O Exótico Hotel Marigold | Cabine Cultural
Críticas

O Exótico Hotel Marigold

O Exotico Hotel Marigold

O Exótico Hotel Marigold

O Exótico Hotel Marigold (2012) estreou semana passada nos cinemas do Brasil e trouxe consigo ao menos duas possibilidades de interpretação para a obra. A primeira, essencialmente crítica, analisaria elementos como o roteiro (baseado no livro These Foolish Things, de Deborah Moggach), direção, verossimilhança, atuações, dentre outros aspectos. A segunda opção, de cunho reflexivo/filosófico, visaria compreender o seu ponto central, o seu fio condutor, e o que isso proporcionaria ao espectador em termos de experiências pessoais, de vivências passadas e de expectativas quanto ao futuro. Procurarei pontuar alguns elementos mais técnicos, porém a atenção maior será dada para essa perspectiva mais emotiva e psicológica.

A história é simples: os aposentados Muriel (Maggie Smith), Douglas (Bill Nighy), Evelyn (Judi Dench), Graham (Tom Wilkinson) e mais três amigos decidem viver a aposentadoria em um lugar diferente e o destino acaba sendo a Índia. Encantados com o exotismo do local e com imagens do recém restaurado Hotel Marigold, a turma parte para lá e são recebidos pelo jovem Sonny (Dev Patel). A partir de então eles irão viver experiências que mudarão para sempre o futuro de todos.A história, que é dirigida por John Madden, responsável também por Shakespeare Apaixonado, acaba sendo um agrupamento de antigos clichês: jornada de autoconhecimento, história de amor dificultada por elementos externos e busca pela redenção. Neste sentido o filme peca um pouco, principalmente pela escolha de contar diferentes histórias de vários personagens particulares. Acaba não aprofundando – o que é normal – em quase nenhum. Quanto à verossimilhança, alguns detalhes devem ser esquecidos para que haja um maior prazer no ato de ver o filme. Por exemplo, é questionável que em um hotel caindo aos pedaços exista rede WIFI, ou então que a internet funcione perfeitamente desde o início. E esse fato tem importância para a história, diga-se de passagem. Podemos, evidentemente, supor que se trata da Índia, país que serve de centro para a tecnologia ocidental. Podemos.

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As atuações são na medida do possível simpáticas. O elenco, incrivelmente talentoso, foi prejudicado pela escolha (novamente) do diretor em contar várias histórias separadas. Elas acabaram ficando, ao menos algumas, desinteressantes, muito pelo fato de terem sido contadas apressadamente. Mas quando a história chega ao seu final, o que fica arraigado em nossas mentes – na minha pelo menos – é aquele exercício de imaginar o nosso particular futuro e refletir sobre todo o passado que nos levará até ele. Tudo isso agarrado com a ideia de escolha. Serão nossas escolhas de hoje que nos propiciarão no futuro criar uma identificação (ou não) com alguns desses personagens.

Há aquele ser amargurado, que no seu passado resolveu não se assumir enquanto dono de suas vontades, sucumbindo à família, à sociedade, e que passou todo o resto de sua vida arrependendo-se com tal escolha, e magoado com as consequências desta. Em O Exótico Hotel Marigold temos um final redentor para este exemplo, ao menos.

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E o que dizer do fato de alguém escolher desenvolver toda a sua vida tendo uma das bases estruturais formadas por ideias preconceituosas, muitas vezes racistas. Essa escolha, pessoal, mas com influência histórica da sociedade, trará em algum momento um fato que proporcionará para o individuo um dilema: ou eu mudo minhas crenças ou elas me destruirão. Pode não ser agora, mas certamente haverá uma data específica para isso. Na história isto é mostrado através da percepção de Muriel (Maggie Smith), uma ex-governanta racista que possui um problema de saúde e que se vê dependente de algo que ela preconcebidamente odeia.

E quando você se constrói a partir de sua referência pessoal? Fico imaginando a personagem – talvez a principal do filme – Evelyn (Judi Dench), que acabara de perder o marido e decide assim fazer, pela primeira vez, uma viagem longe da família. Sua vida toda foi alicerçada pela figura do marido, de sua referência, de seu amor. Uma escolha das mais difíceis, mas que traz, quando dá certo, uma sensação única de prazer e satisfação. Se doar para uma pessoa durante toda uma vida, ao ponto de perder o chão quando se vê sozinha pela primeira vez, é tarefa das mais arriscadas. Quando acerta, o paraíso você encontra. Quando erra só há incertezas, questionamentos e uma sensação de angustia com relação ao tempo que ainda nos resta a partir de então. Você pode se estagnar ou pode simplesmente escolher mergulhar em uma viagem (literal ou metafórica) de autoconhecimento e perceber o quão forte e independente você já era. E que sua escolha em se anular em prol do amor não pode ser considerada falha, pois esta lhe trouxe até este momento sublime de se ver potente e completamente capaz de andar somente com suas duas pernas.

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E para finalizar, temos no meio de disso a origem de tudo: a juventude. É nesta fase que começamos a fazer nossas principais escolhas, nesta fase que solidificamos nossa personalidade e que plantamos a semente do que será de nossas vidas daqui a cinquenta ou sessenta anos. É aqui que se origina uma personalidade frustrada, amargurada, ou também plena e segura. Basta fazermos escolhas, não necessariamente as corretas, já que a vida não possui ainda uma estrutura lógico/matemática que identifique o certo e o errado. O que achamos ser errado hoje pode se mostrar a melhor das decisões tomadas na vida. O contrário também serve, mesmo que não queiramos que essa outra possibilidade se realize. É bem mais confortante que fiquemos com aquele lindo dito popular, que o jovem Sonny faz questão de repetir:

Tudo vai dar certo no final. Se ainda não deu, é porque ainda não é o final.




2 respostas para “O Exótico Hotel Marigold”

  1. ótimo texto e excelente frase final! :) amei. já viu a página do filme? Celia Imrie divulgou seu diário de filmagens.

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