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Entrevista – Ana Cañas

Ana Cañas

Ana Cañas

Por Luis Fernando Pereira

Ana Cañas representa muito bem essa nova atmosfera que brota no Brasil, caracterizada por uma veia mais criativa, cosmopolita e inteligente. Sua música, sua carreira e sua personalidade externam tais qualidades de forma tão espontânea e intensa que é quase impossível não notar.

Ela surgiu para a música nos anos 2000 e estreou no cenário musical mais formal em 2007 com o bom e relevante álbum Amor e Caos. De lá pra cá, sua carreira apresentou ao mundo ótimos trabalhos, músicas de sucesso, importantes parcerias e muitas outras coisas – boas e ruins – que o showbiz proporciona a qualquer grande artista.

Nessa entrevista ela fala sobre alguns dos elementos que permeiam sua personalidade, suas influências, seus gostos pessoais e sua relação com a arte (no seu sentido mais etimológico). E suas respostas, há de mencionar, fornecem material suficiente para os fãs – e não fãs – perceberem de vez por todas que sua ascensão e consolidação no cenário musical nacional não veio por acaso.

E para nossos leitores paulistanos, fica a menção de que ela fará shows nos dias 22 e 23 de fevereiro, no Tom Jazz.

Fernando Pereira – Quando descobri o seu trabalho, percebi – e também li – que você possui uma relação bem intensa com a arte: teatro, cinema, literatura… além da música, claro. O que essa relação representou, seja no desenvolvimento de sua personalidade, seja na sua formação profissional?
Ana Cañas – Bom, pra mim, a arte está em todo lugar. Bastam olhos e coração atentos. Um ser humano vibrando a essência do seu espírito traduz o indizível e realiza o abstrato da vida. Ele se ilumina. Alguns fizeram isso com maestria como Billie Holiday, Beckett, Antonioni, Dylan, Cecília Meirelles, Godard, entre tantos outros. Mas confesso que o cinema me impacta de um forma diferente. Especialmente os que captaram o vazio existencial de forma magistral, como Ingmar Bergman.

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FP – Seus álbuns absorvem de alguma forma essas influências? E os shows?
AC – Eu acredito que esteja muito longe de vibrar no meu trabalho a aura destes mestres que tanto admiro. É uma tarefa árdua de entrega e talento absolutos. Um pacto com a existência e um exercício pleno das possibilidades impossíveis. Nos shows, tenho uma relação um pouco diferente. O abismo está sempre presente e te convida a ter coragem de não deixar de ser o que não é.

Ana Cañas

Ana Cañas

FP – Falando de seus álbuns, eles dialogam bem com diversos gêneros, desde o jazz e a MPB, passando pelo rock e chegando até flertes com o reggae. Esse não atrelamento com um gênero específico foi sua escolha desde sempre ou você veio desenvolvendo com o passar dos anos?
AC – Não vejo sentido em não ser sincero consigo mesmo, errando ou acertando. As minhas escolhas refletiram o que eu sentia – independentemente da questão “gênero musical”. Mas confesso que até agora não fiz um disco abordando uma temática única. E estou com vontade de realizar isso. Acho que assim, o disco soaria mais integrado no conjunto final e daria essa idéia de ‘coerência’ – tão valorizada pela critica especializada.

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FP – Essa liberdade criativa ilimitada e bem plural eu creio que seja um sonho para o artista, mas pode trazer como efeito colateral uma dificuldade maior do mercado em entender a identidade musical deste. Você já chegou a se preocupar com isso? 
AC – Pra mim, identidade musical é mais uma questão para o ouvinte do que para o artista. Ele próprio escolhe as limitações que imporá aos seus ouvidos ou não.  “Mercado” é uma palavra inventada pelas gravadoras para que artistas se tolham e para que elas – as companhias – lucrem cada vez mais. O que existe de fato são pessoas interessadas em música. E isso não se quantifica exatamente dessa maneira – ao meu ver um tanto pobre. Ainda mais hoje com a internet propiciando uma democracia salutar e efetiva aos nossos ouvidos. O artista deve vibrar a sua poesia única de forma sincera e só.

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FP – Você é uma artista que se dá muito bem com o ao vivo, suas apresentações são bem intensas e com uma visceralidade perceptível. Você prefere ‘cair na estrada’ em vez de entrar em estúdio e gravar álbuns ou é igualmente prazeroso em ambos? 
AC – Obrigada. Gosto das duas coisas, de maneiras diferentes. O álbum é perene, ele permanece. E isso é bom se você fizer um disco que, com o passar dos anos, você ainda goste dele. O show é outra emoção. É o aqui e o agora, não tem depois nem amanhã. É emoção imediata com resposta imediata. É matar e morrer. De uma certa maneira, são quase antônimos emocionais, embora sejam uma espécie de pai e filho. É como a vida não?

FP – Para fechar, queríamos saber se há previsão de shows em Salvador. Lembro de assistir você cantando em uma das edições do Festival de Verão. Gostou daquela apresentação?
AC – Infelizmente, ainda não. Adoro cantar em Salvador, o público é muito afetivo e aberto. Gostei de participar do Festival sim, embora a proximidade dos palcos atrapalhe um pouco pois há vazamento sonoro entre eles. Os organizadores poderiam corrigir essa falha, pois quem está nos palcos menores – como foi meu caso – sofre um bocado.

4 respostas para “Entrevista – Ana Cañas”

  1. Se nao me engano, no fim da segunda resposta ela deve ter dito “Nos shows, tenho uma relação um pouco diferente. O abismo está sempre presente e te convida a ter coragem de não deixar de ser o que SE é”. Referindo-se a não usar artifícios falsos para conquistar o público mais rapidamente. Eu acho..

    • Olá Fabio,

      A resposta dela possibilita essas interpretações. Pode ser que esteja certo. Mas como as palavras literais foram essas que postamos, não podemos modificá-las.

      Obrigado pela colaboração.

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