Entrevista Sofia Federico
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Entrevista – Sofia Federico

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Entrevista de Sofia Federico no Cabine Cultural

Entre os dias 01 e 05 de novembro de 2011 foi realizado em Salvador mais uma edição do já tradicional Festival Nacional 5 Minutos, que desta vez trouxe uma grande novidade em se tratando do evento: a vinda dos realizadores da mostra competitiva. Foram 36 projetos de fora do Estado da Bahia que se fizeram representar na cidade, possibilitando assim um aberto e produtivo diálogo com o público presente.

Sobre o Festival Nacional 5 Minutos – prioritariamente – conversamos em dezembro do mesmo ano com Sofia Federico, atual diretora da DIMAS (Diretoria de Audiovisual), órgão que representa o setor de audiovisual na Bahia.

Sofia Federico é formada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Bahia e já trabalhou como repórter nos jornais Tribuna da Bahia, Correio da Bahia e Bahia Hoje. No setor audiovisual atua desde 1995 e possui em sua filmografia como diretora os curtas-metragens Cega Seca (2003), Vermelho Rubro do Céu da Boca (2005) e Caçadores de Saci (2005). Além disso, colaborou em diversos outros projetos da cinematografia baiana. E no período entre 1999 e 2006, Sofia foi membro da diretoria da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV), onde também atuou como vice-presidente.

Nesta conversa, ela aponta alguns dos pontos positivos e negativos desta edição do evento, fala da dinâmica do Festival (tanto em Salvador quanto no interior do Estado), sobre o Projeto Memórias em 5 Minutos, o Quartas Baianas e ainda comenta a reunião que representantes do audiovisual baiano tiveram com o governador Jaques Wagner, em novembro passado.

Cabine Cultural – Qual foi a avaliação da DIMAS sobre a décima-quarta edição do Festival Nacional 5 Minutos?
Sofia Federico – O festival este ano (2011) cresceu, ele ficou mais interessante porque conseguiu realizar a principal função de um festival, que não é somente a exibição do filme, mas a promoção do intercâmbio de quem está fazendo esses filmes, seja aqui ou em outros Estados; essa troca é super saudável. É importante dentro do festival realizar este contato dos realizadores entre eles mesmos e também o contato destes realizadores com o público que está vindo assistir. Acredito que este ano o festival foi um marco neste sentido, pois pela primeira vez foi possível isso acontecer. Vimos aqui gente de Minas Gerais, Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, gente que nunca havia se conhecido, nem em outros festivais, e aqui puderam se conhecer e trocar ideias sobre o que estão pensando, o que estão produzindo, como estão conceituando seus filmes, suas histórias. Acho isso muito importante.

CC – Foram 50 selecionados. Quantos destes vieram?
SF – Foram 38 de outros Estados e destes vieram 36. Duas obras não se fizeram representar aqui por questões pessoais de última hora. Veio muita gente do interior da Bahia, de outros municípios, que também estavam na competitiva do festival, e que a gente viabilizou também a vinda.

CC – Esta experiência foi boa…
SF – Muito importante, foi bem importante mesmo, para inclusive nós amadurecermos o festival, porque este retorno para o realizador é importante, dizer: olha, não foi bom isso, a obra não estava colocada de forma correta, enfim, sempre é bom ter um olhar diverso, um olhar estrangeiro em torno de um objeto. E teve muita gente do interior que veio para participar do evento, que ficaram em casa de amigos aqui mesmo em Salvador, eles puderam entrar em contato com as pessoas daqui, algumas delas já frequentam a capital, mas o destaque mesmo foi o encontro com as pessoas de outros Estados.

CC – Tinha algum objetivo mais específico quando decidiram trazer os realizadores para o festival?
SF – Na verdade, este aspecto de um festival poder trazer o realizador para acompanhar sua obra para debater com o público sobre a produção, sobre o que levou a fazer aquela obra, isso já é uma característica dos festivais brasileiros. Boa parte destes festivais vem conseguindo viabilizar isso, levar o realizador ao encontro com o público, mas neste nosso festival isso ainda não havia ocorrido e conseguimos então viabilizar, mas sem ter em vista uma criação de laços de amizade ou uma criação de vínculos profissionais, talvez. Pensamos mesmo foi neste encontro que faz um festival, uma festa, uma celebração, não somente das obras audiovisuais, mas também das pessoas que realizam e do público, que é o nosso foco… trazer, viabilizar este encontro com o público que está acompanhando, muitos deles estão iniciando suas vidas na área. Fora que este festival marcou também a minha vida como realizadora… quando você vê a obra, sua reação é querer fazer e aí você vai ao festival e isso se potencializa. E este tipo de festival tem um formato interessante, pois ele é bem experimental, possibilita que você experimente e aprenda.

CC – Mas é uma novidade no formato de 5 minutos, não? Os festivais baianos já possuem essa tradição de trazer seus realizadores, de longas e curtas, mas para festivais de curtíssima metragem é algo novo, talvez inédito no Brasil…
SF – Eu não vi isso em nenhum outro festival do Brasil neste formato de micro-curtas, enfim, este conteúdo mais curto mesmo, que está sendo agora cada vez mais presente, mais recorrente, mas é legal, sempre bom trazer seus realizadores, independente do formato.

CC – É um momento em que o diretor corta o cordão umbilical da obra, não? Ele joga ao público e a partir daí percebe que ela se mostra como ele havia imaginado, ou o oposto…
SF – Este é o momento mais interessante que existe, mais cruel também, tem que ter esse desapego, você tem que ter a coragem de encarar o público, você cria uma expectativa, um público ideal, e quando você vê as vezes não bate, tem que enfrentar aquilo, às vezes defender, às vezes é necessário reconhecer, o mais difícil é reconhecer que o outro tem razão em certo ponto de vista que se diferencia do seu…

CC – Vimos vários realizadores conversando entre si, dando feedbacks, criticando uns as obras dos outros…
SF – Estamos num momento com muito pudor para se falar de uma forma franca sobre o trabalho do outro, tem uma questão que é grave e que é o seguinte: quando você recebe recursos públicos para fazer um filme, um longa-metragem, que tem que estar no circuito, então percebo que existe ao redor certo pudor das pessoas de falarem daquela obra, se a obra não é palatável, que não vai ter uma propensão imediata, aí percebo que as pessoas ficam cheias de dedos para fazer uma crítica, pois se fizer uma crítica e ela tiver uma recepção negativa, aí talvez cause algum impacto na performance do filme, ou talvez a imprensa não queira falar, não tenha interesse, e aí isto pode prejudicar a obra, o andamento daquela obra no circuito comercial, no mercado, se é que existe algum mercado para o cinema brasileiro.

CC – Para o cinema baiano é ainda mais complicado…
SF – Tem muito melindre sobre falar da obra, por isso que é legal nesses festivais, ver seu curta ali presente, você tem menos pudor para falar. Tem que falar, que criticar, sugerir, é um momento rico que a gente via muito acontecer… pelo menos o que leio… o pessoal na década de 60 se estapeava, eram debates homéricos.

CC – Tinha o Walter da Silveira que dialogava com os realizadores…
SF – Existiam embates… eu acho esse silêncio a pior coisa que possa existir. É assustador. Ver obras que são lançadas e que ninguém comenta (O Homem que Não Dormia, Bahia, Minha Vida, Trampolim do Forte).

CC – Quais os pontos negativos desta edição do festival?
SF – As críticas que faço, principalmente depois de ler tudo que foi posto, seja pela nossa ombudswoman, seja por outros, é que temos um problema sério de comunicação, a gente continua falhando na comunicação, acho que poderíamos fazer uma ação mais forte. A gente faz uma comunicação que é direcionada para um público, vai por mailing e etc. Mas ela precisa estar mais presente, precisa ganhar uma musculatura maior para poder chegar de fato às pessoas.

CC – Divulgação maior?
SF – Ter uma divulgação maior, um corpo a corpo maior para podermos trazer mais público, esse é um grande problema, não temos muito público para as atividades paralelas do festival; tem público para as sessões principais na Sala Walter, para a mostra competitiva, e também realizamos no interior a mostra competitiva e paralela. Acho que tem que ter uma ação para trazer mais público para as atividades paralelas. A outra coisa é com relação ao interior: em 2009 a gente conseguiu fazer o festival em 15 centros, 11 municípios no interior da Bahia mais os 4 centros de cultura de Salvador; esse ano não conseguimos fazer nos 15 centros, isso é um ponto negativo, deixamos por uma questão de gestão dentro dos espaços. A gente não conseguiu fazer com que o festival chegasse de novo aos municípios. Outra questão que vejo foi na dinâmica do debate dos realizadores com o público, deveria ter sido feito com mais vigor, com mais metodologia, com tempo mais certo, foi tudo meio improvisado e percebemos que deveríamos desenvolver isso melhor para o ano que vem.

CC – Mas foi a primeira vez, é compreensível…
SF – Mas foi falho, acho que podemos chamar uma pessoa específica, que tenha visto já os trabalhos e que tenha um timming maior para este trabalho.

CC – No Panorama (Festival Internacional Panorama Coisa de Cinema) acontecia algo assim, o Cláudio Marques ou a Marília Hughes iniciavam as conversas comentando ou fazendo alguma observação sobre os trabalhos, o público então entrava com o debate já iniciado… ficou bem mais produtivo…
SF – Precisamos criar uma dinâmica mais profissional, de TV.

CC – Acha que a localização da Walter da Silveira é um problema?
SF – Não vejo isso como empecilho, impeditivo, mas temos problemas, por exemplo, com estacionamento e segurança.

CC – Por que não foi realizado o festival em 2010?
SF – Como não tínhamos recursos para fazer um festival com o mesmo porte do ano anterior (2009), a gente decidiu fazer um projeto chamado Memórias em 5 Minutos, uma coletânea especial, um trabalho grandioso, pois os filmes estavam em formatos distintos, já que o festival existe desde 1994. Então tínhamos desde VHS, betacam, passando para a transição para a miniDV e tínhamos até trabalhos com o DVD já descascado… foi uma loucura. Então foi um trabalho de garimpo, de ir atrás dos realizadores… nos deparamos até com histórias engraçadas de gente que fez aquele trabalho e depois nunca mais mexeu com cinema, virando médico, sem vínculo algum com a área audiovisual. Foi um enorme trabalho, dar uma qualidade técnica a cada obra, com suas peculiaridades. Foi muito interessante, um trabalho incrível, muito legal e que acabou se configurando como um panorama da produção visual de um longo período, desde 1994 até 2009. Acabou sendo um documento histórico, desde que éramos um evento local até agora que virou nacional. Muitos fizeram carreira começando neste festival.

CC – Uma das questões tocadas após o encerramento desta edição foi com a premiação, onde os segundo e terceiro colocados receberam valores superiores ao primeiro. Como você viu isso?
SF – O edital previu uma premiação com valores fixos para cada colocação, além também de deixar claro que o júri é soberano. Então é uma questão mesmo jurídica. É uma questão que o Cesar Menegueti (um dos vencedores do festival, com o curta LTDN pontuou, ponderou e ele tem razão. O que deve acontecer é mudarmos o edital do ano que vem e deixarmos mais claro estas questões.

CC – Mas foi uma questão que foi percebida, não?
SF – Sim, claro.

CC – Algum curta em especial te chamou atenção? Concordou com a premiação?
SF – Achei bem equilibrada, teve vídeoarte, experimental… gostei das obras. Teve My Way (curta-metragem de Camilo Cavalcante), bem interessante, teve Fotobiotridimensionalidade, de Henrique Monteiro, gostei, bem interessante. Nossa ombudswoman defende que a premiação seja específica para cada vertente: animação, documentário. Até para o júri seria mais fácil.

CC – O que já se pensa para a edição de 2012?
SF – De pronto o que acho é que precisamos fortalecer os festivais nestes centros de cultura na capital e no interior.

CC – De que forma o festival acontece no interior?
SF – Recebemos o borderô, somente. É também uma falha que esperamos consertar em 2012.

CC – Mudando um pouco de assunto, o projeto Quartas Baianas continua em 2012?
SF – Quartas Baianas é um projeto da ABCV (Associação Baiana de Cinema e Vídeo), fizemos uma parceria já há sete anos e a gente continua dando apoio, se bem que o cenário mudou completamente. Há sete anos o panorama era outro, tínhamos poucos filmes e existiam pouquíssimos espaços. Hoje temos muitos festivais e eles possuem este desejo de exibir filmes baianos. Aí o Quartas Baianas acaba cumprindo um papel de cineclube.

CC – Teve algumas edições no interior não?
SF – Sim, por conta de um edital do BNB, demos apoio. É legal porque o Quartas Baianas acaba constituindo um acervo, é muito grande o material que foi agregado ao longo de sete anos.

CC – Para finalizar, houve uma reunião de representantes do audiovisual baiano com o Governador Jaques Wagner, na qual você estava presente. Sobre essa reunião, alguma novidade que possa ser comentada?
SF – É muito importante que o governador esteja cada vez mais próximo dos assuntos que estão na pauta da cultura. Então além do secretário (Albino Rubin – SECULT) levar os pleitos do audiovisual e de outras perspectivas de cultura, é muito importante que o governador abra sua agenda para tratar dessas questões, que no caso era dessa demanda da APC (Associação de produtores de cinema da Bahia). Foi muito importante porque ele se aproximou mais ainda, pôde conversar com as pessoas que estavam, e perguntar questões especificas, as especificidades mesmo, o que a gente vem enfrentando no mercado de exibição, por exemplo, que foi uma grande pauta, na reunião. Acabamos falando que vivemos um momento inédito na Bahia, nunca tivemos esse cenário, é uma política pública que vem desde 2003, não é uma ação que chegou assim de repente, é uma política pública que começou em 2003 e que agora estamos vendo os frutos. E o Governo do Estado da Bahia contribuiu na finalização de quase todas as obras que estão aí, dando apoio na produção e na finalização de todos eles (menos na do Doc. Bahia, Minha Vida), a SECULT entrou com apoio. Então o governador pôde ter acesso a essas informações, soube qual é o cenário, como é que é o mercado de exibição no Brasil, entender o que está por trás disso; importante isso ser falado pelos próprios cineastas presentes, então foi muito interessante, há uma enorme expectativa pela classe com relação a esse encontro, que traga mais recursos para área, que traga mais visibilidade para o audiovisual, para o cinema baiano, pois como o assunto está sendo cuidado pelo próprio governador, há então a expectativa de que seja mais bem cuidado. Foi bem interessante, espero que continue. No encaminhamento final ficou da APC enviar uma lista de prioridades, com o que é mais importante para a classe.

CC – Agradecemos a disponibilidade e atenção em nos receber.
SF – Por nada e parabéns pelo trabalho de vocês.


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