Entrevista Cristina Castro
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Entrevista – Cristina Castro (Parte Um)

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Entrevista com a coreógrafa Cristina Castro

No dia 20 desse mês de abril, no Cabaré dos Novos, no Teatro Vila Velha, entrevistamos Cristina Castro, curadora do VIVADANÇA Festival Internacional que já está em sua sexta edição e recebeu esse ano representantes de 18 países e de outros 10 estados do Brasil, criadora do Programa de Formação de Plateia para Artes Cênicas e diretora do Núcleo VILADANÇA, primeiro grupo de dança residente no Teatro Vila Velha, criado por ela em 1998. Coreógrafa, professora, idealizadora e dançarina, Cristina Castro conversou com o Cabine Cultural sobre vários temas. Por conta da duração da entrevista – mais de duas horas – dividiremos o resultado desse relevante bate-papo em duas partes (Parte 2). Nesse primeiro momento ela fala sobre o VIVADANÇA Festival Internacional como um grande encontro, um intercâmbio artístico, também fala sobre a Mostra Hip Hop, a Mostra Casa Aberta, sobre sua vontade de popularizar a dança,  sobre os circuitos infantis, dentre outros assuntos. Segue abaixo o primeiro momento dessa entrevista.


Cabine Cultural – O festival está em sua última semana. Já está no fim de um cronograma, o local, mas ainda no início de outro cronograma, o nacional. Queria saber então o que ainda existe de expectativas, seja quanto a esta edição baiana, seja quanto às primeiras edições, em Belo Horizonte e em Brasília. E o que já existe de análise, sobre o que aconteceu nestas últimas semanas aqui em Salvador.

Cristina Castro – Este ano eu fiz um planejamento diferente para o festival. O festival, além de ter os espetáculos, as oficinas, as exibições de vídeo, ele tem linhas de atuação que a gente vem consolidando, e que quero continuar, porque ele sai daquela característica de que é mostra de espetáculos. Não quero fazer uma mostra de espetáculos, quero fazer um encontro, um intercâmbio artístico. O intercâmbio é muito mais do que você só assistir aos espetáculos. É você promover estes encontros. O planejamento do festival foi modificado este ano para que nas duas primeiras semanas concentrássemos duas ações importantes, e que tem um público muito grande, que é a Mostra HIP HOP e a Mostra Casa Aberta, e ainda começar o circuito infantil. São três ações grandes, com objetivos diferentes, mas que todos se encontram na questão de intercâmbio, que cause desdobramentos a mais do que você somente formar uma opinião estética sobre o produto que você está trabalhando. Então, nas três primeiras semanas a gente se concentrou nestas mostras, e depois receberíamos os espetáculos internacionais, os nacionais, as pessoas de fora. Isto porque pensávamos nos desdobramentos de Brasília e Belo Horizonte. Como tenho um festival de um mês é muito difícil, por exemplo, um grupo que vem no início ficar até o fim. É muito caro. Então temos que pensar em toda a logística e combinar isso com a disponibilidade dos grupos. É uma matemática louca.

É um quebra-cabeça, de planejamento, juntamente com a logística, com o artístico, com a curadoria, com o orçamento. Tudo tem que estar em harmonia para que o festival aconteça. Depois destas três semanas, concentramos nos grupos. E por que isso? Porque estando muito próximo de maio eu consigo levar alguns deles para estes outros lugares. É a logística que impera neste caso. Desde o ano passado tive esse olhar atento para esse planejamento do festival, concentrando também na questão do Hip Hop, porque como abrimos nacionalmente a batalha, o ideal era que fizéssemos na semana santa, porque as pessoas do interior e de outros estados teriam um feriado para se deslocarem para cá. Isso porque o público do Hip Hop é constituído basicamente de jovens, e esses jovens estudam e trabalham. Eu não posso tirar uma semana deles, é muito difícil. Então como a segunda semana foi a semana santa, casou certo, porque conseguimos trazer a Mostra Hip Hop na primeira semana, a Mostra Casa Aberta logo em seguida e depois começamos o circuito infantil. E agora estamos no momento de receber os trabalhos de fora, que é outro trabalho de produção.

A expectativa desta primeira parte do festival – que considero bem distinta da outra – cumpriu perfeitamente as expectativas, acho que foi até mais do que esperávamos, tivemos boas surpresas. A Mostra Casa Aberta cada ano cresce mais, e isso é um problema. Não um problema, mas devemos estar atentos e saber até quando a gente pode crescer. Crescer é ótimo, mas temos que ter estrutura para isso. Este ano, na Mostra Casa Aberta, tivemos 500 artistas no palco, e se for crescendo deste jeito vai chegar um momento que não conseguiremos receber. Talvez tenhamos que passar para outro lugar, maior. Talvez tenhamos que restringir o número de projetos, ou talvez desdobrar isso em outro projeto. O crescimento também faz a gente refletir até que ponto se pode ir. A Mostra Hip Hop também, apesar de ainda estar muito tranquila. Ainda sinto falta – e isso é algo para pensarmos – de termos uma comunicação, não com a galera do Hip Hop, que acho que temos uma ótima, mas sim com as pessoas que não fazem Hip Hop, para vir assistir Hip Hop. E esse ano nós trouxemos o Mandrake, que é o maior portal de Hip Hop do Brasil. Então isso vai crescer, vai repercutir e muitas outras pessoas vão querer vir. Ano que vem sentiremos a repercussão do que plantamos agora. E o fato dos ganhadores terem sido de outros estados (Alagoas, Paraíba e Bahia) também vai refletir e isso vai ser difundido. Eles possuem uma rede de comunicação muito poderosa. São completamente virtuais, se apóiam, e em tempo integral. É uma classe. E tem uma coisa bacana no festival que é o fato de entendermos e estudarmos cada classe, porque são várias classes que vêm aqui: a do Hip Hop, a do circuito infantil, que é outra coisa, a da Mostra Casa Aberta, que já é outra. E os espetáculos internacionais, que já é outro público. São públicos diversos que se misturam, e para cada público tem uma comunicação diferente.

Existe uma comunicação mais geral, que o festival tem que ter que são os outdoors, rádio… que é uma comunicação para a cidade e que a gente sabe que não surte o efeito desejado se não tivermos os formadores de opinião. Para cada ação desta temos líderes que podem repercutir, e eu acho que a maior propaganda ainda é a boca a boca. É a opinião do outro que influencia você para ir a algum lugar. Então essa primeira quinzena cumpriu muito bem as expectativas, porque ano passado, por forças administrativas, a gente teve que fazer o festival gratuito. Não nos foi permitido cobrar ingresso porque o grande patrocinador da gente exigiu que fizéssemos gratuito. Eu não sou a favor disso. Você tem que ter um mínimo, um valor simbólico para trocar, porque esta troca é saudável na hora que você vem ao teatro. É uma educação de valoração da arte. Não digo nem que tem que ser dez, ou cem reais, não é nada disso. Mas você tem que ter este ato simbólico de troca, para você começar a valorizar alguma coisa. Então, voltando à análise, acho que a primeira quinzena cumpriu bem as expectativas e aponta vários caminhos futuros de sucesso e de revisão. Cada ano fazemos uma análise para ver o que se pode melhorar.

Este ano tivemos muitos pontos positivos com relação ao público e também com a nossa comunicação. Acho que este ano conseguimos entrar em veículos nacionais importantes, a gente conseguiu estabelecer uma ponte bacana com os próprios jornais daqui, com os sites daqui. Ainda é uma tarefa muito difícil, mas acho que pela própria consolidação do festival durante seis anos já estamos ganhando um olhar mais atento, tanto do público quanto dos veículos de comunicação. Agora partimos para uma nova etapa, de receber mais esses grupos internacionais e já fazer a ponte para esta grande aventura, e este primeiro passo que estamos dando, que é levar para outros estados, que tem procedimentos diferentes também, que temos que entender, por exemplo. A comunicação de cada lugar é diferente. Temos um mapa, digamos assim, mas acho que só lá iremos saber os desdobramentos disso. Mas vejo que já existe um interesse dos veículos de comunicação de lá também. E a gente sabe que estamos cumprindo uma coisa antiga, que é a circulação e distribuição de produtos artísticos no Brasil, que é uma questão muito velha que estamos discutindo e que ainda não está solucionada. Não sei se teremos uma solução, talvez por sermos um país muito grande, ou por ter pouco dinheiro, mas a gente já vê pontos anunciando que vai ser um sucesso, principalmente em Brasília, que é a capital do país. E a ideia é conseguirmos fazer uma mostra em cada região do Brasil.

CC – Um dos principais pontos lembrados de um festival reside em sua curadoria. Queria saber, diante de uma pluralidade tão grande de espetáculos, mostras, oficinas… A Mostra HIP HOP, a Mostra Casa Aberta… qual o elemento que une tudo isto e que dá o tom do que é o VIVADANÇA?
CC – É um ponto muito curioso e muitas pessoas ficam instigadas a saber. Quando pensei em fazer um festival para a cidade, tive que entender esta cidade, tive que entender esta linguagem dentro da cidade. Eu nunca quis fazer um festival de um estilo, talvez no futuro faça, pois não gosto de fechar portas. Mas se a gente for perceber, somos um estado dançante. Somos um estado onde o movimento é a nossa língua, isso muito pela contribuição dos africanos e toda a nossa colonização. Temos isso nato. É a nossa história. Mas somos um estado que não tem ainda uma rede, uma ligação entre essas pessoas que fazem dança e as pessoas que gostam de certas danças. Então o intuito do festival… bem, começou quando ganhei um prêmio da UNESCO por um espetáculo que eu fiz e tive a oportunidade de ir à Paris receber este prêmio e conhecer a sede da UNESCO. É um centro internacional de dança e tem um departamento que cuida da dança mundialmente. E conversando com as pessoas de lá fui informada que dia 29 de abril era o dia internacional da dança, e eu não sabia. E eu dizia: ô, que bom! E eles diziam: não sei se sabe, mas todo ano a gente faz um movimento para despertar a atenção para a linguagem da dança, em cadeia mundial. Vários espaços, vários artistas se mobilizam para promover alguma coisa de dança, para que a sociedade veja a dança. E eles disseram: você não quer fazer isso? E eu disse: tá bom, vou ver o que posso fazer.

Aí eu voltei para o Brasil, conversei com o Teatro Vila Velha, e eles pediram que fizéssemos com um preço barato ou então de graça, pois a ideia não era ganhar dinheiro, mas despertar atenção para os veículos de comunicação e juntar as pessoas de dança em uma corrente que pudesse melhorar. Aí eu vim, conversei com o pessoal do Teatro Vila Velha e eles me apoiaram. Comecei fazendo os meus espetáculos, aí foi crescendo, então fui chamando os amigos. Eu falava: vocês querem fazer isso? E não tinha grana, não tinha nada, era uma contribuição que eles estavam dando. E aí começou, eu dizia: vamos chamar alguém para fazer uma oficina? Vamos chamar alguém para fazer uma mesa? E o festival não nasceu assim: vamos fazer um festival hoje! Ele nasceu de uma programação que foi crescendo, tendo vários bons retornos, tanto de público, quanto de artistas. Então comecei a me comunicar com artistas internacionais e institutos que conhecia; uma articulação que pela minha história, pelo meu acúmulo de experiências, deu certo. Aí chegou um momento que dizíamos: mas isso já é um festival. Vamos assumir, vamos assumir o festival, e aí a gente assumiu o Festival VIVADANÇA. Começamos com o Mês da Dança, aí depois Mês da Dança no Vila, e aí depois VIVADANÇA Festival. Então, desde o início trabalhamos em cima de duas bases, que é a diversidade e o coletivo. É isso que norteia a gente. Estamos numa cidade que é dançante, mas que não havia muita comunicação entre os artistas. É muito dividido ainda entre tribos: quem faz dança de rua está lá, quem faz dança afro está cá, quem faz balé está em outro lugar, e ninguém se conhece, ninguém se mistura. Então a ideia do festival era ser um centro de encontro de artistas, e que a gente pudesse trazer outros artistas de muitos lugares.

CC – Você é criadora do Programa de Formação de Plateia para Artes Cênicas, e pela estrutura do VIVADANÇA, com preços bem em conta, é perceptível que há uma vontade grande de popularizar a dança e seus festivais aqui na Bahia. Neste sentido, em que estágio se encontra este trabalho?
CC – Tem a questão do preço e a questão da formação de plateia que para mim é maior que somente preços de ingressos. São várias questões que passam por coisas que não são nem da arte. Com relação a preços, a gente trabalha muito com leis de incentivo, pois é a forma que usamos para viabilizar e captar recursos. Não vem nenhuma empresa em minha porta dizer que amou minha ideia e que eles vão patrocinar, sem precisar de leis de incentivo. É impossível. A dança ainda é cara, o teatro é caro. É caro porque tem equipamentos caros, tem que ter manutenção, tem que ter uma série de serviços… eu não acredito que exista teatro no mundo que não tenha subsídio de governo. Não conheço, ao menos. Então eu acho que por trabalhar com leis de incentivo temos a obrigação de ter preço popular, porque isso é imposto. E o festival só se faz com público, não adianta ter artistas se não tem público. E isso é muito importante para o nosso festival que trabalha com formação de plateia.

E aí já entro na segunda questão. É uma norma, 40% do nosso público vem do trabalho de formação de plateia, então temos uma equipe formada, que trabalha meses antes do festival, e que trabalha só com formação de plateia. Essa equipe começa a cadastrar todas as instituições que possuem interesse em vir ao teatro, para o festival. E são muitas instituições públicas, ONGs, grupos já articulados. Ano passado cadastramos 149 instituições que queriam vir. Depois tem uma comunicação da programação com estas instituições: você quer vir, a programação é esta. Você tem interesse em, além de ir para o teatro, em ver esta programação? Tem uma comunicação, que acho que ainda dá para aprimorar, porque precisa de tempo e de equipe. E equipe certa para fazer isso porque a gente não tem um profissional que é educado para fazer isso, dentro da Produção Cultural. Não tem. Então tem essa parte… os representantes vêm aqui, ganham um pré-convite. E tem certas coisas que eles têm que fazer para pegar este ticket. Por exemplo, chegar meia-hora antes, se cadastrar. Então 40% dos nossos ingressos são para essas pessoas que não têm acesso ao teatro. O festival então promove esta ideia de ir pela primeira vez ao teatro. Fora isso tem o preço popular, e a gente tem um público muito diverso. E temos um circuito infantil, específico para as escolas, e esse circuito é gratuito, porque são peças escolhidas para apresentar este universo para as crianças. É estratégico! E temos professores que fazem trabalhos fantásticos, são verdadeiros agentes culturais.

CC – Você falou de formação de plateia e me veio algo, um incômodo, que é a questão da educação do público, seja em cinema, seja em espetáculo de teatro. E esse é um tema muito complexo para se trabalhar com formação de plateia, você vai estar meio que definindo quem vai ser aquele cidadão daqui há 10, 15 anos, e o que vai ser do teatro, ou do cinema, daqui há 10, 15 anos. Como é que você trabalha isso?
CC – Muito complexo. Temos falado várias vezes aqui. E me incomoda, enquanto espectadora. Enquanto diretora eu tento entender o problema. Tem uma coisa que a gente esquece: são pessoas que não sabem o que é o teatro. Elas não sabem como se comportar dentro do teatro, porque elas nunca vieram ao teatro. Então elas não entendem o procedimento de conduta da sala, de ver, de ouvir. Elas por vezes se comportam como se estivessem em casa vendo televisão, porque talvez seja isso que elas fazem; e na televisão elas podem abrir a sacola, elas podem sair, elas podem comentar. Eu converso muito isso com os artistas, principalmente os internacionais que não entendem muito bem isso. Qual o pacto que fazemos quando vamos ao teatro? Esse pacto tem que ser informado senão eles não vão saber o que é. Com as crianças nós conversamos, e de modo bem didático, do jeito delas, para elas entenderem. Tem que ser a linguagem de cada tribo para eles entenderem, senão fica pior. Acho que a formação de plateia passa por isso. E formação para as artes deveria possuir dois cursos: um para quem não tem acesso e outro para os que não entendem nada (se refere à falta de educação provinda das classes média e alta).

E eu vejo outro problema, mais amplo. A sociedade cada vez mais está sendo treinada para ser individualista, ser egoísta, querer tirar vantagem sobre as coisas, e acho que para você ser público, você tem que ser primeiramente generoso. Generoso de ceder o seu tempo de vida para ouvir o outro, então a gente tem uma forma de viver hoje em dia que aponta para o caminho contrário.

CC – O festival flerta muito com o audiovisual, tendo inclusive uma cinemateca, onde são exibidos diversos filmes. E ainda, nesta edição, a data coincidiu com a estreia do documentário Pina, sobre a vida de Pina Bausch. Como você analisa este diálogo entre a dança e o cinema?
CC – Eu acho que é inevitável, cada vez acho que a dança se aproxima mais desta questão visual, e é bom. O cinema e o audiovisual estão sempre apontando coisas, são mais ousados se comparados com o teatro ou a dança. Lógico que estão surgindo outros formatos, como videodança, que vejo como algo muito forte. Acho que é uma abertura de novas possibilidades, acho que o artista tem que lidar com essa multiplicidade – a cada segundo – de possibilidades. Eu acho que a gente pode trocar. As linguagens podem trocar; a própria Pina sempre trocou com o cinema. Ela atuou como atriz, ela fez filmes na vida dela; tem um filme do Almodóvar, Fale com Ela, que abria com uma cena dela. Ela sempre dialogou sem medo, e as peças dela não tinham vídeos, ao menos não lembro. Ela dialogava dentro do que ela achava que podia dialogar. Mas ela não precisou se desfazer dela.


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