Típicos – Cabine Cultural
Teatro

Típicos

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Típicos

O cenário produzido é simples, seu objetivo aparentemente é oferecer tudo que será necessário à história. E para isso acontecer de modo mais prazeroso

Já há alguns anos que boa parte das comédias teatrais baianas são caracterizadas por certo uso indiscriminado de palavras de baixo calão, de motes baseados em situações pitorescas e da recorrente utilização de artifícios interativos, buscando assim dialogar de modo mais direto com suas plateias. Por um lado (bilheterias) este formato se mostra muito bem sucedido, mas por outro acaba agregando pouco valor para o cenário de teatro produzido na Bahia. Por sorte, volta e meia surgem espetáculos que, mesmo usando alguns destes elementos, sobressaem-se, oferecendo bons momentos de risadas (prioritário para uma comédia), além de certa reflexão sobre relacionamentos humanos diversos. Neste sentido, Típicos – peça estrelada pela dupla Clara Napoli e Diogo Baleeiro – se apresenta como uma agradável surpresa.

O cenário produzido é simples, seu objetivo aparentemente é oferecer tudo que será necessário à história. E para isso acontecer de modo mais prazeroso, será necessário que o espectador jogue sua imaginação para o palco e vislumbre ora uma sala de estar, ora um bar para pessoas descoladas, ora um chique restaurante…

Em cena dois atores que contam a história do relacionamento amoroso entre Bel (Clara Napoli) e Rubinho (Diogo Baleeiro). Eles encenam ao mesmo tempo todos os personagens da trama, além de, num interessante trabalho de metalinguagem, interpretarem eles mesmos, com diversas intervenções durante todo o tempo do espetáculo. Estas intervenções servem para contextualizar o público do que estar por vir e também para fazê-lo participar da história, respondendo questões sobre a temática da peça, ou seja, sobre a vida a dois.

O espetáculo acontece tomando como pano de fundo as várias situações pelas quais passam a maioria dos casais e que não seria diferente com eles. Essas situações vão desde algum tipo de incompatibilidade natural de gêneros até um simples sabor mal escolhido de uma pizza; desde o ciúme natural da amiga mais próxima até a inconveniência de uma sogra ao mudar os móveis de lugar. Estes acontecimentos ocorrem no decorrer da relação deles, e para isso poder ser entendido eles vão se utilizar de alguns flashbacks, num trabalho feito de modo bem dinâmico. Dinamismo por sinal é um dos termos característicos do espetáculo, já que nele é tudo muito corrido; são dezenas e dezenas de situações apresentadas pelos personagens principais e comentadas por diversos outros que entram na história. Todos interpretados pelos dois atores, que visivelmente se esforçam para não deixarem o ritmo cair. E felizmente não cai. Mesmo com duração talvez longa demais – quase duas horas – o espetáculo em momento algum se estagna e, mais importante ainda, em momento algum deixa a plateia cansada.

É notório que os problemas TÍPICOS de quase todos os casais vão arrancando gargalhadas da plateia que parece se perder entre os risos do início ao fim do espetáculo. Há em todo momento uma atmosfera de identificação com o que está sendo desenvolvido, são situações que o espectador projeta para si, e assim a história passa a fazer muito sentido. Por isso as risadas soam sempre naturais e espontâneas, mesmo quando sua razão se mostra levemente apelativa. Encontra-se aí uma das peculiaridades de Típicos: conseguir reproduzir características nem sempre agradáveis de uma forma produtiva, homogênea, e que estão inseridas organicamente na história do casal.

A peça merece elogios por vários motivos: sintonia entre os atores, situações narrativas bem escolhidas e engraçadas e excelente atuação.


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