Jogo de Cena: entre o real e o imaginário | Cabine Cultural
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Jogo de Cena: entre o real e o imaginário

Jogo de Cena

Jogo de Cena

O cinema é multifacetado, com uma série de artes (interpretação, metalinguagem, enganação) como possíveis respostas

Por Cristiana de Oliveira

O documentário Jogo de Cena, do diretor carioca Eduardo Coutinho, é um mar envolto de grandes possibilidades reflexivas. Trata-se, em suma, do cinema sentando-se em um agradável divã – representado no filme por um palco teatral – para discutir com o psicólogo, no caso, Eduardo Coutinho, quem de fato ele é.

O cinema é arte da interpretação, eis uma primeira resposta para esta que é uma questão das mais filosóficas. Este argumento é defendido pela premissa construída para o projeto: a produção põe anúncio no jornal solicitando mulheres que se interessassem em falar de si mesmas diante das câmeras; pouco mais de 20 respostas escolhidas. Meses depois, atrizes (famosas e desconhecidas) são convidadas para interpretar as histórias selecionadas.

A estrutura narrativa do filme, que aparentemente mostra-se simples e compreensível, é na verdade um engenhoso trabalho de criação, que confunde – numa acepção positiva – o público, pois a certa altura do longa-metragem o espectador passa a não saber distinguir mais o que é real e o que se apresenta como fictício. Tal conclusão surge como consequência da multiplicidade de interpretações de um único texto, que apesar de ser igual enquanto palavra escrita, quando é levado à representação toma ares bem distintos um do outro.

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O cinema pode ser descrito, neste caso, a partir do que se conhece por metáfora da cebola: são várias camadas de densidade, uma por sobre a outra, que aqui se vestecom a alcunha de atuação cênica. Observa-se a interpretação da atriz com o texto relatado e também o relato de quem o vivenciou de fato. Em alguns casos, como os das três atrizes mais famosas (Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra), fica menos confuso de perceber-se a encenação proposta. Há inclusive discussões sobre o ato de interpretar, se desta ou de outra forma o resultado ficaria mais crível ou não.

Porém nos outros momentos há uma grande dificuldade em reconhecer quem está contando sua própria história ou quem as está somente interpretando. No que cerne à descrição a partir da encenação de atrizes mais conhecidas, o cinema acaba adentrando no processo de metalinguagem, dialogando assim com a própria arte dele ser produzido. Com este pensamento em mente, ele ganha mais uma possível definição: a arte da metalinguagem.

A atriz Marília Pêra, já na parte final da interpretação de um dos relatos do documentário, confessa para Coutinho que em seu bolso continha uma espécie de cristal que produzia automaticamente lágrimas em seus olhos. Esta passagem define muito bem esta perspectiva de se fazer cinema: tudo pode ser sinteticamente produzido, seja uma chuva torrencial no deserto do Saara, seja uma dose de boas lágrimas. Tudo em benefício da sétima arte.

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Um dos trunfos de Eduardo Coutinho reside no fato dele trabalhar muito bem a ideia de suspensão voluntária da descrença, que se dá quando o espectador é levado pelo roteiro e pela representação a esquecer que está diante de uma obra de ficção e assim adentrar mais emocionalmente nela, para, logo em seguida, quando a confiança na veracidade da história já estiver construída e solidificada, ele vir e mostrar que tudo não passara de encenação. Ou melhor, de enganação.

Daí então surge uma próxima definição, essa, das mais plausíveis: a arte da enganação. Da desconstrução psicológica do espectador perante o filme. Essaenganação é das mais felizes e eficazes. É o que faz a arte de projetar uma história para as telonas ser tão mágica.

Jogo de Cena - Documentário

Jogo de Cena – Documentário

O enganar deste enfoque traz elementos de traição mesmo, o documentário busca em todo instante conquistar a confiança do espectador para logo após traí-lo, mostrando que a proposta deste projeto visa justamente uma reflexão sobre a relação entre realidade e ficção, sobre como somos induzidos a acreditar no que é mostrado, além de provar que o que se é mostrado muitas vezes somente habita no campo da imaginação.

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Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, prova que o gênero documentário pode serconstruído com base numa ideia engenhosa, com elementos até certo ponto bem complexos. Seu desenvolvimento narrativo acaba desconstruindo e reconstruindo diversas teorias sobre a arte de se fazer cinema. São muitas teorias, inúmeras possibilidades, e que ao final daquela sessão inicial de auto-análise, o cinema passara a ter condições de responder a pergunta: que sou eu?

O cinema é multifacetado, com uma série de artes (interpretação, metalinguagem, enganação) como possíveis respostas. Mas ao pensar pormenormente, pode-se defini-lo somente com a palavra que antecede tais possibilidades. É uma arte. Das mais belas. E Jogo de Cena soube representá-la com dignidade, honestidade e, sobretudo, veracidade. Palavra que de certo modo soa irônica para o projeto. Mas é verdade. A mais pura verdade.

Cristiana de Oliveira é professora universitária, crítica cultural e editora do site

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