Na Natureza Selvagem e o talento de Sean Penn | Cabine Cultural
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Na Natureza Selvagem e o talento de Sean Penn

Na Natureza Selvagem

Por João Paulo Barreto

A experiência de se assistir a Na Natureza Selvagem, filme dirigido por Sean Penn, é estafante. Ao sair do cinema, sentia-me como atropelado por sentimentos. Devo confessar que a história do jovem Christopher Johnson McCandless me tocou profundamente. Ainda me pegava pensando na trajetória daquele rapaz que deixou tudo para trás em uma viagem de autoconhecimento e negação à sociedade, mesmo uma semana depois de ter visto o longa. E ainda me pego pensando sobre aquilo de vez em quando.

Sean Penn demonstrou sensibilidade ao dirigir o filme. Uma das características de seus trabalhos é que eles   sempre buscam analisar a natureza humana através de personagens cuja determinação move suas vidas (vide o personagem de Jack Nicholson em A Promessa). Desta vez, o desafio de Penn era maior. A história real do jovem que deixou para trás um futuro rico e promissor após se formar com méritos, e “caiu no mundo” pedindo carona em direção ao Alasca, foi cuidadosamente adaptada para o cinema pelo próprio Penn a partir do obrigatório livro escrito pelo jornalista Jon Krakauer.

Christopher possuía uma personalidade magnética. Capaz de cativar com sua simpatia todos que cruzam seu caminho, o jovem, interpretado por Emile Hirsch (ator cuja carreira passou a ser vista com mais atenção a partir deste filme, e que, antes, apareceu em longas de pouca relevância como Alpha Dog Um Show de Vizinha), cruza os Estados Unidos na companhia apenas dos seus livros preferidos e das pessoas que ele conquista. O filme é um típico road movie, no qual a beleza do país ianque é captada pela fotografia de Eric Gautier (experiente fotógrafo de outro road movie que, ironicamente, abordava, também, a viagem de um jovem em busca de autoconhecimento: Ernesto Guevara, em Diários de Motocicleta). Outro mérito para a produção está no fato do diretor não abrir mão de filmar nos exatos lugares por onde McCandless passou, dando, assim, uma maior autenticidade à história.

Na Natureza Selvagem

Inteligentíssimo, simpático e de coração bondoso, Christopher tem a própria história narrada através de offs que viajam na narrativa, colocando em destaque o tempo atual e suas experiências pregressas. A construção do roteiro é sagaz. Sean Penn mostra a trajetória do jovem sem necessariamente seguir uma estrutura linear, preferindo viajar no tempo e mostrá-lo, desde o começo, alcançando seu sonhado Alasca selvagem. A chegada local onde Chris se encontrará com a natureza e consigo mesmo é mostrada de modo paciente pela câmera do diretor.

O som diegético dos passos na neve, logo no começo da projeção, é valorizado para demonstrar a paz e o isolamento do lugar. Em um detalhe importante, o diretor opta por não revelar o rosto de Christopher logo no primeiro frame no qual ele aparece. Vemos, em um plongée que não será o único em todo o longa, um carro se aproximar na neve. Nesta cena, o automóvel é colocado no canto esquerdo da tela, de forma a valorizar a natureza quase intocada do lugar. É quando um jovem agradece a carona e segue em direção ao seu destino.

A trilha sonora de Eddie Vedder é um ítem à parte. Capaz de mesclar letras que denunciam a loucura da sociedade moderna com canções de pura reflexão sobre achar o próprio caminho e lugar no mundo, o vocalista do Pearl Jam capricha e honra o convite do amigo Sean Penn, que lhe pediu para compor a trilha sem entrar em muitos detalhes sobre o que seria a história. Na cena em que o jovem aparece, a voz gutural de Vedder é utilizada como sinal para que, após observarmos aquele rapaz entrando sozinho na natureza, possamos ver seu rosto. E, para a surpresa de quem assiste àquela obra, a voz grave do cantor soa como a voz da própria vida selvagem daquele lugar.

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O filme conta com um elenco de atores selecionados para compor um rico leque de personagens. A começar por Marcia Gay Harden e William Hurt, que interpretam os pais de Chris. A dor causada pela atitude egoísta do filho em deixá-los para trás sem nenhum aviso ou despedida é demonstrada gradativamente pelo casal. Hurt, como Walt McCandless, consegue demonstrar uma frieza e uma autoridade que torna perceptível o modo como impõe sua paternidade perante Chris. O que resta a Harden apenas a doçura e a insegurança de Billie, mãe de Chris, a sempre mediadora entre os conflitos de pai e filho. Para demonstrar essa tensão, nas cenas em que estão presentes Chris e sua família, Penn opta por quadros fechados e close nos olhares para salientar a tensão no ambiente.

O filme não é maniqueísta. Ele não define os pais de Chris como vilões da história pelo mau comportamento demonstrado perante os filhos. Pelo contrário. O inteligente roteiro de Sean Penn opta por mostrar que a atitude de fuga de Chris machucou seus pais, Walt e Billie, no âmago do sentimento de amor que os dois nutriam pelo rapaz. Na dor, o que era apresentado como um casamento submisso e autoritário, passa a contar com a cumplicidade e o apoio de ambos, marido e mulher. “Instintos que pressentem a ameaça de uma perda tão grande que a mente prefere não analisar”. Era dessa forma que eles lidavam com a possibilidade de nunca mais ver o filho.

O roteiro de Penn mostra a felicidade inicial do relacionamento de Walt e Billie se degradar com o passar do tempo. Mentiras, ganância e ambição fazem daquele casamento apenas uma parceria nos negócios. Magnífica a forma como o diretor opta por demonstrar a felicidade do casal de namorados que um dia iria gerar Chris a partir de uma seqüência fotografada como dourada, que remete a tempos imemoriáveis, que apenas a nostalgia consegue alcançar. Tudo para que possamos perceber o choque causado pela fotografia chapada e sem vida que vemos no lar sem Chris onde agora vivem Walt e Billie.

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As idéias de isolamento em busca de sabedoria que Chris traz em sua natureza são entendidas pelas pessoas que cruzam seu caminho como um ato radical que deve ser refletido de modo paciente. Jan e Rainey, um casal andarilho de hippies que dá carona Chris, são os primeiros a aconselhá-lo a rever seus conceitos. Chris adota uma outra identidade, Alex, para seus novos amigos. Com um passado traumático na relação que tem com o próprio filho, Jan (Catherine Kenner), tenta fazer com que Alex pense no sofrimento que sua fuga pode trazer para seus pais e pede que ele seja justo com ele. Alex prefere se esquivar e se esconder atrás de uma citação de Thoreau a encarar seu passado. Mal sabe ele que a reposta para suas indagações reside, justamente, em rever sua própria trajetória.

Capaz de modificar e harmonizar a vida de todos que convivem com ele, Chris deixa o casal para trás com um agradecimento escrito na areia. Ele parte para o período que em sua aventura é batizado de “adolescência”. Os conselhos para ser mais flexível e não levar tão a ferro e fogo suas indagações é dito por todos que tentam orientá-lo. O agricultor malandro vivido por Vince Vaugh, Wayne Westerberg, é um dos que tentam fazer Christopher enxergar o mundo com uma maior compreensão.

Em um longa repleto de atuações memoráveis, o esforço de Emile Hirsch em retratar todo o tormento de Christopher McCandless é palpável. Semelhante ao que fizeram Tom Hanks e Christian Bale em Naufrago O Operário, respectivamente, Hirsch perdeu 30 quilos para demonstrar o que passou o verdadeiro Chris. Outra atuação elogiada e indicada a um Oscar, é a de Hal Holbrook , no ultimo ato do filme. Em uma das cenas mais emocionantes da película, Ron Franz, personagem de Holbrook, despede-se do jovem amigo antes deste seguir em sua jornada para o Alasca. O diálogo dos dois oscila em uma mescla de tristeza e desespero que somente sentimentos como a solidão e a perda podem trazer aos seres humanos.

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Alcançar o equilíbrio espiritual que tanto perseguia foi um dos momentos de maior alegria por parte de Christopher. Reconhecer que a felicidade só seria plena em sua vida se pudesse ser compartilhada, no entanto, o fez perceber que a sua aventura havia ido longe demais.

Ao se imaginar voltando para os braços de seus pais, Chris chega a uma conclusão de que havia alcançado seu objetivo. Mesmo não podendo compartilhar com um dos amigos que fez em sua trajetória, ele sorri e conclui que pôde abraçar a felicidade. Em uma cena que encerra o filme de modo, ao mesmo tempo, triste e espetacular, Sean Penn enquadra o sorriso de Hirsch e abre em uma panorâmica soberba, mostrando toda a beleza do lugar em outro fascinante plongée que figura entre os momentos que mais me impressionaram em toda minha experiência com a sétima arte.

Como disse o crítico Roberto Sadovski em seu texto sobre À Espera de um Milagre, eu tomo a liberdade de parafraseá-lo ao dizer que Na natureza selvagem não é um filme para ser visto. Ele precisa ser sentido.


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