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Como Esquecer

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A dor de perder alguém seguramente se encontra entre os sentimentos mais consternosos existentes na vida humana e Malu De Martino tinha boa noção do poder que essa sensação possuía em uma história quando decidiu se responsabilizar pela direção do filme Como Esquecer.

A trama central envolve três personagens, três experiências de perdas distintas, mas todas possuem uma mesma percepção arrebatadora de que a vida perdeu certo sentido desde então. Acompanha-se assim cada um destes personagens levando adiante suas vidas, confrontando-se com os ocorridos na tentativa de superá-los. Ou o contrário. Tudo desenvolvido nestes dois caminhos antagônicos, com um razoável teor de honestidade e verossimilhança, tornando-se bem difícil não criar identificação em alguma das histórias que servem de base para o filme.

Entrando propriamente na trama, temos Julia (Ana Paula Arósio), uma professora universitária que ainda não conseguiu superar o fim de seu relacionamento amoroso com Antonia – talvez a grande personagem da história, mas que curiosamente não aparece em nenhuma cena sequer – e que se vê levada numa situação de total desesperança com tudo que a cerca. Ela é amarga, seca, ríspida, grosseira em certas ocasiões, mas é acima de tudo infeliz. O amigo Hugo, vivido por Murilo Rosa, se encarrega então de tirá-la desse estado de estatismo emocional. Entretanto, ele acabara de ver sua relação desmoronar, não por conta de uma separação nos moldes mais tradicionais, mas pela única perda onde não há condições de reversão: a perda pela morte de seu parceiro.  Por mais que tente se esforçar para afagar os ombros da grande amiga, chega momentos em que ele se apercebe completamente desesperançado, desolado e sua válvula de escape já não mais funciona. Completando o trio de personagens, temos Lisa, interpretada por Natália Lage, jovem advogada envolvida numa delicada relação, agravada pelo fato de se encontrar grávida e abandonada pelo namorado. Os três então decidirão reconstruir juntos suas vidas, compartilhando suas amargas experiências numa mesma casa alugada, bem distante da cidade grande.

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A direção empregada no filme é bem segura de seus objetivos, desde a apresentação dos seus personagens até a atmosfera passada, que é de uma suave tristeza combinada com um teor de melancolia pela lembrança de uma época que possivelmente não mais voltará. As primeiras cenas servem de exemplo ao mostrar Julia sendo filmada por sua então companheira, numa tentativa de explorar sua complexa personalidade: ali Julia está feliz, mas a canção utilizada de fundo, Retrato em preto e branco, de Elis Regina, oferece indícios de que essa felicidade não será elemento frequente na história.

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A construção dos personagens é interessante pela diversidade sexual, já que a trama é desenvolvida a partir de uma relação homossexual feminina, outra masculina e uma relação hétero, dando o entendimento de que o filme além de se propor a contar uma história, procura servir-se como exemplo para incitar reflexões sobre relações homoafetivas. Há inclusive uma sequência onde os três conversam sobre leis de proteção a casais gays. A fotografia segue o mesmo ritmo desta atmosfera mais geral, dando tons cinza ao projeto, auxiliando sobremaneira nesta percepção de amargura captada por todos no filme. Na cena em que Julia caminha solitária pelos arredores do mar, o clima nublado aliado com a imagem acinzentada proporciona ao espectador uma das grandes qualidades de Como Esquecer: sua melancólica beleza plástica.

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Alguns elementos no filme incomodam, como uma já tradicional narração em off. Este artifício que há tempos era sinônimo de bom gosto e criatividade hoje se mostra muitas vezes desnecessário, indicando uma preguiça em apresentar ideias através da simples junção constituída entre diálogos e imagens. Outro fator questionável reside em seu próprio desfecho que, numa tentativa de passar uma mensagem mais otimista acaba se distanciando dos elementos essenciais da história.  Entretanto esses incômodos não são suficientes para desqualificar a trama de Malu de Martino, que se mostra bastante interessante em seus mais variados aspectos.

Como Esquecer não deveria de forma alguma ser esquecido pelo público, pois representa com bastante dignidade uma nova safra de bons filmes que o cinema nacional vem apresentando nestes últimos anos. Sua temática, diferenciada, ajuda a pluralizar ainda mais o acervo cinematográfico brasileiro, agregando muito ao bom trabalho desenvolvido pela diretora Malu De Martino e pela (dentre outras) sua atriz principal, a bela e talentosa Ana Paula Arósio.




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