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Ela é independente, despojada, livre de qualquer vaidade exacerbada e avessa com as futilidades que o cargo de princesa oferece. Confira!

Por Luis Fernando Pereira

A curiosidade bateu bem forte quando li pela primeira vez notícias sobre Valente. E não somente por tratar da tão aguardada parceria acordada entre a Pixar e a Disney, mas, sobretudo por ser a primeira produção da Pixar a ter como protagonista uma personagem mulher. E não se tratava de qualquer mulher. Merida, a jovem princesa criada pela mãe para ser a sucessora perfeita ao cargo de rainha, é a representação perfeita da ideia de subversão desse estereótipo já batido nas animações para públicos infanto-juvenis. Ela é independente, despojada, livre de qualquer vaidade exacerbada e avessa com as futilidades que o cargo de princesa oferece. Exatamente o oposto do que era apresentado até então por Hollywood, que explorava o conceito de garota indefesa sendo salva pelo príncipe encantado. No caso de Valente, Merida se tornará o seu próprio príncipe, ela quem lutará pela sua libertação – que no caso é representada pela ideia de casar sem vontade – e fará seu próprio destino.

Mas a história não é somente sobre isso. Quando uma competição de tiro ao alvo – seu esporte favorito – é organizada contra a sua vontade, para escolher seu futuro marido, Merida decide apelar à ajuda de uma bruxa, a quem pede que sua mãe – uma tradicional rainha – mude. Mas quando o feitiço faz efeito, a mudança da rainha não é exatamente o que Merida imaginava e a partir de então caberá à jovem ajudar a sua mãe e evitar que o reino entre em guerra com os outros povos.

Desde o início do filme, quando os personagens são apresentados, é visível que o comportamento rebelde de Merida, então com poucos anos de idade, servirá de fio condutor para o que virá. Ela, com aqueles cabelos ruivos e desengonçados, desde criança foge do que tradicionalmente se espera de uma garota. E esse é um dos pontos positivos que a história traz: realmente a produção conseguiu apresentar uma história fabular tendo como protagonista uma personagem que se distancia e muito do que já é habitual nas animações.

Outro ponto positivo do projeto reside na trilha sonora, que capta muito bem a atmosfera do filme. A história é passada na Escócia, então a trilha, com contornos épicos, faz lembrar bastante o que seria a vida séculos passado na Europa, especificamente na Escócia. A relação que ela estabelece desde o início com o pai também é destacável, principalmente pelo carinho que ele nutre pela filha. Por ele, ela poderia ser de qualquer jeito, não fazia diferença alguma Merida ser uma princesa, uma esportista ou uma garota comum.

Se a trilha sonora é um dos pontos agradáveis da história, o mesmo não pode se dizer das inserções musicais do filme. Percebia que as músicas que se apresentavam na história era uma espécie de cota que a Disney possuía dentro projeto Valente, pois os números são bem típicos das animações que ela produziu ao longo dos tempos. O estilo de apresentar as canções soava bobo e clichê demais, não adicionando em nada para o desenvolvimento do filme.

Valente no fim das contas oferece mais qualidades do que defeitos. Ao decidir contar a história de uma jovem garota que deseja mais que nunca ser independente e viver sem preocupar-se com pressões estabelecidas pela sociedade, a Pixar/Disney subiu degraus na escala de relevância. Espera-se assim que a partir de agora se busque ao menos tentar questionar outros estereótipos já comuns em histórias mais familiares. Nem precisa ser algo muito chocante – como um vilão que se dá bem no fim da história – mas que no mínimo traga mais elementos novos às narrativas, já bem parecidas umas com as outras.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site







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