Entrevista Mauricio Amorim
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Entrevista – Mauricio Amorim

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Mauricio Amorim, o diretor do longa-metragem e Danilo Umbelino.

 

Mauricio Amorim conversou conosco sobre esta edição da Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra.

Em novembro de 2011 aconteceu na cidade de Seabra a V Mostra de Cinema e Vídeo da cidade com direito a exibição de filmes –  e participação de representantes de cada uma das obras – produção de oficinas, sessão infantil e muito mais. Os convidados desta quinta edição foram os grandes destaques, já que não é todo dia que a comunidade local tem a oportunidade de dividir uma sessão de cinema com nomes como Vinicius de Oliveira (Central do Brasil, Linha de Passe), Edson Cardoso (O Cupido Trapalhão) e Fernando Neves (Eu Me Lembro). O coordenador do evento, Mauricio Amorim, conversou conosco sobre esta edição da Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra, mas também falou um pouco sobre a sua vida como cineasta, nos adiantando informações sobre o seu próximo projeto, o longa-metragem O Seminarista, que atualmente está em processo de produção. Mauricio Amorim é formado em Letras, exercendo hoje em dia a função de professor universitário da Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Além disso, sua carreira como cineasta é preenchida com alguns trabalhos na direção de curtas-metragens e, sobretudo, com O Enfermeiro, sua primeira empreitada no campo do longa-metragem.

Cabine Cultural – De modo mais geral, qual a proposta e objetivo da Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra?
Mauricio Amorim – A mostra está na quinta edição, já são cinco anos de Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra. A proposta dela dos últimos três anos para cá tem sido bem diferenciada dos dois primeiros anos. Resumindo: nos dois primeiros anos nosso objetivo básico era exibir filmes, independente da nacionalidade, mas que fossem filmes que estivessem sendo cobrados nos vestibulares (de universidades públicas). Então obras como Cidade de Deus já foi passada, O Pagador de Promessas, outras obras que não estavam explicitamente cobradas no vestibular, mas que são obras adaptadas para o cinema e já temos um leque de filmes como Memórias Póstumas de Brás Cubas; então era esse o primeiro objetivo, não tínhamos nem mini-cursos e nem oficinas. No segundo ano a gente manteve de uma certa forma a mesma linha de pensamento na idealização, na realização da mostra e o que já tínhamos de uma maneira bem tímida na primeira edição, na segunda edição se tornou algo constante, em todos os dias da mostra tínhamos a exibição e quem vinha fazia uma palestra sobre o tema; por exemplo, o Cidade de Deus foi um filme exibido e não teve nenhum realizador aqui do projeto, então quem veio foi um policial e falou sobre a questão da violência na cidade. Então a gente partiu de um tópico – a violência no Rio de Janeiro – como foi se formando nas primeiras décadas, até o inicio da década de 80 e a palestra do policial foi exatamente sobre a temática violência, puxando evidentemente para a questão local. Amistad, do Spielberg, a gente fez uma discussão com uma professora daqui, sobre a questão das cotas, ela deu uma exposição sobre o que é a cota e o porquê dela. Depois tivemos um hiato de quase três anos, quando em 2009 eu retornei à UNEB, fiquei quase dois anos afastado, e a partir daí a gente teve essa característica que é a de hoje: filmes exibidos com os seus realizadores. De 2009 para cá tem vindo filmes só nacionais, porque se já é difícil conseguir verba para trazer um convidado nacional, imagina então um estrangeiro. O que não vejo como problema, muito pelo contrário. Então o objetivo hoje mudou um pouco, continuamos exibindo filmes, discutindo cinema, tendo muitos bate-papos sobre o fazer cinema e oficinas de audiovisual, alguns em conjunto com educação, afinal todos os cursos aqui são de licenciatura. Queremos também que tenhamos cada vez mais curtas realizados pelos alunos daqui.

CC – Este formato de hoje você já considera o ideal ou na sua cabeça o ideal seria algo diferente?
MA – O que vislumbro é o seguinte: que a gente continue com a teoria dos mini-cursos, mas que a gente já tenha oficinas práticas, voltadas para a prática. Esse ano teríamos uma oficina em que desenvolveríamos propostas de mini-documentários. Estas propostas surgiram no ano passado, na oficina de documentário do ano passado, foi comigo… então no final a gente reuniu os grupos e cada um foi lançando ideias de futuros documentários (os incêndios na Chapada, que acontece muito, a situação do Rio Cochó, a situação dos professores que trabalham na zona rural), então esse ano seria o desenvolvimento destes temas, ou seja, oficinas de roteiro, mas tendo como base ideias feitas por eles em grupos no ano anterior; não deu certo porque eu não ofereci o curso este ano por conta de querer estar exclusivamente na coordenação do evento, sem contar que tem O Seminarista em fase já inicial, toma muito tempo. Para mim o formato só vai estar encaixado no momento em que não só tenhamos um filme numa noite, mas que tenhamos pequenos filmes idealizados por eles (e com supervisão de alguém mais experiente que eles).

CC – Minha dúvida reside no ‘eles’. Quem são ‘eles’?
MA – A comunidade…

CC – Ampla ou só daqui mesmo (universidade)? Esse ‘eles’ são pessoas que estão aqui só participando, sem nenhuma perspectiva, ou são pessoas que podem potencializar esta vontade de se transformar num videomaker, ou num pequeno cineasta…
MA – Sem maiores perspectivas de formarem-se em cineastas. Por que digo isso? O primeiro impasse nesse sentido (não é um impasse na verdade), é o fato de termos cursos de licenciatura aqui, são cursos de licenciaturas que levam o graduando para a sala de aula; ele pode até se formar e não entrar na sala de aula, mas a priori é o objetivo: formarem professores. Este fato traz a possibilidade desses professores se transformarem em multiplicadores, mas ainda assim termina sendo um impasse. Por outro lado tudo indica que este cenário vai mudar com o curso de cinema, tudo indica que em 2012 teremos um curso de cinema aqui na UNEB, não irá funcionar em Seabra, vai ser numa extensão de Seabra, em Lençóis, e vai ser o primeiro curso de cinema da UNEB, acredito.

CC – O projeto é ligado com a UNEB de Seabra?
MA – Sim, o funcionamento que vai ser em Lençóis, mas é mais um curso de Seabra.

CC – Mas chegou-se a discutir grade curricular?

MA – Estamos exatamente neste processo.

CC – Como é que vem sendo, da primeira edição da mostra até hoje, a receptividade do público?
MA – Não sei dizer em números exatos, o que posso te falar é de 2009 para cá. O que percebi hoje (edição de 2011) é que não tínhamos muitos inscritos nos mini-cursos, e amanhã mesmo teremos um curso de fotografia, que está cheio, está tendo uma grande procura.

CC – Todos os mini-cursos estavam cheios…
MA – Sim… e o objetivo é esse. O público da casa (estudantes e professores), nós já temos, o que nos falta mais é a presença de um público externo, da comunidade, afinal esse é um projeto de extensão. Mas eu já vi muitos aqui nesta edição de fora da Universidade.

CC – Queria que você falasse um pouco dos convidados. O porquê do Vinicius de Oliveira, Edson Cardoso e Fernando Neves.
MA – Edson é convidado desde 2009 para vir para cá, o que sempre impossibilita é que normalmente quarta e quinta ele grava A Turma do Didi; a mostra acontece em novembro, num momento onde ele não está de férias, e antes acontecia de terça a sexta. Esse ano ele pode vir porque nós mudamos, a mostra acontece agora de sexta a domingo, inclusive diminuímos um dia por questões logísticas mesmo, gastos. Então Edson vem sendo convidado há dois anos, mas só agora pode vir para cá. Porque Edson enquanto ator é conhecido como ator de comédia de A Turma do Didi, que por mais que os adultos curtam, é oficialmente um programa para crianças, e de TV. Então para Edson vir para um evento de cinema, tínhamos que trazer uma produção dele para o público infantil, e a gente trouxe O Cúpido Trapalhão. Engrandece muito o evento, pois é um artista da música, já algum tempo é um artista da dramaturgia e que vem prestigiar este nosso evento, que é pequeno e sem muitas verbas. As exibições não são de cunho competitivo e nem sempre são filmes novos (no dia iriam exibir Central do Brasil).

CC – Como surgiu a ideia do Vinicius?
MA – Surgiu exatamente quando comecei a pensar nesta edição da mostra, Vinicius… nosso contato de acerto não tem nem quatro meses (partindo de novembro). Eu vi que teria condições de exibir ao menos dois filmes dele. Apresentamos o projeto para ele, que gostou muito e se sentiu à vontade para vir nesta edição. E assim… eu preciso gostar do trabalho da pessoa, ou eu preciso crer que mesmo que eu não goste muito de um filme, aquele filme pode de alguma forma trazer algo de bom para a comunidade. Eu sei que pode parecer pretensioso, mas é uma das formas que tenho para selecionar estas obras. Eu preciso achar que aquela obra tem algo a dizer, independente de ela ter sido feita na década de 60, na década de 50 ou ser um filme novo. Normalmente não trazemos filmes novos. Este ano tem o Assalto ao Banco Central (2011), com o Vinicius de Oliveira também no elenco, mas é difícil trazer, tem diretores que não liberam os filmes caso eles sejam muito novos. Já tentei muito trazer Trampolim do Forte, por conta de um ator que participou dele e que já veio aqui por duas vezes, mas tem esse impedimento de ser lançamento…

CC – Ainda nem estreou…
MA – É isso, mas tentamos…

CC – Você imagina a mostra sendo competitiva em algum momento (transformando-se num festival)?
MA – Provavelmente não, teríamos que ter uma logística muito grande, só a premiação, por mais simbólica que venha ser, é um custo. Temos uma ideia que talvez já implantemos em 2012, vai depender muito do Diretor da unidade, que é o prêmio Pai Inácio de Literatura e Cinema; então a partir do momento que venha a existir esse prêmio, automaticamente a Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra deixa de existir. Então o Prêmio Pai Inácio de Literatura e Cinema existindo vai ser um prêmio (troféu, dinheiro, não sabemos ainda), mas a ideia é que a gente a partir de março de 2012 comecemos a pensar nisso. Se em 2012 teremos mais uma edição da Mostra de Cinema e Vídeo de Seabra ou se teremos a primeira edição do Prêmio Pai Inácio de Literatura e Cinema.

CC – Como é feito a seleção dos curtas? Como eles chegam até você?
MA – Hoje em dia como muitos já conhecem, então eles mandam…

CC – Algum curta aqui é inédito?
MA – Esse ano não. O que acontece é que amigos falam – Mauricio, tem um vídeo de um amigo… ai eles mandam o material e a gente vai analisando, assisto absolutamente todos. Alguns acabam não entrando por uma questão de horário, de exibição. A questão do tema me interessa muito; ontem (sexta-feira, primeiro dia do evento) por exemplo foram três temas interligados e atuais. E tem a questão do comprometimento do realizador vir para cá exibir. Um filme que gostaria muito de trazer era Eu não Quero Voltar Sozinho, mas o Daniel não pôde vir. Ai partimos para aqueles que nos dão uma disposição maior para vir para Seabra. Besouro, que é um filme gravado aqui, nunca foi exibido pois nunca tivemos a oportunidade de trazer alguém da produção.

CC – Falando de sua carreira no cinema… como tudo começou?
MA – Em 1992 que eu fiz o primeiro curta, mas antes disso sempre escrevi, tentei escrever livros, hoje eu vejo que muitos daqueles textos que achava ser literário, tinha uma característica mais voltada para o roteiro, mas assim, exatamente em 1992 que foi a primeira vez que sai em grupo e fomos gravar. Tínhamos uma câmera VHS, eu tinha um texto, ensaiamos com os ‘atores’, e gravamos em um final de semana. Tivemos problemas na edição, tivemos que pagar, e esse foi o meu primeiro curta. Foi realmente algo mais experimental, exibido entre a gente mesmo. Éramos amigos de colégio, eu estava já na universidade, mas era um grupo de colegial. Depois disso (1994) fomos gravar um curta em Maragojipe (cidade), já numa estrutura melhor, foi o primeiro momento que eu já sentei com o roteiro para analisar tecnicamente como seria filmada aquela história; era uma ficção de cerca de 17 minutos. Paralelo a isso me formei em Letras, não havia ainda faculdades de cinema. Depois disso, já em 2000, tive um projeto mais ambicioso (Estranho Conhecido), um média-metragem, que não deu certo no final, por conta de problemas com um dos atores. Mas este é o primeiro texto que realmente gostei e que tenho interesse em um dia fazer. Houve então um novo hiato, já estava em época de pós-graduação, queria trabalhar em universidade pública (como professor). Passei aqui na UNEB (2004). Nesta época gravei um curta de cinco minutos, para o festival (Festival Nacional 5 Minutos), tinha cerca de nove minutos – o original – então tive que mutilá-lo. Foi exibido, inclusive. O processo então foi ganhando um ar mais sério e depois desse veio O Enfermeiro (2008), meu primeiro longa-metragem. E foi a primeira vez que eu adaptei uma história; até então eram roteiros originais meus. Quando me deparei com aquela história de Machado de Assis, eu pensei: – Dá um filme!. A partir daí criei novos personagens, mudei algumas partes, atualizamos, saímos do interior do Rio de Janeiro e trouxemos a história para Salvador (Pojuca, precisamente).

CC – Fale-nos um pouco sobre O Seminarista, seu próximo projeto…
MAO Seminarista é um romance que eu sempre quis adaptar para o cinema, mas nunca tinha tido a chance de, sequer, esboçar o que poderia vir a ser chamado de roteiro. Porém, depois de O ENFERMEIRO, que também foi uma adaptação e atualização de uma obra literária, comecei a pensar no meu próximo projeto. Claro que várias possibilidades vieram à minha mente, porém o que ganhou mais força foi O Seminarista. Eu sempre gostei daquela história do amor impossível entre dois jovens, que se conhecem desde pequenos, mas não podem concretizar o amor pois ele está prometido, pela família, à igreja: ele tem que ser padre. Com essa linha narrativa – exatamente a mesma do romance de Bernardo Guimarães, auto do livro – eu comecei a preparar o roteiro e, uma das primeiras – de várias – modificações, foi transferir os acontecimentos do romance para a Chapada Diamantina, ao invés do interior mineiro. Sempre procuro afirmar que, mesmo atualizando a história, criando personagens e tramas que, na história original, não existem, eu procuro manter a essência da obra do autor do clássico da literatura. Foi assim com Machado e está sendo assim com Bernardo Guimarães. Falando um pouco do elenco… é um elenco bem maior que o d’O ENFERMEIRO, porém, um elenco coeso, que está comigo desde agosto, pelo menos a maioria. Os que foram entrando no projeto há bem pouco tempo, também estão bastante adaptados e, segundo eles, os atores, gostando de estar inseridos nesse projeto. Estou trabalhando pela segunda vez com Bruno Neves – que tem um tipo de atuação que muito me agrada – e Fernando Neves, um dos melhores atores de cinema e teatro. No elenco há também Edson Cardoso (Jacaré, da Turma do DIDI), um ator intenso, que eu já tive oportunidade de vê-lo, algumas vezes, no teatro, lá no Rio. Atores com os quais eu nunca trabalhei: Cristtiane Lacerda, Angel Marques… E os dois atores principais são da cidade de Seabra, da Chapada: Ítalo Bruno Araujo e Erica Souza. Eu não pretendo seguir essa linha de inspirações em obras literárias. O ENFERMEIRO foi o meu primeiro roteiro adaptado, O Seminarista, o segundo. Todos os outros que já escrevi na vida são roteiros originais. Contudo, apesar de não pretender seguir, não tenho nada contra, muitíssimo pelo contrário: adoro literatura, sou formado em Letras. Se acontecer de o meu próximo projeto for também uma adaptação de um conto, um romance da literatura brasileira, será muito bem vindo, a depender da historia, claro!

 


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