V Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra – Parte Dois | Cabine Cultural
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V Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra – Parte Dois

Festivais e mostras de cinema são, tradicionalmente, espaços reservados para a difusão da sétima arte, seja através da pura e simples exibição de filmes em sua programação (curtas e longas-metragens), seja através de ferramentas mais específicas, como a oferta de cursos, oficinas, seminários…

Com a V Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra não foi diferente, já que, além da mostra propriamente dita, foram oferecidos quatro mini-cursos para os frequentadores do evento. A divisão deles, por sinal, foi muito bem elaborada, havendo um bom equilíbrio entre o fazer e o pensar. Em suma, entre a teoria e a prática. Neste sentido foram contemplados tanto os que gostam de refletir sobre a exegese do cinema, quanto os que preferem apreender técnicas mais práticas de criação, atuação, produção.

No campo da teoria foram ministrados dois belos mini-cursos, sendo que um pautou-se no cinema do eterno cineasta baiano Glauber Rocha (Trabalhando “Glauber” em sala de aula – Bóris Dias).  Neste foi discutido o poder que as produções de Glauber podem provocar em sala de aula. E o outro curso mostrou como o cinema nacional lidou – e ainda lida – com todo o período em que existiu a ditadura militar no Brasil (Cinema e Política: a representação da ditadura civil-militar no cinema brasileiro – Fernando Monteiro).

Já no plano da prática, dois ótimos mini-cursos foram ofertados, um com o consagrado ator Fernando Neves (Atuar para cinema), de filmes como Eu me lembro e O homem que não dormia e o outro com Gleydson Publio (Noções básicas de fotografia para cinema e vídeo).

A primeira constatação observada recai sobre uma predileção dos participantes pelos cursos mais práticos, o que é até compreensível, pois há uma (falsa) ideia de que o fazer algo (cinema, no caso) sobressai-se ao pensar sobre o mesmo. No entanto, mesmo com diferenças em número de participantes, todas as quatro propostas se igualaram tanto em qualidade quanto em relevância. Isso é uma agradável verificação, diga-se de passagem.

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Falando do conteúdo dos cursos, Fernando Neves teve a incumbência de abrir a série de mini-cursos da mostra. Fernando introduziu os cerca de 30 participantes ao nem sempre agradável mundo das dinâmicas de grupo, tão temidas por todos aqueles que saem à procura de emprego, mas que aqui apresenta-se como fundamento para um bom trabalho de atuação. Nota-se logo de imediato que seu curso não serve somente para quem deseja atuar na sétima arte, seu ponto forte são as dicas oferecidas para um ator (principiante ou já mais experiente) utilizar em trabalhos teatrais. E essas dicas são das mais relevantes e, caso algum dos que participaram tenha absorvido integralmente suas aulas, então certamente há chances de que esse conhecimento resulte em bons frutos em um futuro (próximo ou não). Para finalizar, é admirável a energia, o carisma e a inteligência prática que Fernando Neves possui e utiliza. Grande parte do sucesso deste curso deveu-se, sobretudo, a postura do ministrante.

Alguns metros distante da sala onde era oferecido o curso Atuar para cinema, era ministrado, por Gleydson Publio, um mini-curso sobre fotografia cinematográfica. Gleydson certamente era o mais inexperiente entre os professores, e em alguns momentos ficou visível a falta de uma dinâmica mais apropriada. Porém, analisando pormenormente, fica a conclusão de que seu curso foi o mais surpreendente entre todos, pois conseguiu unir de maneira orgânica uma parte teórica bem fundamentada, com a exibição de trechos de filmes como Cidade de Deus, Arquitetura da Destruição, 10 Centavos, com uma interessante parte prática, que inclusive culminou na produção de um curta-metragem (em verdade,  uma espécie de vídeo-clipe). A música usada de fundo acabou atrapalhando um pouco o resultado final, mas ainda assim, foi admirável para o pouco tempo que tiveram para conceber toda a ideia, filmar o que fora pensado e – o mais árduo dos trabalhos – montar e editar o material gravado. Com tudo isto posto, fica a clara percepção de que cursos como este em momento algum devem faltar em eventos como a V Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra.

Passando para a perspectiva de ‘pensar o cinema’, tivemos o bastante relevante mini-curso sobre Glauber Rocha. Deve-se destacar que Glauber não fora somente um dos grandes cineastas de nossa história, mas também conseguiu sobressair-se como um importante pensador, e suas ideias/ideologias estavam presentes – explicita ou implicitamente – em suas obras. É muito difícil assistir filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e não refletir sobre o contexto histórico pelo qual o Brasil passou ou até mesmo sobre o contexto no qual somos inseridos atualmente.

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O mais proveitoso e interessante deste curso não foi somente o tema escolhido (não tão original, afinal, Glauber sempre despertou interesse), mas sim a capacidade de quem o conduziu. E talvez por conta disto, Glauber acabou sendo colocado num balaio mais amplo, instigante e produtivo, dialogando assim com a filosofia (Paideia, Nietzsche), com a história do Brasil e com o cinema propriamente dito.

Este tipo de curso não costuma atrair multidões, é certo, mas vale menção que a possibilidade de fisgar nem que seja ao menos uma pessoa já o torna não só relevante, como também fundamental para um encontro como este de Seabra.

Fechando o ciclo de mini-cursos oferecidos nesta edição, tivemos boas discussões sobre o período da ditadura militar, guiados pelo professor Fernando Monteiro.

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Esse tema já se encontra entre os mais interessantes, pois vincular o cinema com o processo histórico vivido pelo país, sem dúvida uma das escolhas mais acertadas. E tão acertada quanto esta escolha temática foi a escolha dos filmes (recortes, bem verdade).

Os recortes acabaram por mostrar visões bem diferenciadas daquela época. Fomos levados a ver este processo através dos olhares de jovens ditos revolucionários e que buscavam não somente contestar, mas também confrontar os governos ditatoriais (O que é isso companheiro?); também o vimos na visão de uma mãe em busca de notícias sobre o filho desaparecido em tal época (Zuzu Angel). E por fim, tivemos o olhar inocente de uma criança, que buscou de todas as formas ser minimamente afetado neste período (O ano em que meus pais saíram de férias). Três filmes fundamentais para se entender este período, que se encontra entre os mais nefastos da história recente do Brasil.

Enfim, cada um destes mini-cursos apresentou algo de peculiar, agregando muitas qualidades. Além disto, juntos formaram um grupo de atividades que todo bom evento sobre cinema que se preze deve apresentar aos seus participantes.

Em breve a terceira parte deste especial sobre a V Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra.

Fotografias: Mauricio Amorim







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