A Filha do Pai: revisitando um clássico da década de 40 | Cabine Cultural
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A Filha do Pai: revisitando um clássico da década de 40

A Filha do pai

A Filha do pai

Daniel Auteuil impõe uma direção acomodada, não se arriscando nem em planos que saiam do habitual, nem em atuações que tragam algo de marcante

La fille du puisatier, de1940, é notadamente um clássico do cinema francês. Produzido durante a segunda guerra mundial, o filme de Marcel Pagnol se engrandece por oferecer bom humor e um tenro romance numa história conduzida dentro de um contexto dramático, que na época ainda se cobria de incertezas. Pouco mais de 70 anos depois Daniel Auteuil traz em sua refilmagem – A Filha do Pai – uma narrativa dotada de simpatia, mas que em momentos exagera em um melodrama que mais parece brotar das tradicionais novelas mexicanas.

A sequência que abre o filme já oferece sinais destes excessos, quando Patrícia (Astrid Bergès-Frisbey) ao caminhar rumo ao encontro de seu pai, conhece Jacques (Nicolas Duvauchelle). Ela, novinha, pobre, inteligente e de uma beleza única; ele, mais velho, vindo de uma família rica e tradicional. No meio disso o pai, um poceiro, conservador, rústico, que trabalha pesado para sustentar outras cinco filhas mulheres, um grande desafio para alguém que – numa sociedade machista – sempre desejara um herdeiro homem. A ambientação – Paris na década de 40 – vai ajudar a compreender as decisões tomadas no decorrer do filme, principalmente as referentes ao pai de Patrícia.

O roteiro, apesar de bem simples, recheia a história de situações ímpares, bem como de obstáculos e reviravoltas. Patrícia se declara e entrega-se ao amor de Jacques logo no segundo encontro, no mesmo dia que seu pai oferece ao amigo a mão dela; sua irmã mais nova, apaixonada pelo tal amigo, suplica para que Patrícia o rejeite. Horas depois Jacques é convocado para lutar na guerra, deixando para trás a semente que meses depois nascerá do ventre de Patrícia. Um evento impactante atrás do outro, tal como as novelas mexicanas são pensadas. Por sorte, há toda uma atmosfera de simpatia que faz de A Filha do Pai uma obra aprazível de assistir.

Tal simpatia vem com o nome de Astrid Bergès-Frisbey, que chama atenção pela sua majestosa beleza, não há como não saltar os olhos, e pela charmosa interpretação. A relação que ela estabelece com o pai (Daniel Auteuil, também diretor do filme) oferece as mais interessantes cenas, tal como no início da história, quando ele conta como Patrícia foi concebida, doada e depois trazida de volta ao seio familiar. A cumplicidade que os dois personagens demonstram ter é posta à prova quando ele – ao saber que sua filha está grávida e que a família do pai não iria assumir – a renega, numa atitude que pode soar descomedida nos dias de hoje, mas que na época era uma ferrenha imposição da sociedade. Mas mesmo nestes momentos onde oscilavam os sentimentos de amor e desgosto a dupla transpassava empatia.

Daniel Auteuil impõe uma direção acomodada, não se arriscando nem em planos que saiam do habitual, nem em atuações que tragam algo de marcante. No entanto sua escolha em ocultar algumas das principais sequências merece aplauso, já que o melodrama já exacerbado seria ainda mais intensificado se ele decidisse mostrar as cenas do primeiro beijo do casal Patrícia e Jacques, bem como da única relação amorosa/sexual deles – que resultou na gravidez – e ainda a do nascimento do bebê.

Assim, ele decidiu recontar A Filha do Pai por diferentes óticas, que vai desde a divisão de classes econômicas até comportamentos sociais que prevalecem no mundo dominado pelo gênero masculino. Juntou isso com pitadas de humor, um romance quase impossível, recheado de reviravoltas, e um desfecho que traz alegria a todos que gostam de um final feliz. Com isso revisitou um clássico da década de 40 (período que o cinema possuía grande relevância estratégica) e deu vida pra um filme até certo ponto bobo, mas que é inofensivo e, acima de tudo, agradável.


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