Grand Théâtre Pão e Circo
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Grand Théâtre Pão e Circo

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Grand Theatre Pao e Circo

Grand Theatre Pao e Circo

Mas seu poder reside justo nesta função, de somente fazer fluir com maior agradabilidade o texto de Carolina Kahro. É um trunfo

Existe todo um fascínio pela violência, pela selvageria e pelo presenciar a desgraça alheia que é inerente ao ser humano, independente de qualquer separação que se procure obter: seja de religião, época, nacionalidade ou gênero. Somos todos atraídos pelo (hipotético) sangue que espirra da cabeça daquele jovem rapaz que acabara de ser assassinado. Tudo captado em alta resolução pela televisão, a verdadeira arena romana da nossa contemporaneidade.

Este incontrolável desejo visual é um dos motes para o desenvolvimento narrativo do belo espetáculo Grand Théâtre Pão e Circo, exibido ontem na abertura do FIAC (Festival Internacional de Artes Cênicas) e que terá mais algumas sessões durante o evento.

Protagonizado pela multifacetada Carolina Kahro, que além de atuar assume a direção e a cenografia, o espetáculo conta duas histórias afastadas nas suas partes, mas que se interligam no seu todo. Essa divisão propicia apresentar dois modos distintos de abordagem das temáticas propostas. Observa-se na primeira perspectiva uma mulher e mãe solteira no seu dia a dia de classe média, sendo instigante perceber como suas ações (e reações) são externalizadas sempre que se vê tocada pelos males da atualidade, seja numa matéria jornalística produzida num longínquo país do Oriente Médio, seja num pedido de esmola feito por um menino em um Shopping Center.

Interessante ainda observar sua relação com o filho, com os amigos e com a empregada, e compreender como todas estas situações construídas oferecem elementos para uma reflexão mais séria sobre valores sócio-morais da modernidade. Importante também se ater às divagações solitárias da personagem, pois nessas se encontram muito do que cada espectador pensa e sente da vida, mas que se constrange a assumir.

Em um segundo momento a trama se volta para a empregada: mulher casada e declaradamente pobre. Há todo um olhar sobre sua relação com a violência, principalmente com as imagens que são reproduzidas diariamente nos mais diversos programas de TV. Neste sentido, é bem interessante a (aparente) mensagem passada pela direção de arte do espetáculo ao colocar num mesmo balaio programas como o Jornal Nacional, elitizado, e o Programa do Ratinho, de cunho muito mais popular. Ambos, por mais diferentes que possam ser numa primeira olhada, oferecem  ao espectador – em diversos momentos –  o mesmo produto: a violência transposta por imagens. Estas mensagens, por sinal, são evocadas através do produtivo uso que se faz do cenário, de grande apelo imagético e que consegue se inserir organicamente no texto, dialogando de maneira direta com tudo o que se passa nas falas pronunciadas pelos personagens.

Há ainda uma trilha sonora que, discreta, ajuda sobremaneira no desenvolvimento da dramaturgia. Pode-se achar (erroneamente) o trabalho de trilha sonora neste espetáculo como algo secundário, por não ser de intenso apelo no decorrer da história. Mas seu poder reside justo nesta função, de somente fazer fluir com maior agradabilidade o texto de Carolina Kahro. É um trunfo.

Mesmo com uma narrativa bem construída e com um apelo visual interessante, chega a ser indiscutível que o principal destaque do espetáculo reside na atuação de Carolina Kahro, convincente em todos os aspectos. Ela consegue admiravelmente “entreter” qualquer plateia nos seus 55 minutos de duração, e como bônus, oferece elementos instigantes à reflexão, transformando seu espetáculo numa bela experiência que alia certo poder cômico/satírico (o espetáculo não é uma comédia) com crível capacidade de incitar o público para pensar seriamente sobre alguns temas relevantes. Essa constatação é das mais elogiosas para qualquer projeto artístico, seja teatral, musical ou cinematográfico.

E para os que acreditam que se falou demais, fica o aviso: estes são apenas alguns dos pontos abordados por Grand Théâtre Pão e Circo, há muito mais para ser desvendado e compartilhado com a plateia.

Como nota positiva, vale destacar a organização do festival, que ao menos em seu primeiro dia se portou adequadamente, fazendo, por exemplo, cumprir os horários dos espetáculos. A nota negativa fica a cargo de uma suposta falha da produção do festival (ou de algum outro responsável) em não ter avisado antecipadamente para a plateia que haveria um debate após a sessão de Grand Théâtre Pão e Circo. Houve um esvaziamento razoável de pessoas e muito disso foi consequência do desconhecimento por parte do público da informação de que ocorreria uma conversa pós-peça.

* Espetáculo visto na quarta edição do FIAC (Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia).


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