Ba (Festival Internacional de Artes Cênicas), vide post anterior.

Uma resposta para “Conversas Plugadas – Márcio Meirelles”

  1. Poxa! Eu perdi esse “Conversas Plugadas pq fiquei doente… Bom que você fez essa cobertura! Estive numa conversa com Marcio Meirelles na FACOM, num evento promovido pela Produtora Júnior e foi muito bom, bastante descontraído tb.
    Parabéns pelo blog!

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