Jardim das Folhas Sagradas | Cabine Cultural
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Jardim das Folhas Sagradas

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Jardim das Folhas Sagradas

Jardim das Folhas Sagradas

Depois que qualidades e falhas foram apresentadas, uma dúvida talvez paire pela cabeça do espectador: de que forma lembrar-se de Jardim das Folhas Sagradas no futuro?

Por Cristiana de Oliveira

Jardim das Folhas Sagradas, do diretor baiano Pola Ribeiro, é um filme que busca intensamente construir um diálogo com assuntos universais sem, no entanto, fugir de uma   história  focada  em  uma  perspectiva  mais  local.  Deste modo, ele acaba representando muito do que o status quo vigente apresenta como temas contemporâneos – especulação imobiliária, tolerância  religiosa, diversidade sexual, racismo – além de trazer um viés bem regionalizado, deixando evidente que o projeto a ser  mostrado  possui  uma  bandeira  hasteada  muito  bem  definida,  e  ela  é  azul, vermelha e branca, cores da Bahia.

Observa-se assim o uso de uma série de questões no desenvolvimento desta trama, fundada  no processo de autotransformação pessoal e religiosa, onde o candomblé servirá  como um fio condutor filosófico dos mais interessantes, proporcionando ao diretor elencar muitos dos assuntos desejados em pouco mais de uma hora e trinta minutos de filme. Será através da religião que o personagem protagonista Bonfim – interpretado por Antonio Godi – adentrará numa jornada bem semelhante àquela do herói mitológico.

Ele, um bancário negro e bissexual – casado com uma mulher branca e evangélica – receberá  a  árdua  missão  de construir um terreiro de candomblé na cidade de Salvador, uma das cidades brasileiras que mais padecem com a especulação imobiliária, mote que Pola Ribeiro não deixará esquecido na história. No entanto, por mais falhas que sejam, é inegável que as imagens lançadas oferecem ao público, sobretudo ao soteropolitano,  um  sentimento robusto e intenso de identificação regional. É o olhar para si, perspectiva psicológica rara atualmente, muito por conta do número ainda acanhado de longas-metragens produzidos na Bahia. Por isso, quando o espectador se depara com cenas  filmadas na região do Campo Grande, Curuzu, Comércio ou Canela, seus olhos naturalmente brilham de um prazer que é  incomensurável. Este tipo de impacto agrega qualidades ao projeto, não há dúvidas.

Jardim das Folhas Sagradas

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Pensando nos incômodos que o filme proporciona, observa-se uma já clicherizada temática para o gênero, que se reporta ao conflito entre vertentes religiosas, sendo representados aqui através das sempre latentes brigas entre membros da religião evangélica e do candomblé, que travam na narrativa o que um famoso jornal da cidade intitulou de Guerra Santa. Este assunto, dos mais sérios, não merecia ser ilustrado por cenas que  beiram à caricaturização e que, sobretudo, mostra-se sem rumo, sendo abordado de um modo bastante vago, não ajudando em nada no processo de incitar uma reflexão mais ponderada sobre.

Depois que qualidades e falhas foram apresentadas, uma dúvida talvez paire pela cabeça do espectador: de que forma lembrar-se de Jardim das Folhas Sagradas no futuro?

A resposta mais razoável sugere uma preferência para que se deixe adentrar na memória a beleza plástica que o filme proporciona, além da construção muito competente de uma identidade baiana. Seu diretor, Pola Ribeiro, peca em muitos momentos,  mas seus  acertos  merecem  ser  vistos  com  igual  carinho.  Assim,  a experiência cinematográfica fica  não somente mais válida como, sobretudo mais prazerosa.

Cristiana de Oliveira é professora universitária, crítica cultural e editora do site


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