Conversas Plugadas - Aldri Anunciação
Teatro

Conversas Plugadas – Aldri Anunciação

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Conversas Plugadas Aldri

No dia 29 de março passado, em mais um aniversário da cidade de Salvador, o projeto Conversas Plugadas trouxe como convidado especial o ator e escritor Aldri Anunciação. Aldri, além de ter escrito, também tem papel como ator na já aclamada peça Namíbia, Não! que tem direção de Lázaro Ramos e que recentemente foi selecionada para participar do tradicional Festival de Teatro de Curitiba.

CARREIRA
Sua carreira ao longo dos anos vem sendo desenvolvida de maneira bem diversificada, com trabalhos na televisão (Porto dos Milagres, A Diarista, A Lei e o Crime…), no cinema (A Máquina, Muito Gelo e Dois Dedos D’água…) e no teatro (Os Negros de Jean Genet, Um Homem Célebre…). Porém, não restam dúvidas que foi sua investida como escritor de Namíbia, Não! que o levou para o primeiro time de artistas baianos. Namíbia, Não! já se consolida, com pouco tempo após sua estreia, como uma das peças teatrais mais emblemáticas e bem-sucedidas do teatro baiano (e nacional, por que não dizer).

A PEÇA
O enredo da peça se passa em 2016, quando o governo brasileiro determina, através de Medida Provisória, que todos os afro descendentes regressem imediatamente à África, promovendo assim a diáspora vivida pelo povo africano no Brasil de séculos atrás. Para fugir desta determinação, os primos André e Antônio passam dias trancados no apartamento e, com bastante humor e ironia, debatem a vida e questões sociais contemporâneas das pessoas de melanina acentuada.

CONVERSAS PLUGADAS
Fiquem agora com os principais momentos de sua participação no Conversas Plugadas.

Logo de início ele destacou que o trabalho de autoria é novidade na sua carreira, e que o texto de Namíbia, Não! chegou na casa dele, cabendo tão somente abrir a porta e aceitá-la enquanto ideia. Ele pegou o texto e apresentou a ideia para quatro autores diferentes. O primeiro disse-lhe que misturar comédia com racismo é por demais perigoso. O segundo disse ser possível fazer um drama com a história. O terceiro afirmou não ser possível trabalhar como drama e o último deu o conselho para ele mesmo produzir, pois achava o caminho não só natural, como o mais adequado. Foi a partir daí que começou o processo de construção da peça. Logo após essa fala, Aldri afirmou que o teatro possui características autoritárias (não ser possível falar, se manifestar…), fazendo uma analogia muito interessante com elementos centrais da peça, e assim, segundo ele, faz com que a plateia seja ainda mais cúmplice da história. Depois ele disse que voltou a morar em Salvador em 2010 e que ao chegar se deparou com notícias sobre o bairro do Calabar que o fazia lembrar do teor da história da peça. Fez assim um paralelo com diversos elementos sociais, evocados tanto na peça quanto na vida real.

Sobre o processo de escrita, esse é o seu primeiro trabalho. Usou sua experiência como ator para ajudá-lo na construção do texto. Neste momento ele compartilhou com a plateia (que encheu a Sala do Coro do TCA) um dos grandes (aparentemente) problemas do espetáculo: sua ação transcorre em apenas dez minutos. depois ela se esgota. Ele diz: “Dois  primos presos, essa é a ação do espetáculo

A ação dramática se esgota muito rápido. Por isso ele usa de catarse a cada 5 minutos. Assim, a problemática vira solução, pois fica o diálogo de dois personagens com pensamentos opostos. É um embate de ideias que supre a falta de ação da peça. Ele confessou que as pessoas se sentem culpadas por rirem na primeira parte da peça, já que os elementos que são trabalhados na segunda parte são muito mais dramáticos que na primeira. E solta a questão para todos: e se algo assim acontecesse hoje em dia? Se realmente houvesse a possibilidade de tal decreto? Seria legal voltar pra África? Outro problema que ele destacou foi quanto à classificação, já que ele é um espetáculo político, e que muitos acreditam ser também panfletário, o que ele discorda. Outros também podem achar a peça partidária, o que ele também discorda.

Sobre o trabalho de construção dos diálogos, ele afirma ser um processo dos mais esquizofrênicos, pois ele faz perguntas que ele mesmo tem que responder. Neste sentido a profissão de ator ajudou no trabalho como dramaturgo. “Todo dramaturgo deve ser um pouco de ator”, diz.

Mais pra frente ele confessa que seu personagem preferido para fazer era André, e que esperava que Lázaro Ramos (o diretor) escolhesse-o para interpretar. Só que Lázaro optou por dar para ele o outro personagem (Antonio). Também afirmou que há influências perceptíveis na peça, incluindo ai Romeu e Julieta, que ele veio perceber depois que tinha reproduzido a primeira frase desta mítica história de amor.

Também falou da estrutura narrativa de Namíbia, Não! Que há uma clara cisão narrativa, que tem na sua primeira metade explicações sobre tudo. No entanto, a segunda parte subverte-a, não dando explicação alguma para os acontecimentos (muitos deles bem estranhos). Já mais para o final ele lembrou, ajudado por alguém da plateia, que o confinamento é construído em um ambiente de cor branca, fazendo um interessante trabalho de simbologia com o tema central da história.

Como adendo ao texto, há de se destacar que a peça Namíbia, Não! recebeu na 19ª edição do Prêmio Braskem de Teatro o prêmio de melhor texto.


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