Festival 5 Minutos 2011 - Programa 2
Cinema

Festival Nacional 5 Minutos – Programa 2

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5 Minutos

 

Mostra competitiva do Festival Nacional 5 Minutos. Comentários sobre o Programa 2 – 13 vídeos.

1. Cinco Minutos com Darcy, de Roberto Berliner (2011, Rio de Janeiro – RJ).
[Fernando]
Fragmento de uma conversa realizada com o antropólogo Darcy Ribeiro em dezembro de 1996, dois meses antes de seu falecimento. Um registro histórico dos mais interessantes e relevantes e somente isso já o credencia como um grande trabalho de vídeo. Darcy Ribeiro divaga sobre os mais variados assuntos, sempre com absoluta simpatia, empatia e honestidade, tomando para si também os trabalhos de roteirista e câmera do projeto. É um curta do Darcy Ribeiro, com o Darcy Ribeiro e que no fim das contas soa como uma homenagem das mais belas ao Darcy Ribeiro.

[Cristiana] O curta é parte de um projeto maior com duração de 30 minutos. A pergunta inicial é sobre o tempo. O “sei lá” sonoro de Darcy Ribeiro marca a forma. O mais interessante do curta é exatamente como a entrevista acontece. Normalmente se vê documentários onde o entrevistado aparece sempre muito elegante e cordato. O cinco minutos com Darcy ganha ponto exatamente por mostrar um Darcy como ele é, em vários momentos do vídeo aparece mal humorado e sem paciência para perguntas, o que dá uma certa credibilidade e mesmo graça ao projeto. Darcy fala sobre o câncer, sobre a velhice e sobre seu último desejo: mais um ano de lucidez para terminar uma biografia que chamaria de “as confissões de Darcy Ribeiro”, o que infelizmente não acontece, já que ele morre poucos meses depois que o documentário é filmado. E seguindo a ordem de sua forma, o curta termina com um “pronto, acabou, até logo” de seu protagonista. A maior vontade ao terminar de ver esse curta é correr para ver o projeto com duração maior.

2. De Olho nos Dez!  de Ricardo Ferreira, Alexandre Ribeiro e Vanessa Prallon (2010, Rio de Janeiro – RJ).
[Fernando]
Curta-metragem com uma proposta das mais interessantes, misturando elementos de ficção – com um roteiro até instigante – com um viés de metalinguagem, que agrega valor ao projeto. Percebe-se que é um trabalho (projeto) ainda em fase de amadurecimento e que os envolvidos nele ainda crescerão muito como videomakers/cineastas. A história possui uma proposta bem simpática, mas possuidor de falhas narrativas e de uma verossimilhança que se mostram bem visíveis. Ainda assim, o resultado final não é ruim.

[Cristiana] A proposta desse curta é bem interessante, entretanto, isso se perde quando um ato antiético parece marcar seu centro principal. O vídeo começa com uma espécie de reunião antecedendo um projeto de filmagem de um assalto a uma instituição. A cena logo no início, dos dois atores se entreolhando quando o responsável pelo lugar da instalação guarda o dinheiro do cofre que vai ser usado na filmagem em uma gaveta, já parece indicar que a questão de foco é essa. Depois de gravarem o filme os atores levam esse dinheiro com eles. A cena final mostra o grupo bebendo, ouvindo rádio que anuncia a notícia do roubo e brindam dando adeus “às leis de incentivo a cultura”. Parece engraçado já que a cena suscita o riso, mas a causa não parece ser motivo de comemoração.

3. Ordenha, de Mateus Bastos e Léo Azevedo (2010, Lauro de Freitas – BA).
[Fernando]
O projeto apresenta uma proposta de resgate ao trabalho de ordenha manual, que vem sendo ao longo do tempo substituído pela ordenha mecânica. São alguns takes longos (para o formato de 5 minutos) com closes e planos-detalhes bem curiosos que registram muitas perspectivas deste processo de ordenha. Bom trabalho, mas nada além disso.

[Cristiana] Se a proposta era marcar a importância que teve ou tem o processo de ordenha isso se perde um pouco no tempo longo das poucas cenas do curta. A composição mais interessante é quando em câmera bem fechada o vídeo mostra um bezerro esperando o vaqueiro tirar o leite que vai ser comercializado e fica no aguardo de mamar, podendo fazer isso somente nas vezes que ele larga a teta para guardar o leite.

4. Play Time, de Eduardo Zunza (2010, Belo Horizonte – MG).
[Fernando]
Trabalho de video-arte bem curioso, mas que destoa dos demais vídeos do Programa 2, tornando-se muito difícil colocá-lo em pé de igualdade com os outros. É um registro em loop de crianças brincando em um parque ao ar livre. Poderia até incitar algumas discussões mais profundas, mas não acredito que seja esta a proposta.

[Cristiana] Filmado no Central Parque o curta mostra uma única cena em câmera lenta. Cria-se a expectativa de que alguma coisa vai acontecer. Talvez o interessante do vídeo seja exatamente isso, as cenas mostram movimentos mínimos e faz refletir sobre o tempo, sobre os momentos distintos de cada um, sobre o tempo subjetivo mesmo partindo de um curta que parece sugerir cronologia marcada por milésimos de segundos.

5. Fátima, de Hamaguchi (2011, Fortaleza – CE).
[Fernando]
A proposta, que mistura documentário com animação, chama a atenção num primeiro momento, mas seu tom de propaganda de conscientização em favor do uso racional da água o faz perder força enquanto curta-metragem.

[Cristiana] O curta mostra o áudio de uma entrevista real ilustrada por uma animação. Fátima fala sobre a dificuldade de conseguir água, sobre esperança, sobre sua infância podre no sertão, etc. A idéia parece original, entretanto, a novidade parece causar algum desconforto já que a vontade mesmo era a de ver a personificação real da voz, espera-se isso até o último minuto.

6. É no Pé do Morro É lá no Cafundó, de Denise Santos. (2011, Vitória da Conquista – BA).
[Fernando]
Trabalho documental que se destaca da maioria dos vídeos exibidos até então, primeiro por apresentar uma boa história e interessantes personagens – que faz os cinco minutos passarem com uma atmosfera de agradabilidade admirável – e segundo por possuir um trabalho técnico dos mais criativos e sensíveis, com boas captações de imagens e ótimas escolhas de locações do projeto. Belo curta-metragem.

[Cristiana]  Documentário com um grande poder de continuidade. Os relatos sobre o céu, sobre o pecado, sobre os sonhos e sobre a maturidade fazem perceber o quanto de nós é de raiz, é de influência mítica e o quanto isso se mistura com nossas incertezas sobre o desconhecido. O curta toca pela simplicidade dos protagonistas e por sua bela fotografia.

7. My Way, de Camilo Cavalcante (2010, Recife – PE).
[Fernando]
A história apresentada é de um poder imagético e emocional que afeta quase que automaticamente o espectador, merecendo elogios somente por isso. O protagonista realiza um trabalho de atuação dos mais admiráveis, externando uma carga dramática bem ímpar e potencializando uma atmosfera melancólica que já se mostrava visível desde a escolha da canção que toca ao longo dos cinco minutos do curta. A escolha da música, entretanto, é o elemento mais questionável do vídeo, pois percebe-se que ela – a letra – dialoga diretamente com a história, e por isso o fato da canção ser de língua inglesa prejudica uma maior compreensão por parte dos que não possuem familiaridade com esta língua. No entanto, é somente um pequeno incômodo.

[Cristiana]  A proposta do curta é boa: mostra uma pessoa solitária, andando pelas ruas, sozinha no bar e que mesmo em meio à multidão se sente perdido e só, o choro ao final é surpreendente, também a tomada área da multidão, entretanto, isso se perde pela escolha de uma música que não é autoral, fazendo com que o projeto se transforme em mera interpretação ou se torne, por isso mesmo, questionável.

8. Miragem, de Tomás Von der Osten (2011, Curitiba – PR).
[Fernando]
Colagem feita através de uma conversa gravada em áudio (entre o personagem da história e a sua avó) e de imagens fixas do céu da cidade. Interessante como a junção desses dois diferentes formatos se mostra uniforme – elemento que o qualifica – mas a proposta apresentada  (nenhuma) atrapalha  um pouco o trabalho enquanto curta-metragem.  Ainda assim é merecedor de elogios.

[Cristiana] Uma única imagem direcionada para o céu, ao fundo diálogo entre duas pessoas que se encontram diante de um gravador e tentam desvendar os sons da gravação: é uma criança? Um cachorro? O encanto de um dos personagens com uma coisa aparentemente insignificante faz pensar, ao menos, no quanto nós deixamos de pensar nas coisas simples da vida, no quanto elas deixam de significar para nós.

9. A Máquina, de Iris de Oliveira (2011, Salvador – BA).
[Fernando]
Belo registro histórico familiar concebido a partir da função que a máquina de costurar exerceu na vida de todos os personagens daquele núcleo familiar e das pessoas que cercavam o mesmo. Possui um fio condutor bem definido, fazendo o vídeo fluir de maneira bastante agradável. Mescla muito bem um viés cômico com certo ar de nostalgia, espécie de homenagem produzida pela diretora do curta aos pais e irmã. Dos mais simpáticos.

[Cristiana]  De uma simplicidade que encanta, o curta parte da memória que uma criança tinha do papel da mãe sentada à máquina de costura. Essa máquina se tornou a coisa mais importante de sua infância, ao ponto de lembrar do barulho como uma coisa marcante que trazia boas lembranças. O prazer de costurar da mãe é ilustrado com fotografia, o que dá um tom bem agradável ao curta. A máquina segue costurando a história da família e isso é contado de forma engraçada e delicada.

10. Solar dos Príncipes, de Paulo de Tarso Lins (2011, Recife – PE).
[Fernando]
Curta-metragem baseado no conto homônimo do escritor Marcelino Freire. Tenta trabalhar a produção de um filme através de uma outra perspectiva. Não trata-se da classe média querendo mostrar a pobreza das favelas, mas sim jovens realizadores que moram em favelas que buscam retratar o universo da classe média. Assim, temas como preconceito e hipocrisia dão o tom do projeto que abusa de modo positivo da ideia de metalinguagem. Seu desenvolvimento é bem interessante, desperta interesse do espectador, mas o desfecho da narrativa acaba por prejudicar o trabalho. O curta poderia ter sido finalizado na sequência que antecede o final oficial.

[Cristiana] O curta tinha tudo para ser bom, isso se os atores fossem bem escolhidos. Tudo soou muito mecânico, o que fez desviar toda a atenção da temática central do vídeo que pareceu ser bem interessante. A proposta de discutir essa invasão de privacidade que acontece naturalmente nas classes menos favorecidas quando alguém de fora invade uma favela por pura curiosidade e que não pode acontecer quando a situação se inverte traz um tom político bem curioso ao curta, mas isso se perde um pouco no final.

11. Valerie, de Zunk Ramos (2011, Salvador – BA).
[Fernando]
Documentário que apresenta para o mundo fragmentos da personagem Valerie, vivida pelo ator transformista Valécio Santos. Possui um poder narrativo e imagético que residem justamente na simples captura dos pensamentos e anseios da protagonista. Percebe-se que este trabalho se insere dentro de um projeto mais ampliado, o que desperta ainda mais interesse do espectador em saber por quais caminhos Valerie irá caminhar daqui para frente. Ótimo curta.

[Cristiana] Um documentário de tom bem agradável que mostra a vida de um transformista de forma séria e não pejorativa, e isso traz a tônica do curta. A prosa é leve e faz perceber que a protagonista vê nessa profissão a sua forma de fazer arte. O sonho está presente, “o limite é o céu” e o desejo de ser respeitado parece perdurar em cada olhar. É mesmo um bom trabalho de pesquisa!

12. Eternal Starlight Of a Dad’s Heart, de Camila Luppi (2011, São Paulo – SP).
[Fernando]
A proposta até que é bem interessante, mostra um pai tentando a todo custo estreitar os laços afetivos com seu filho. Para isso utiliza-se de brinquedos como uma bola de futebol e animais de estimação (um cachorrinho), mas a criança mostra-se distante deste universo, reproduzindo toda uma ideia contemporânea de que o entretenimento reside nas tecnologias, especificamente no uso que se faz do computador. Possui um desfecho plasticamente belo, porém lhe falta certa profundidade temática. O curta-metragem possui um bom corpo técnico, mas se mostra carente de um coração mais pulsante.

[Cristiana] O curta mostra um pai querendo se aproximar do filho por meio dos brinquedos que fizeram parte de sua infância: uma bola, uma bicicleta, um cachorrinho de estimação, etc. quando o interesse do menino se volta para o computador, o vídeo game e a televisão. A temática é um bom ponto de discussão, entretanto, a forma como ela se deu não soou tão atrativa, perdendo, portanto, o foco que merecia elogios. O final é agradável, quando mostra o pai colocando estrelinhas que acendem no escuro no teto do quarto do menino enquanto ele estava na escola, esse é o motivo para o abraço tão desejado por ele, quando o menino olha para as estrelas brilhantes e parece sorrir.

13. Banjo e Viola, de Thiago Martins (2010, Salvador – BA)
[Fernando]
Animação até simpática, mas que não possui proposta alguma. Ao seu final, fica a pergunta: serviu para quê? De modo algum é um trabalho ruim, mas muitas vezes é preferível falhar com os elementos técnicos a falhar na concepção da história que será contada. Curta-metragem que não mostra a que veio.

[Cristiana] Animação bem feita, mas só. Ela tem um estilo faroeste que mostra um típico dono de bar ao fundo, secando um copo e alheio ao que acontece dentro do estabelecimento. Como protagonistas aparece um casal. No meio do bar um touro mecânico. O homem tenta se aproximar da mulher que pede para ele mostrar seus dotes em cima do touro. O curta mostra a cara de medo dele em cima do touro a cada aumento de freqüência, a mulher aplaude feliz. Por fim, numa freqüência alta ele cai por acaso perto dela e a beija. O curta finda sem deixar claro seu objetivo.

Em breve os comentários do Programa 3.


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