Entrevista Cristina Castro
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Entrevista – Cristina Castro (Parte Dois)

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Entrevista Cristina Castro

Se a primeira parte da entrevista da Cristina Castro, diretora do VIVADANÇA Festival Internacional já estava muito interessante, nessa, onde trabalha também temas mais gerais de sua profissão, está ainda mais. No primeiro momento ela falou sobre a construção do festival em si e de algumas nuances referentes a esses momentos. Nessa segunda parte ela fala da carreira, da ligação com o Teatro Vila Velha, das parcerias com o Jarbas Bittencourt e com o Márcio Meirelles, sobre o mercado da dança no Brasil, sobre seu papel social e sobre Aroeira – com quantos nós se faz uma árvore, projeto construído a partir das músicas de Milton Nascimento. Vale muito à pena conferir!

Cabine Cultural – Recentemente nós estivemos no ensaio aberto de A Outra Tempestade, do BTCA. Você já trabalhou na companhia não foi? A experiência foi boa?
Cristina Castro – Fui dançarina lá durante doze anos. Depois coreografei para o balé. Uma experiência interessante, porque você tem uma experiência de governo, de estar inserido dentro da burocracia, dentro do sistema, que é muito diferente do que imaginamos. É um privilégio você ter um emprego, ter um salário, você ter a possibilidade de viajar, você não se preocupar com coisas de produção. Chegava e encontrava minha cadeira, meu figurino, minha sapatilha, pra eu entrar e dançar. É muito bacana você ter isso. Foi uma experiência muito boa enquanto profissional. Com cinco anos de idade eu entrei no Teatro Castro Alves. É a minha casa. Foi muito bom coreografar para elencos grandes, e eram todos meus colegas. Cumpriu a função na minha vida profissional. Hoje não tenho interesse em trabalhar com companhias públicas, especialmente com o balé. Fundei a companhia aqui no Teatro Vila Velha e a própria companhia que fundei eu não quero mais trabalhar. Foram dez anos e para mim foi um excelente projeto para consolidar o departamento de dança do Teatro Vila Velha. Mas eu acho que cumpriu a sua função. Criamos o Núcleo Viladança. Abrimos para outros tipos de projetos, parcerias com projetos de oficinas, intercâmbio de residências, exposições. Não quero trabalhar com grupos, mas sim com projetos. Posso trabalhar com determinadas pessoas em um projeto e com outras em outro. Sempre trabalhei em grupos fechados, não quero mais tanto esse vínculo. E vai ser bacana esse novo desafio.

CC – Em alguns de nossos mais recentes bate-papos, com o Pola Ribeiro, por exemplo, o nome de Márcio Meirelles era sempre lembrado. Hoje estamos aqui contigo e mais uma vez ele se apresenta. Queria que explicasse um pouco da parceria com ele e com o Teatro Vila Velha.
CC – Admiro muito o Márcio como diretor. Trabalhei com ele antes de ser casada com ele. Ele foi diretor do TCA e eu era bailarina do Balé do TCA. Antes disso eu dancei com a Lia Robatto (Espetáculo Vira Volta Cercania) e ele fez o figurino, foi quando conheci Márcio e sempre tivemos muita afinidade. E depois de muitos anos nos encontramos quando o Balé fez a abertura da nova Sala do Coro (do TCA). A inauguração da Sala do Coro. E ele tinha acabado de chegar de viagem. Eu fiz uma série de perguntas sobre uma criação que estava fazendo. E depois das conversas sobre a criação ele falou: você quer vir coreografar o Bando de Teatro Olodum? Eu nunca havia trabalhado com grupo de teatro, mas foi muito bom para mim. Depois ele fez a proposta de criar o Departamento de Dança, o Viladança. E vir trabalhar no Teatro Vila Velha foi muito bom, pois eu só tinha experiência com teatro público até então. E trabalhava com dança, não sabia muito sobre teatro. Então eu comecei a ver muito teatro, a trabalhar com teatro, ler sobre teatro, aprender sobre teatro. E o Márcio meio que me conduziu nesse novo mundo. E aí, como o TVV possui uma administração de artistas, então eu passei também a entender de gestão, porque eu tinha que gerir o meu departamento. É uma experiência de troca de opiniões e quando ele não assina alguma parte de um espetáculo meu, ainda assim ele certamente dá alguma outra contribuição.

CC – Pola (Pola Ribeiro, cineasta) afirmou que ele (Márcio Meirelles) irá voltar a fazer cinema…
CC – Tomara, pois ele é fascinado por cinema. Gosta muito e entende de cinema. E ele está sempre querendo saber mais de tecnologia. Existe um projeto que é transformar o TVV em um espaço digital, o Novo Vila Digital, já é algo concreto, bem bacana. Começou com Bença, agora acontecerá também com Olho de Deus, que estreia em maio.

CC – Falando ainda em parceria, vi que já fez trabalhos com o Jarbas Bittencourt, ele é responsável por algumas das trilhas mais bacanas da atual cena teatral baiana. Queria saber como você concebe a música no espetáculo. Ela entra logo de cara ou primeiro você vislumbra o tema, as coreografias?
CC – Eu adoro música. A dança tem um flerte desde o seu início com ela. E acho a música muito importante, não falo só da música (canção), falo também dos sons que ouvimos. E trabalhar a musicalidade é crucial para a dramaturgia do espetáculo, então a música é um dos elementos mais importantes para qualquer obra minha. Foram poucos os trabalhos que nasceram por inspiração de música para mim. Mas a música me inspira, sim. Não é o ‘estalo’ para eu começar um trabalho. Não é assim: que música linda, irei fazer um trabalho em cima dela. Não é assim. Mas a partir do momento que nasce uma ideia, ou de cinema ou de fotografia… a música já nasce junto com esta ideia. Eu consigo ouvir a música. Eu não sei qual é a música, mas sei que tipo de música ela é, como eu a quero, eu consigo ouvir a trilha sonora desta ideia. E Jarbas tem sido ótimo, temos uma identificação grande. Eu tive grandes parceiros na música. E gosto de trabalhar com música composta, tive a sorte de trabalhar com vários compositores muito bons, com música feita para os meus espetáculos. É um luxo a gente ter um compositor ali trabalhando para você e Jarbas é um luxo, porque ele é uma pessoa sensível, um artista aberto e nós somos muito amigos. Tem isso também, de eu falar e ele já saber o que é que eu quero. A afinidade é tanta que não precisa falar muito. E eu não sei ler partitura, então eu chego para ele e digo: Jarbas… sabe uma música de meia-noite? E ele entende o que eu falo. E isso é muito importante quando você trabalha com criação. E também tenho outros compositores ótimos, como João Meirelles, um jovem compositor.

CC – Em uma perspectiva criativa, e não de mercado, qual sua análise sobre a dança no Brasil?
CC – Acho que está tudo junto. Não quero dizer que você vai fazer um trabalho para se vender, mas você tem que estar atento em como vai distribuir aquilo, por que eu vou fazer para quem? E eu acho que essa troca, mesmo que não envolva dinheiro, é valiosa e muito importante. Existem projetos que eu faço e eu faço porque eu quero, mesmo que não haja retorno financeiro. E eu preciso fazer, porque sei que eu receberei de alguma outra forma. Agora, a partir do momento que determino que eu quero viver com arte profissionalmente, eu tenho que ganhar dinheiro para isso. Então logicamente que eu penso nisso, penso neste retorno. Agora existem projetos que eu fiz sem dinheiro.

CC – Você tem uma carreira com viés bem global, já participou de inúmeros eventos, seminários, congressos, conferências, etc. mundo afora. Sendo assim, em que patamar está o mercado de dança na Bahia, no Brasil?
CC – Ainda é muito fraco. Conversando com pessoas, percebo que elas gostam de dança e acho que o que oferecemos é muito pouco. Europa é outra coisa, outra geografia, o Brasil é um país grande, que foi colonizado, um país com problemas, um país que ainda não tem educação para as artes e tudo isso contribui. E temos a questão dos governos, pois a cada novo governo, cada novo presidente, há uma nova política para as artes. E isso não acontece na Europa, no geral. Lá existem leis independentes de governos. Acho que precisamos ainda valorizar muito o mercado da dança, e quando digo mercado me refiro aos técnicos, professores, diretores, produtores, tudo isso é mercado de dança. São poucas as empresas que realizam editais públicos, que incentivam a dança… acho que existe ainda uma visão de que a dança é menos dentro das artes cênicas. Os valores dos editais para dança normalmente são menores. Por outro lado acho que tem que haver uma profissionalização maior da produção, está tudo ainda muito fraco. E comparado com São Paulo, por exemplo, estamos ainda muito fracos. E um dos grandes problemas ainda reside na distribuição. É um clichê, mas o Brasil não conhece o Brasil. Eu vejo isso fazendo curadoria. Gostaria de conhecer mais do que é feito no Brasil, mas não consigo por vários problemas. Eu consigo ver mais o que vem sendo feito fora, tenho mais contato com gente de fora do que com os daqui. Eles entram em contato…

CC – Falando nisso, como acontece isso no VIVADANÇA… eles enviam os projetos ou a curadoria que os procura?
CC – Eles mandam. Por exemplo, agora já temos toda a curadoria de 2013, a internacional. Isso porque eu trabalho com um ano de antecedência. A curadoria internacional é feita muito tranquilamente. E cada vez eu venho procurando mais países diferentes, que não sejam somente da Europa. Gosto de trabalhar com espetáculos da Alemanha, da França, Espanha, mas quero conhecer outras culturas de dança. Por exemplo, veio um grupo da Martinica esse ano, fantástico para a gente. Conhecer um pouco da cultura.

CC – Lembro que em 2004, 2005, em um programa de rádio que tínhamos, divulgamos o espetáculo Da Ponta da Língua à Ponta do Pé. Não sabíamos muita coisa na época, mas hoje, lendo sobre seus trabalhos, percebemos que ele tem uma grande importância em sua carreira, não? Tinha todo um viés social bem bacana…
CC – Tem uma importância muito grande. É um projeto muito marcante na minha história, por várias razões: primeiro momento que eu escrevo, nunca tinha escrito um texto como este. Muito interessante para mim a ideia de fazer teatro, um musical dançante. Tive que pensar bastante em como fazer isso. E depois, foi a primeira vez que fiz um espetáculo infantil, foi amor à primeira vista, nunca mais quero deixar de fazer espetáculo infantil. É o público mais honesto. E depois por ser algo maior, por ter pensado a arte como ferramenta social muita poderosa de transformação. E acho que transformamos a vida de alguém nestes anos…

CC – Na abertura do festival este ano você falou da arte como antídoto para a mudança do mundo, para um mundo melhor. De que forma você pensa essa relação entre sua profissão, a arte, a dança, e seu papel social?
CC – Serei meio radical. Eu acho que a arte talvez seja a única possibilidade de salvação do ser humano e do mundo em que ele é inserido. Eu acho que a gente consegue penetrar em espaços muito decisivos e que tocam a gente. É uma forma de estar no mundo que para mim é a melhor. Não consigo me ver fazendo outra coisa que não seja arte. A arte afirma a diferença. E a partir do momento que você reconhece a diferença, você se reconhece.

CC – E isso em você é diferente hoje ou sempre foi assim?
CC – Não, acho que não tinha essa clareza. Depois do festival e também com o Da Ponta da Língua… se você estabelece a comunicação, se você está aberto para receber, inevitavelmente você se transforma. Então toda esta corrida de transformação tem a ver com a minha transformação, eu quero me transformar. Vejo isso em mim e por isso acredito que isso possa acontecer com os outros. É um prazer incrível quando eu vejo no palco outro grupo dançando. E eu não conseguia enxergar isso no início de minha carreira. Tinha um coreógrafo que me falava isso (Luís Arrieta) e eu não entendia. Aí ele esteve aqui ano passado e falei para ele que agora eu entendia um pouco do que ele me falava há dez anos. E sempre fui uma dançarina mais emocional, tinha as mais técnicas e eu era mais emocional, no estilo Almodóvar… sangue latino. E ele me dizia: não, você não pode fazer isso deste jeito. Você precisa deixar espaço para o público. E eu não entendia isso. Se você se toma todo por emoção, você não deixa um canal aberto para que o outro se emocione. E eu não entendia esse espaço do outro em minha vida. Por isso é tão importante o festival, de receber as pessoas. É algo que me alimenta. E Dá Ponta da Língua… é isso para mim também. E faz parte da trajetória do artista, esse tempo para entender.

CC – Para fechar, queria falar ainda de seus espetáculos. Você tem um trabalho (Aroeira – com quantos nós se faz uma árvore) construído à partir de músicas de Milton Nascimento. Ele te ofereceu uma trilha sonora que havia composto. E este espetáculo possuía uma multilinguagem, com fotografia… Lembrando dele hoje, qual o grande momento deste processo todo: concepção, desenvolvimento, resultado final, feedback do público?
CC – Acho que foi a concepção. Estava aqui no teatro fazendo um espetáculo e então eu recebi um telefonema. Fui atender e era Milton Nascimento. Eu não acreditei. Ele me falou que queria falar comigo. Então aproveitei que ele estava em Salvador e fui conversar. Ele disse que tinha uma trilha para balé e me pediu para ouvir. Depois conversamos, ele foi nos ver no teatro e no fim do espetáculo ele me disse: Para você!  Faça o que quiser! Era o cd. Eu quase que morro. Fiquei com essa trilha. Era um desafio e de cara eu disse que queria. Teve também uma empatia muito boa. Aí eu fiquei dois anos com esta trilha na mão. E só pensando, pensando, ouvindo, ouvindo… até que eu disse: vou fazer esse balé! Aí nós começamos a discutir, ele me contou toda a história, mas disse que eu tinha liberdade para criar. Mas a trilha era fechada, mixada. Então tomei coragem e fui ao Rio de Janeiro falar com ele. Disse que era muito difícil eu trabalhar com a trilha fechada e que precisava que ele abrisse para mim. Falei que precisava que ele me permitisse cortar, misturar, editar… e fazer do jeito que eu achasse que deveria ser. E ele abriu tudo para mim. Tudo. Sabe uma pessoa generosa e sem medo? Era ele. E ele tinha uma estrada no balé muito forte, com o Grupo Corpo. E aí eu prometi para ele que um dia levaria este espetáculo para Minas Gerais. E este ano isso vai ser possível. E com relação às outras linguagens… bem…tinha que ter. Eu trabalhei com Diogo Kalil e a concepção do desenho, porque são desenhos animados, tem também imagens e texturas, são dois projetores. E o tempo todo ele é projetado. Outro mundo, como se fosse um sonho. A concepção foi muito interessante porque eu queria trabalhar com o Diogo e ele morava em São Paulo. E eu já tinha trabalhado com ele em Ulisses. E eu queria trabalhar de novo. Então a concepção foi toda feita pela internet. Ele estava lá e eu estava aqui em Salvador. Eu mandava as coisas pela internet, ele concebia e me retornava. Até que chegou um dia que ele veio aqui, nos vimos uma vez somente. Na trilha eu tive a ajuda de Jarbas. Foi muito bom trabalhar esse espetáculo. E é um espetáculo sobre memória, tanto que eu abro o programa com uma frase do Wally Salomão que diz que a memória é uma ilha de edição. O que é que fica? Milton criou um dialeto para essa trilha. Tem coisas que são faladas, mas é um dialeto. Mas tem umas palavras em português, não tem uma construção de frases, mas tem palavras. E tem uma frase no meio que diz: o que sobrou do amor? Você consegue quase entender, o que sobrou do amor. E Aroeira é justamente por isso, pois é uma árvore muito antiga, possui uma madeira que é muito dura, que era feita nas construções navais. E é uma ótima árvore, que muitos pássaros escolhem para fazer ninhada. Então tem esse lado bonito, poético.

* Fotos: Cristiana de Oliveira e Luis Fernando Pereira

 


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