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Até que a Sorte nos Separe

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Até que a Sorte nos Separe

Até que a Sorte nos Separe

Até que a Sorte nos Separe, de Roberto Santucci, oferece ao mais atento espectador um dos usuais dilemas que o cinema pode trazer na bagagem: o que achar de um filme tecnicamente ruim, mas que ao fim das contas te faz bem? A diversão e as gargalhadas que a história proporciona pode apagar da memória o fato dele carecer de quase tudo que faz um bom filme ser considerado um bom filme? Ou essas duas perspectivas podem conviver bem?

Bem, falando da história, temos Tino (Leandro Hassum) que é um recém pai de família que vê sua vida virar de ponta a cabeça após ganhar na loteria. Levando uma vida de ostentação ao lado da mulher, Jane (Danielle Winits), ele consegue a proeza de gastar todo dinheiro num período de 15 anos. Falido, ele aceita a ajuda do vizinho Amauri (Kiko Mascarenhas), um consultor de finanças racional que vive seu próprio drama ao enfrentar uma crise no casamento com Laura (Rita Elmôr). Tentando evitar que Jane descubra que ele perdeu tudo Tino se envolve em várias confusões para fingir que tudo continua bem. Para isso, conta com ajuda do melhor amigo, Adelson (Aílton Graça), e dos filhos. O longa-metragem é inspirado no Best seller Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, de Gustavo Cerbasi.

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É bem percebível que todo o projeto foi construído para fazer com que Leandro Hassum – já bastante famoso por possuir uma das expressões faciais mais hilárias da televisão brasileira – se sobressaísse frente aos demais. Nada mais natural, afinal de contas ele conseguiu merecidamente se transformar em um dos grandes nomes do humor no Brasil. Um dos problemas do filme reside justamente nesta escolha. A liberdade narrativa dada ao personagem fez com que Tino (e Leandro Hassum) soasse em muitas das vezes exagerado. Este tom caricatural, que até ofereceu algumas risadas, trouxe muito mais prejuízos que lucros para o resultado final do filme. E analisando com mais atenção, percebe-se o quão realmente irritante essa caricaturização do protagonista soou para a história. Mas é bem provável, entretanto, que a produção do projeto não esteja tão preocupada com a abordagem, já que este exagero pode ser considerado um dos elementos que fizeram de Até que a Sorte nos Separe um grande sucesso de bilheteria.

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O elenco de apoio não agrega tanto valor ao filme, exceto pelo personagem Adelson (Aílton Graça) que consegue em quase todas as suas sequências tirar um sorriso do espectador. Seus trejeitos – mesmo parecendo clicherizado e caricato – possuem um poder narrativo bem acentuado. O contraste que se dá ao ver aquele homem com características de machão passar a ser um designer todo afeminado acaba proporcionando risadas espontâneas.

De resto, fica a abordagem um tanto superficial em questões aparentemente mais sérias, como todo o plote envolvendo Amauri (Kiko Mascarenhas) e sua esposa. Não dá para exigir que numa comédia deste estilo o tema fosse trazido com um tom mais profundo e bem cuidado, mas também não precisava abordar de modo tão raso. Acabou deixando no ar uma pseudo-reflexão sobre a eterna briga do coração com o cérebro, da emoção versus razão.

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No fim, Até que a Sorte nos Separe proporciona ao seu público uma experiência bem agradável, com um humor que se destaca de muitas outras produções do gênero no Brasil, primeiro pelo espírito mais leve e menos escatológico e depois pela temática, que te faz ao menos por um segundo pensar em como seria sua vida caso ganhasse 15 milhões de reais na loteria. Porém, contrastando com essa perspectiva positiva, se encontram atuações caricatas, um roteiro raso e direção visivelmente preguiçosa. Estranhamente, esses dois aspectos convivem no mesmo filme, fazendo com que o espectador saia da sessão com um sorriso no rosto, mas com uma pulga atrás da orelha, e bem perto do cérebro.



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