Contágio | Cabine Cultural
Críticas

Contágio

Contágio

Contágio

Meses atrás Steven Soderbergh anunciou sua aposentadoria como realizador de cinema, fato que já foi desmentido por vezes e que agora ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com o futuro de sua vida profissional. Mas ponderando-se na hipótese da declaração inicial ser verdadeira, cabe aqui uma pequena pergunta: Contágio (2011) fecha com chave de ouro sua história como cineasta?

Um fato é incontestavelmente digno de aplausos: sua possível despedida contou com um elenco dos mais habilidosos e proeminentes do cinema atual, onde ressalta-se consagrados nomes como Jude Law, Kate Winslet, Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Laurence Fishburne e Marion Cotillard. É notório que não é tarefa das mais fáceis em Hollywood recrutar um cast com tamanha competência, porém Soderbergh não só conseguiu, como bem da verdade ele somente reproduziu uma experiência que já realizara antes em filmes como Onze homens e um segredo e Traffic. O mote central de Contágio não é dos mais originais, mas ainda assim bem interessante. A narrativa acompanha a rápida evolução de um vírus mortal, que se transmite pelo ar, matando muitas pessoas em poucos dias. Como essa epidemia se dissemina ligeiramente, a comunidade médica mundial então inicia uma corrida para descobrir a cura e com isso tentar controlar o pânico que se alastra – de modo tão poderoso quanto o próprio vírus – pela cidade.

Leia também:  Darkside lança “Abominação”, fascinante mergulho sangrento na mitologia nórdica

Assim as histórias de Beth (Gwyneth Paltrow) e Mitch Emhoff (Matt Damon), Erin Mears (Kate Winslet), Ellis Cheever (Laurence Fishburne), Alan Krumwiede (Jude Law) e Leonora Orantes são contadas separadamente, sendo entretanto interligadas no seu todo, oferecendo ao espectador a possibilidade de observar uma mesma questão por diferentes pontos de vistas.

Pensar nas referências que dialogam com o filme não é muito difícil, vide títulos como A Epidemia ou Extermínio, o que torna – ao menos numa primeira olhada – a trama um mero reprodutor do que já vem sendo apresentado nas últimas décadas. Apesar de oferecer alguns elementos atraentes, Contágio peca em não oferecer inovação alguma, nem tampouco traços de originalidade. Não que isso seja realmente necessário, mas com certeza seria um elemento agregador de qualidade.

Soderbergh foi ao menos bem feliz no processo de montagem da história, trazendo com isso um dinamismo narrativo que dificilmente transmitirá sensação de tédio no espectador. Esse fato aliado com a pulsante trilha faz de Contágio uma experiência nada maçante, te levando para uma jornada sonora bem intensa.

Leia também:  Crítica O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

A história também oferece um retrato muito fiel da contemporaneidade, já que vários dos seus elementos constitutivos estão lá incluídos: desde a valorização das mais diversas ferramentas virtuais, como Facebook, Blogs e Twitter até a paranóia sócio-midiática que se alastrou de vez num mundo pós-11 de setembro. Neste sentido há sim um diálogo muito interessante, mas que não se mostra tão poderoso ao ponto do filme se transformar em referência futura.

Pensando propriamente nos incômodos observados ao longo das quase duas horas de duração, existe um que particularmente chama a atenção, e que se constitui pela ausência de um tom mais aprofundado na construção da personalidade dos seus personagens, o que impede uma empatia maior do espectador para com eles. Seus arcos narrativos são muito bem produzidos tecnicamente, mas falta-lhes uma base mais profunda e emotiva para fazer de vez o filme engrenar enquanto drama. Há de se compreender que possivelmente este não era elemento prioritário no projeto, mas ainda assim o resultado final acaba sendo prejudicado.

Contágio ao fim das contas possui um belo corpo, mas talvez lhe falte alma.




Deixe uma resposta