Cabaré da Rrrrraça – Cabine Cultural
Teatro

Cabaré da Rrrrraça

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Cabaré da Rrrrraça

O espetáculo Cabaré da Rrrrraça já existe há mais de quatorze anos, mas encenado hoje parece ter um gosto diferente. Muita coisa aconteceu em vários cantos do mundo com relação à temática do orgulho negro e isso faz sentir o texto como uma grande carta aberta, lida, que conversa, reflete e, sobretudo, provoca. E essa vertente libertária que o espetáculo invoca, diga-se de passagem, muitas vezes choca, seja na construção de diálogos que mexem em todo o momento com a negritude, seja na plasticidade de alguns dos esquetes apresentados. Em determinado momento, um dos personagens mostra-se despido para a plateia, e com um discurso curto e seco, diferencia o que no espetáculo denomina-se negro e negro fodido. A cena é forte, e realmente chega a assustar os mais puritanos. Muito se discute sobre a real necessidade destes elementos serem constantemente introduzidos no teatro baiano. O debate é até bem válido, mas o que deve ser levado em consideração em Cabaré da Rrrrraça é que, tal como uma carta aberta, essas cenas servem para externalizar todo um sentimento provindo de séculos e mais séculos de escravidão (a física, mas especialmente a de pensamento). Assim, ao se deparar com sequências fortes e ousadas como estas, o espectador deve se conscientizar que no contexto atual em que (sobre) vive-se, estas falas (e ações) são ao menos possíveis, permitidas, liberadas por conta de um estado aparentemente democrático. Não deixa de ser uma vitória, simbólica, talvez, mas ainda assim, muito válida. É o poder gritar, nem que seja um palavrão.

Não é nada muito profundo, nem há em seu roteiro grandes frases filosóficas, daquelas que se passa o dia inteiro tentado desvendar, mas todo o espetáculo vale sim como um grande protesto que fora abafado por muito tempo, e por isso ele sai gritado, alto, revoltado, digno.

– “Boa noite, resistência, e boa noite, brancos. Este é um espetáculo, didático, panfletário e interativo”. É com este aviso que um dos personagens se apresenta para o público. E é desta exata forma que o Cabaré da Rrrrraça se desenvolve, aliando diversas sequências construídas por diálogos e discussões sobre o ser negro no Brasil, na Bahia (mais especificamente) com músicas, ótimas músicas, certamente um dos grandes pontos fortes de toda essa jornada.

E nesse quesito, Cabaré da Rrrrraça não poderia estar em melhores mãos. Jarbas Bittencourt realiza – como de costume – um trabalho musical visceral, vivo, estridente, que não somente agrega qualidades ao roteiro, como é parte fundamental para o sucesso do espetáculo. Seu trabalho se faz notar logo nos primeiros acordes, demonstrando todo o seu talento nesta função.

O cenário, bem espaçoso, proporciona uma dinâmica muito interessante para o desenrolar das histórias. E é por conta de uma movimentação constante de seus personagens que a plateia dificilmente se cansa. Não há um momento sequer de monotonia ou de lentidão, e isso neste caso se mostra como um belo elogio.

Os personagens são bem trabalhados, com suas peculiaridades (evidente) que os diferem de papéis desenvolvidos para peças mais densas, formais, do circuito mais tradicional de teatro. Aqui eles possuem uma maior liberdade de criação, até mesmo de improviso. Eles aparentemente não são dotados de biografias mais aprofundadas; sabe-se que uma terminou o segundo grau, outra é universitária, mas nada que traga muita reflexão sobre. Esta característica ajuda na proposta que o espetáculo sugere: ser uma espécie de revista musical, com ares de carta aberta e atmosfera de liberdade.

Márcio Meirelles, o diretor, é outra parte essencial no projeto. Há de se perceber que Márcio possui um grande domínio do espetáculo, e seu conhecimento sobre a temática deve ser ao menos admirável. Ele tem a peça nas mãos, sabe exatamente o que fazer com ela, sabe o que deve exigir de seu elenco e fica visível que o elenco oferece o retorno por ele cobrado.

Ao final do espetáculo fica a idéia de que ainda há muitas questões para serem trabalhadas. A estrada rumo a uma democracia inteiramente livre de preconceitos raciais ainda é por demais longa. O caminho continua sendo tortuoso, mas já é um grande alento saber que existem grupos (pequenos, médios, grandes…) que cada vez mais arregaçam as mangas e levantam bandeiras dispostos a pôr um definitivo fim nesta atual situação de apartheid velado. Por estas e outras, Cabaré da Rrrrraça é, não somente uma carta aberta ao mundo, mas é também uma bandeira de luta que precisa ser hasteada cada vez mais alta, para que milhares e milhares de pessoas possam ver.

Observação: já próximo do fim do espetáculo do dia 20 de janeiro de 2012, o elenco do Cabaré da Rrrrraça/Bando de Teatro Olodum interromperam uma das esquetes para fazer um protesto contra a atual situação da cidade de Salvador, em um movimento que vem sendo chamado de Desocupa Salvador. A seguir, a íntegra do protesto/texto:

“Senhoras e senhores, há quase 15 anos Cabaré da Rrrrraça é interrompido neste momento, pelo personagem Wensley para um protesto contra a exploração do corpo negro pra fins comerciais. Hoje interrompemos pra dizer que a mesma coisa está acontecendo com Salvador. Nossa cidade está sendo usada e desfigurada pra fins unicamente comerciais. Salvador está vendida. Precisamos retomar nossa cidade. Por isso interrompemos nosso espetáculo para dizer que fazemos parte do movimento Desocupa! E pedimos o apoio de todos ao movimento e ao  Ministério Público nos processos contra o prefeito de Salvador. Porque sabemos que as pressões devem ser muitas. Afinal, o prefeito é só um boneco João teimoso que apanha e volta. Quem mantém o boneco em pé são interesses econômicos de muitos milhões. São interesses políticos. São interesses predatórios que não vão beneficiar os cidadãos. E precisamos estar atentos porque podemos bater no boneco, ele cair e voltar com outra cara para um outro mandato. Precisamos entender o que mantém o boneco em pé”.

* Fotos: Cristiana de Oliveira



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