2 Coelhos | Cabine Cultural
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2 Coelhos

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Fugindo do lugar comum, 2 Coelhos, primeiro longa-metragem do diretor Afonso Poyart, segue à risca o significado que o título indica. Se na história o protagonista acaba matando dois coelhos com somente uma cajadada, aqui Afonso consegue obter dois êxitos com a produção de seu filme:

1- Põe seu nome no roll de bons diretores do cinema nacional, o que é um feito para alguém que se encontra ainda no primeiro trabalho com longas-metragens e 2- Coloca seu projeto em um seleto grupo constituído de filmes dos mais interessantes e criativos.

Na trama, Edgar (Fernando Alves Pinto) causa um acidente com graves consequências e, depois de ser absolvido, passa dois anos fora do Brasil. Em seu retorno ao país, pretende fazer justiça com as próprias mãos, atingindo, num mesmo plano, um político corrupto, o deputado Jader (Roberto Marchese) e uma quadrilha, chefiada por Máicon (Marat Descartes). A dupla está acordada com o casal formado pela promotora pública Júlia (Alessandra Negrini) e seu marido, o advogado Henrique (Neco Vila Lobos). Nesse percurso, muitas perseguições, traições, revelações e descobertas vem à tona.

Um dos elementos que fazem de 2 Coelhos uma boa surpresa é sua ousadia temático/narrativa, que se mostra bem engenhosa desde o início, quando Afonso Poyart joga no espectador uma série de pistas sobre o que virá a acontecer nas próximas 1 hora e 40 minutos de história. Mais para frente vem todas as recompensas, em algumas das reviravoltas mais criativas que o cinema nacional ofereceu nos últimos anos.

As atuações estão em um nível crível, sendo que Fernando Alves Pinto se sobressai encarnando um jovem que vive com a lembrança de uma tragédia que foi de sua responsabilidade. Alessandra Negrini é outra bela surpresa, trazendo para a sua personagem características bem peculiares de personalidade. Toda a parte que envolve suas crises de pânico e os modos que ela utiliza-se para defender-se são elementos bem destacados no projeto.

Outra escolha relativamente acertada, que intensifica a atmosfera de cultura pop introduzida pelo longa-metragem, diz respeito à trilha sonora, tanto a incidental, a cargo do talentoso André Abujamra, quanto às músicas inseridas na história (Titãs, em sua melhor fase, 30 Seconds to Mars). A trilha casa muito bem com o filme, dando um tom às vezes de ação e às vezes de uma história com contornos épicos. No entanto, em alguns momentos a parte sonora soa exagerada e poluída, mais parecendo que foi jogada aleatoriamente em algumas das sequências.

E quem trabalhou em harmonia com a trilha sonora seguramente foi a montagem, bem frenética, rápida, que não deixa o espectador sequer piscar os olhos. Há, porém, ao menos nos primeiros minutos da narrativa, um excesso de estilo, que traz mais informações que o necessário para o espectador. São animações a cada take, num exagerado uso de ferramentas cinematográficas. Para o bem da trama o seu desenvolvimento acaba trazendo um equilíbrio maior neste sentido, e assim o filme flui de modo mais orgânico, se preocupando tão somente na história e nos personagens.

Ao fim, 2 Coelhos é, não somente uma boa surpresa para o cinema nacional, como também uma peça quase rara na nossa cinematografia. Funciona bem como um filme de ação, como suspense e até mesmo como comédia (algumas sequências são bem engraçadas). Afonso Poylart, ao menos neste projeto, mostra-se um diretor criativo, inovador e competente. Ainda lhe falta uma maturidade maior para que seus próximos projetos não necessitem de tantos elementos estilísticos e foque-se tão somente no processo de construção da história, que quanto mais limpa, melhor.







Uma resposta para “2 Coelhos”

  1. Roteiro muito bom, trilha, atuação, direção e montagem também. Com excessão dos exageros iniciais em efeitos gráficos, conforme citado acima, poderia ter ficado num padrão melhor. Ressalto ainda os muitos planos com desfoques, sei que pode ter sido a linguagem escolhida, porém na minha percepção não cabe em filmes destinados a telona, onde mesmo em câmeras “nervosas”, o enquadramento e foco não podem deixar de serem valorizados. Mérito pela ousadia e êxito do Diretor em seu primeiro trabalho. Fico feliz cada vez que vejo filmes que apostam na ficção e fogem do modismo recente das biografias nacionais. Ficaremos atentos aos próximos trabalhos de Afonso Poyart.

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