Entrevista Ciro Sales | Cabine Cultural
Teatro

Entrevista Ciro Sales

Ciro Sales

Por Elenilson Nascimento

O ator avisa por mensagem via Facebook que iria demorar em responder essa entrevista. Pede mil desculpas por ter feito esse humilde entrevistador e fã devotado esperar tanto. “Tantas e tão amplas perguntas, em um momento tão corrido de turnê de ‘Amor Barato’, estreia de ‘A Paixão de Cristo’ e ensaios de outro projeto, demandaram mais tempo do que imaginei, perdão”, disse. Aí o humilde entrevistador lembra de uma frase que ouviu do também ator Murilo Benício, de anos atrás: “Um ator só é reconhecido se ele se arrisca. O único erro de um profissional é nunca errar”, e questiona que acha muito cafona diretor de teatro que pensa que fez tudo sozinho na peça. Porque, como sabemos, não se faz nada sozinho tanto numa grande peça ou numa simples entrevista. E o que transforma uma ida ao teatro numa experiência inesquecível? É muito difícil responder. Mas tenho certeza de que quem assistiu a peça “Amor Barato”, com direção de Fábio Espírito Santo, passou por isso. Foi na sala principal e lotada do Teatro Castro Alves, no “Projeto Domingo no TCA”, onde ninguém reclamou de ir a um teatro que não facilitava o estacionamento, que conheci o talento do jovem ator Ciro Sales.

Além de ator, Sales é produtor e gestor cultural. Iniciou no ano de 2002 sua formação em teatro, no curso profissionalizante da FSBA (Faculdade Social da Bahia), que resultou no espetáculo “O Viajante”, no elitista Teatro ISBA. Em 2004, passa a integrar o Curso Ato, de Andréa Elia, e sua companhia de teatro, com a qual realiza as montagens “A Importância de ser Prudente”, de Oscar Wilde, “A Virada”, de Cacilda Póvoas, e o musical infantil “O Fantasma de Canterville”, esses dois últimos vencedores, em 2007 e 2008, do Prêmio Braskem de melhor espetáculo por voto popular.

Ciro Sales

Em 2011, com o grupo Supernova, em 2011, realiza o musical “Alugo Minha Língua” (*esse eu também assisti), projeto premiado pelo Ministério da Cultura do Brasil, com dramaturgia de Gil Vicente Tavares e direção de Fernando Guerreiro, e em 2012 a montagem “Drácula”, dirigida por Marcio Meirelles, grandiosa instalação cênica no Teatro Vila Velha. Ainda no teatro, realizou leituras dramáticas diversas, e recentemente integrou o elenco principal da montagem anual de “A Paixão de Cristo”, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, com direção de Paulo Dourado. Como gestor cultural, Sales participou da equipe da Secretaria Estadual de Cultura da Bahia entre 2007 e 2011, como assessor e em seguida diretor de Fomento à Cultura, e atualmente possui um escritório de consultoria em planejamento e gestão cultural.

Agora, nessa entrevista suada, esse deslumbrante ator baiano parece falar de “olhos fechados”, “risos trancados”, “boca deliciosamente calada”. E como numa chuva nesses tempos de Felicianos, hipocrisias, corrupção e mentira, Ciro Sales, ainda assim, fala elegantemente sobre teatro e arte num tempo de exaltação à ignorância. Parece querer gritar: “Não tenho medo, não tenho medo, principalmente quando vem a vida e nos obriga a se decidir”. Medo? Talvez não seja uma metáfora! E a plateia e seus fãs sabem muito bem do que ele está falando.

Elenilson Nascimento – Como foi o início do Ciro Sales no teatro?
Ciro Sales – O meu processo se deu de uma forma muito natural: ainda no colégio, em Salvador, comecei a fazer cursos livres de teatro, e ao passo em que crescia o meu envolvimento com essa arte cresciam também as oportunidades de conhecimento, experimentação e fruição. Assisti a muitos espetáculos, e ainda busco assistir a tudo o que posso, onde posso. A experiência de espectador enriquece muito o olhar do artista, traz repertório e bagagem crítica. Tive uma formação marcada por momentos de muita sorte: sou egresso do curso profissionalizante que se transformou na graduação em Artes Cênicas da FSBA – Faculdade Social da Bahia (hoje extinta), fui integrante do ambicioso projeto de escola de teatro que Andrea Elia conduziu junto a Fernando Guerreiro, Vadinha Moura, Celso Jr e outros importantes profissionais da Bahia, que em seguida se transformou no Curso Ato, tive a oportunidade de fazer cursos e oficinas que me colocaram em contato com diferentes formas de expressão e técnicas do teatro, dentro e fora do Brasil, e tive a sorte de ser aluno de mestres que contribuíram muito com a minha formação técnica, artística e cidadã. E continuo, pois acredito que um artista não deve nunca parar de se aprimorar, buscar conhecimento, estar em contato com mestres e dialogar com a contemporaneidade.

EN – Ser ator era seu sonho? Ou apenas surgiu na sua vida como um tapa buraco?
CS – Ser ator é para mim uma oportunidade de fazer sentido para o mundo. Encontrei muito cedo no teatro uma forma de estar em contato com o poder transformador da arte. Fui descobrindo as dores e delícias de compor personagens, de se relacionar e trocar com o outro e com a cena, de ser veículo para um discurso, e crescendo muito com essas descobertas. Desde então, soube que ser ator seria uma necessidade, para transformar o outro e a mim mesmo, mas não sabia ao certo que espaço esse ofício ocuparia em minha vida. Por isso tenho outra carreira em paralelo, a de gestor cultural, ambas muito ligadas e cada vez mais interdependentes.

Ciro Sales

EN – O teatro baiano ainda vai bem ou não conseguiu segurar a boa onda de “A Bofetada” e congêneres?
CS – Acredito que o teatro sempre vai bem e mal, é a arte do conflito. O teatro feito na Bahia é dos mais ricos em nosso país, percebo muito talento, muito sobre o que falar e muita vontade de fazer. Acho que boas ondas existem sempre, pois mesmo as que não tomam corpo e alcançam a praia podem garantir uma experiência enriquecedora ao surfista. Já que você citou, a boa onda de “A Bofetada”, que até hoje tem fôlego, é para mim um marco importantíssimo, cujos efeitos sobre o mercado teatral baiano se espalham até hoje: fez as pessoas terem vontade de ir ao teatro, contribuindo para a ampliação do público, da oferta, de espaços, de artistas; levou o teatro da Bahia para o Brasil, reinventando e resignificando um gênero que estava desgastado no Sul, o da comédia de besteirol; e ainda representa um modelo no qual acredito muito: teatro feito em grupo, movido por atores, gerido por atores, que convidam diretores para seus projetos. Esse mesmo modelo é o que buscamos na criação do Supernova Teatro, eu, Luisa Proserpio e Will Brandão, em 2010. Somos atores e também a força motriz de nosso grupo, que se associa a diretores distintos em cada empreitada.

EN – “Amor Barato” fala também de desigualdades. Porque isso ainda é assunto necessário para 2013?
CS – Esse assunto é necessário enquanto houver desigualdade no mundo, realidade sem perspectiva de superação num horizonte próximo de expectativas. E mesmo numa situação hipotética de superação das desigualdades, ainda assim o assunto seria necessário, pois o teatro também tem a função de reviver a memória, para oferecer aos homens a chance de aprender com o que passou. Teatro é entretenimento, é lazer, não podemos perder isso de vista, mas pode exercer uma importante função: ser um veículo para a reflexão sobre aspectos do ser humano e da vida em sociedade. Eu realmente acredito que o teatro pode mudar as pessoas, assistir a um espetáculo pode convidar um indivíduo a questionamentos que deem início a um mergulho de autoconhecimento, ou levá-lo a reinterpretar práticas e conceitos que desencadeiem uma transformação.

Ciro Sales

EN – Certa vez, você disse que “o processo de montagem de “O Avesso” pode ser resumido em, no mínimo, intenso”.  Quais foram as diferenças dessa peça com “Amor Barato”?
CS – “O Avesso de Eva” é um drama com tons de romance policial e de cinema noir. O espetáculo, escrito e dirigido por Amanda Maia, aborda um triângulo amoroso imerso em um clima de sedução e suspense, numa encenação onde fumaça e penumbra dão o tom. A intensidade a que me referi na época diz respeito ao mergulho em uma composição dramática intensa. Havia no personagem Mercúrio uma complexidade psicológica que demandou uma verticalização para conseguir compor seu olhar fugidio, gestos ora assertivos ora vacilantes e voz embargada, sem transformá-lo numa caricatura vazia de um jovem transtornado. Já “Amor Barato”, pelo próprio estilo do espetáculo – um musical –, convidou para uma composição diferente. Na linguagem do teatro musical, a construção dos personagens não necessariamente prevê grande complexidade psicológica e nem estes apresentam uma curva dramática acentuada, em parte para que a trama que os envolve esteja mais clara. O teatro musical exige uma complexidade outra, a preparação corporal e vocal consome boa parte do cronograma dos atores, a encenação se dedica especialmente à marcação de movimentação e coreografia, e uma grande quantidade de tempo deve ser dedicada aos arranjos vocais. Cada projeto demanda um processo de preparação e montagem particular, e aprendi a entender o processo já como um resultado artístico. Em “Drácula”, por exemplo, espetáculo de Marcio Meirelles realizado pelo meu grupo, o Supernova Teatro, vivemos um intenso processo de descoberta de um novo lugar de fala, no meio do caminho entre o ator-contador de histórias e um personagem inteiramente constituído. Durante esse período, interagimos em sala de ensaio com instrumentos musicais, fragmentos de texto, microfones. Esse processo já foi um resultado em si, tendo sido acompanhado por interessados e compartilhado em redes sociais. Essa é uma das delícias de fazer teatro. A cada espetáculo, um novo processo, uma vivência diferente, com técnicas, rotinas, aprendizados específicos. Me considero um afortunado por já ter vivenciado processos muito diferentes uns dos outros, e crescido com cada um deles, e ainda mais por pensar em todos os processos que estão por vir.

EN – Você acha mesmo que as pessoas estão preparadas para “experimentos” no teatro, visto que as peças que fazem sucesso – com raras exceções – são sempre o mais do mesmo: besteirol com direção de Fernando Guerreiro ou as peças com atores famosos da Globo. Comenta.
CS – As pessoas estão preparadas para qualquer experimentação, pois é exatamente a experimentação que as prepara. Estar em contato com algo diferente, fora do padrão, gera reações distintas, e uma delas pode ser a descoberta de uma nova afinidade. Acredito que a sensação de estranhamento, quando associada a alguma descoberta, pode ser termômetro do amadurecimento do gosto. Entretanto, seria ingênuo pensar que um espetáculo experimental encontrará público apenas por sê-lo: muitos fatores interferem na dinâmica de identificação entre uma peça teatral e seu público, muitas variáveis asseguram ou não que a mensagem desperte o interesse e alcance seus receptores. É inegável, por exemplo, que temos nichos de público cativados por certos gêneros de teatro, e essa dinâmica é natural, as pessoas tem gostos, preferências, e se identificam com este ou aquele tipo de espetáculo. O que eu acredito ser bastante perigoso é a generalização, seja por parte dos agentes promotores da cultura (produtores, patrocinadores, realizadores), ao optarem por um único gênero na expectativa de seguir “agradando” o público, seja por parte do próprio público, ao não arriscar novos espetáculos pelo temor de se frustrar. Para mim, é importante aliar à um projeto experimental em teatro um discurso claro, estratégias efetivas de comunicação e outros aspectos que possam atuar como atrativos para o público. Eu trabalhei com Fernando Guerreiro em dois projetos distintos (“Shopping and Fucking” e o musical “Alugo Minha Língua”), nenhum dos dois é “besteirol com direção de Fernando Guerreiro”, mas ambos foram bem aceitos por público e crítica. Se formos averiguar, veremos que ambos resultam de um conjunto de fatores que proporcionou esse reconhecimento. Da mesma maneira, alguns “atores famosos da Globo”, como você diz, estão costumeiramente se arriscando em projetos experimentais, em espetáculos alternativos, revelando diretores, dramaturgos e outros atores. Claro que são exceções, mas esse tipo de movimento me atrai bastante: “a possibilidade de arriscar é que nos faz homens”, como sempre me lembra o poeta baiano Damário da Cruz.

Ciro Sales

EN – Fale-nos um pouco sobre os desafios do teatro na Bahia. Como foi o seu teste para o “Amor Barato”?
CS – O teste para o “Amor Barato” foi a minha primeira audição para o Núcleo de Teatro do TCA, pois nos anos anteriores a minha condição de servidor público me impedia de participar. Tratou-se, na verdade, de um processo seletivo que envolveu mais de duzentas pessoas em três etapas (canto/dança/interpretação), bastante intenso, mas muito prazeroso. Estávamos todos os dias com a equipe de criação do espetáculo, e esses dias já foram prenúncio do que viria a ser o processo de montagem: foco, muito trabalho, e acima de tudo uma excelente convivência. De forma geral, na Bahia, poucas são as oportunidades de ingressar em montagens teatrais através de audições. Ou os atores trabalham em grupo, empreendendo projetos, construindo as possibilidades de estar em cena; ou são convidados para participarem de espetáculos, por um grupo ou diretamente por algum diretor. Assim, o Núcleo do TCA ocupa um lugar importante: estimula e profissionaliza o mercado criando oportunidades de trabalho para atores e técnicos. Estar em cena é difícil, dá muito trabalho, demanda muita energia, e exige que diferentes agentes estejam alinhados: realizadores, produtores, financiadores, apoiadores, mídia, público. Muitas vezes o artista precisa acumular diversas funções para consegui-lo, e muitas vezes os acessos aos meios de produção são bastante restritos, ambas situações muito presentes no teatro da Bahia. Além disso, o teatro é uma arte que envolve muita paixão, e essa passionalidade ao tempo em que move as engrenagens do desejo e da capacidade de realizar também contribui para construir uma cena pouco unida, com muitos núcleos “apaixonados” mas pouca troca, e onde relações pessoais e profissionais podem, de tão intensas, se fragilizar. Ainda assim, aqui estamos: criando, produzindo e encenando muito, e muito bem.

EN – Dom Ratão parece mais um justiceiro anarquista que segue os próprios padrões em benefício da “sociedade” no meio dessa mesmice e de egos alterados da nata do “mundo encantados das artes” na Bahia, por exemplo. Comenta.
CS – Não estou muito certo de ter entendido a sua intenção com essa pergunta, mas vamos lá. No início da trama de “Amor Barato”, Dom Ratão representa o arquétipo do jovem mauricinho inconsequente que espanca mendigos e lidera uma gangue de delinquentes juvenis. Inescrupuloso e autocentrado, age de acordo com suas próprias crenças, e acredita que seus valores desvirtuados justificam suas ações criminosas, com as quais ele acredita beneficiar a si mesmo e aos “seus”. Para compor esse personagem, uma forte referência foi o Alex, violento protagonista do filme “Laranja Mecânica”, de Kubrick. Lamentavelmente, ele representa mais do que um personagem de ficção: nos deparamos eventualmente com barbaridades como crimes hediondos praticados por gangues de mauricinhos, jovens abastados que surram mendigos, queimam índios, espancam homossexuais; e até jovens neonazistas que ainda acreditam em “raça superior” ou em “limpeza étnica”. Como falei antes, o teatro tem também essa função: espelhar aspectos da sociedade para que possamos refletir sobre ela. Todos os personagens da peça estão imersos em um submundo, em esgotos de vilania e baixeza, e trazem características que reconhecemos bem: alcoolismo, esvaziamento, corrupção, pedofilia, crueldade, favorecimento, violência, vícios. Aspectos que fazem parte das sociedades, não apenas dessa ou daquela, e que revelam sua fragilidade e os lados obscuros da natureza humana.

Ciro Sales

EN – De uma maneira geral, quais são os escritores e dramaturgos de todos os tempos que mais te seduzem?
CS – Poderíamos ter uma entrevista nova apenas sobre isso. Gosto muito de ler, e a dramaturgia está muito presente minha leitura também. Através dos textos clássicos de teatro compreendi a humanidade, e aqui destaco as tragédias, notadamente Sófocles, por Antígona e Édipo Rei, e Eurípedes, por sua Medea. Me encantam sagas épicas, na literatura ou na dramaturgia, mas na dramaturgia têm sabor especial. As tragédias de Shakespeare também me fascinam, como toda a sua obra. Com ele descobri mecanismos ocultos nas formas de seus versos, ritmo, cadência, oposições, e imagens, muitas imagens. Alguns outros dramaturgos que admiro: Wilde, Tenessee Williams, Molière, Tchekhov, Ionesco, Beckett, Dario Fo. Na dramaturgia brasileira sou muito seduzido por Nelson Rodrigues, que me expõe os costumes da burguesia em sua complexa simplicidade, por Caio Fernando de Abreu e Plínio Marcos, que me fazem sentir parte de um discurso de muitos, e por novos dramaturgos, sagazes e sempre atentos a seu tempo como Jô Bilac, João Falcão, Gil Vicente Tavares. Por falar em dramaturgos contemporâneos, tenho uma crescente admiração pelo canadense Daniel MacIvor e pelo venezuelano Gustavo Ott. Elencar aqui “os autores de todos os tempos que mais me seduzem” é tarefa difícil, vou citar despretensiosamente quem me vier a cabeça: adoro crônicas de Luís Fernando Veríssimo, Rubem Braga, Martha Medeiros, Millôr,  poemas de Rimbaud, Drumond, Pessoa, Vinicius, Neruda, Garcia Lorca, Castro Alves. Poesia concreta. Reiner Maria Rilke e suas “cartas a um jovem poeta”. Alguns romances me marcaram, uns de muito perto como os de Jorge Amado e João Ubaldo, de Machado de Assis, Mário de Andrade, Rubem Fonseca, outros de bem longe, de Saramago, de Dostoievsky, de Patrick Süskind, de Aldous Huxley, de Kafka, de Genet, de Bukowski. Outros autores que também me falam muito: Milan Kundera, Umberto Eco, Ítalo Calvino, as mulheres Clarice Lispector e Hilda Hilst, ainda Moacyr Scliar e Fabrício Carpinejar. A literatura latino-americana também me fascina, desde o universo mágico de Gabriel Garcia Marquez, ao sagaz Eduardo Galleano, já falei do Neruda, Borges, Vargas Llosa. Com certeza tô esquecendo de muita gente. Quando moleque, morando na França com minha família, desenvolvi um caso de amor por René Goscinny e Jean-Jacques Sempé (a dupla dos livros do”Petit Nicolas”), por Albert Uderzo (que junto a Goscinny criou Asterix e Obelix), e por Hergé (criador das aventuras de Tintin), amores que cultivo até hoje. Ainda, fizeram parte da minha adolescência os contos de Edgar Allan Poe e as aventuras de Conan Doyle para o seu Sherlock Holmes, e de ambos tenho coletâneas que volta e meia são relidas. Também gosto de quadrinhos, não a ponto de colecionar ou ser grande entendedor, mas o suficiente para ser fã de Milo Manara e gastar bons momentos admirando um Neil Gaiman. Gosto também de conhecer um autor novo, e me surpreender com sua obra. Aceito indicações de amigos com prazer, descubro em artigos, crônicas, poemas que chegam até mim muita coisa boa de quem não conhecia. Hoje, infelizmente, leio menos do que gostaria, e com certeza muito menos do que preciso. Realmente acredito que a leitura é uma necessidade: forma repertório, amplia o olhar, exercita a criatividade.

EN – A imprensa na Bahia é muito engraçada, ator famoso e chatinho é assaltado e vira capa de jornal e notícias em todos os sites, mas quando um ator passa necessidade ninguém comenta. Como você encara esse puxasaquismo de certos jornalistas estrelinhas da Rede Bahia e cia.?
CS – A imprensa trabalha em função do que o seu público consome, e do que as redações e editorias consideram ser os interesses desse público. Percebo que, infelizmente, esses interesses são muitas vezes difusos, gerando pautas abordadas sem distanciamento ou pouco construtivas. A indústria das celebridades tem muito espaço na mídia, posto que é consumida vorazmente pela população. É alimentada tanto por notícias interessantes, como a nova peça ou o novo filme daquele ator, quanto por baboseiras, como o tratamento estético, a nova tatuagem, uma queda na rua, e infelizmente essas futilidades eventualmente prevalecem sobre assuntos mais importantes. Eu lamento muito a falta de sensibilidade – e de visão – de profissionais da comunicação que priorizam esses conteúdos, e que usualmente compõem veículos de grande alcance, entretanto, entendo que eles são apenas parte de um arranjo maior: enquanto houver interesse de leitores, telespectadores, internautas por esse tipo de notícia, haverá espaço para elas.

Ciro Sales

EN – Eu não acredito mais em política e em muitas outras coisas. Não há reajuste de salário mínimo que faça o senso comum acreditar em falas políticas dessa natureza, quando o que se vê na TV é uma quadrilha do PT, enfim, condenados no mensalão por, literalmente, roubar comida de criancinha. Você ainda tem esperanças de que o Brasil venha tomar vergonha na cara e mudar de rumo, mesmo com a recente eleição de um crente bostético para presidir da Comissão de Direitos Humanos da Câmara?
CS – Acho que o Brasil vai seguir no seu rumo, que é o do crescimento em direção ao bem estar de sua população. Infelizmente nós somos craques em escolhas equivocadas, mas isso apenas reflete que a maior parte da população ainda é pouco esclarecida e, pior, muito pouco interessada em política. Herdei de meus pais, cidadãos engajados, à sua época militantes estudantis, a crença na possibilidade de transformação da realidade através de nossas ações e nossa mobilização por determinadas causas, mas sei que a imensa maioria da população prefere viver acreditando que não é capaz de mudar o que está posto. Entretanto, acredito na mudança. Vivemos em uma democracia, temos organismos de controle e representação social, conquistamos ferramentas de transparência e mobilização. Temos visto – principalmente por conta da internet – grupos e entidades de mobilização social através das redes sociais que, através de petições virtuais conseguem deslanchar processos de transformação social, como a Lei da Ficha Limpa e outras conquistas, ou como a petição de impeachment de Renan Calheiros, recém-entregue ao Senado Federal, e inúmeros outros processos já iniciados dessa forma. Se o presidente da Comissão de Direitos Humanos do Câmara dos Deputados renunciar, como aguardamos essa semana, certamente terá sido por conta da forte mobilização que temos visto – e participado – em redes sociais. Esse é mais um caminho. Pode parecer piegas, mas tenho muita esperança no Brasil e no povo brasileiro.

EN – Qual seria realmente a melhor alternativa para um escritor, ou ator, ou cineasta (sem mídia) que quer se fazer notar nos círculos de arte? Dar entrevista num blog clandestino? Participar de bienais e festas literárias, cinema e teatro?
CS – Acho que a melhor forma de se fazer notar é trabalhando. E também acho que o objetivo principal do trabalho do artista não deve ser “se fazer notar”. Por isso, acredito que fazer a sua parte, trabalhar coerente a seus valores e à sua ética, é sempre a melhor alternativa. Buscamos visibilidade para o nosso trabalho, desejamos que alcance cada vez maior público, para que cumpra sua função. Mas não podemos fazer com que essa busca interfira no próprio trabalho ou determine que trabalho seguir. Reconheço a importância de se relacionar bem com a classe, com a mídia, de estar presente nos meios onde circulam formadores de opinião, de dar entrevistas, participar de encontros, eventos. Mas nada disso é mais importante do que acordar a cada dia cuidando de seu trabalho, preparando corpo, voz, mente e alma para desempenhar suas funções no exercício de sua arte. Determinação me parece mais eficaz do que relacionamento.

Ciro Sales

EN – O cinema americano foi feito porque antes dele a sociedade americana havia produzido uma enorme literatura. Cerca de 90% dos filmes americanos são baseados na literatura americana. A literatura americana inundou o cinema americano com um manancial de excelentes ideias. Então o Brasil – atrasado como sempre – começou também a adaptar a sua literatura para o cinema, seja ela baseada em teatro ou no romance. Como você encara o fato das pessoas ainda terem muito preconceito com relação ao cinema, teatro e à literatura nacional?
CS – Esse é um ponto muito interessante, pois é uma questão que nos afeta diretamente, enquanto artistas brasileiros, mas também como público, de teatro, cinema e literatura. Eu acredito que a arte é universal, que o gosto de cada indivíduo se molda a partir de suas experiências pessoais e do repertório que traz consigo, por isso respeito muito as preferências das pessoas. Não me afeta em nada alguém ter preferência por este ou aquele autor, diretor, ou dramaturgo estrangeiro, pois a pessoa entrou em contato com a sua obra (provavelmente traduzida para nossa língua), se identificou e se encantou. O que sim me afetaria bastante seria alguém optar por não ter acesso a alguma obra pelo simples motivo de ser nacional, pois vejo aí uma ignorância imensa. “Nacional”, “americano”, “europeu” não são gêneros, não determinam estética, conteúdos, qualidade para filmes, livros ou espetáculos. Felizmente, percebo que comportamentos assim se dissipam a cada dia, e vejo com bons olhos o espaço cada vez maior que teatro, cinema e literatura nacional tem tido na preferência dos brasileiros.

EN – Pois bem, então a próxima pergunta é quase uma provocação, sem querer aumentar o leque de culpas atribuídas às baratas, digo, as mulheres: sabendo que a criação dos filhos ainda é considerada uma obrigação exclusivamente feminina (vide a Madame Ratazana), a mulher então contribui para formar este homem machista?
CS – Todos nós somos responsáveis pela manutenção ou mudança de valores, conceitos e práticas da vida em sociedade. Eu acredito muito na máxima de Gandhi, e um dos fundamentos do pensamento hinduísta, “Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, e também por isso faço teatro. Assim, acho que não se trata de responsabilizar a mulher ou o homem pela criação de filhos machistas (especialmente porque hoje em dia existem tantas configurações de família que os conceitos de “obrigação feminina/masculina” já são ultrapassados), mas de buscar na nossa prática cotidiana, em família, com sobrinhos, com alunos, com o público infantil, como conseguimos dar bons exemplos e ajudar a formar cidadãos conscientes e esclarecidos.

EN – Você trabalha com humor, na área da comédia. É um ambiente que ainda preserva espaço para o machismo?
CS – Claro. A comédia é o gênero teatral que reproduz comportamentos sociais para que possamos refletir sobre eles através do humor. As pessoas riem de situações expostas ao ridículo, de construções caricaturais de personagens, de palavras inusitadas ou que lhe pareçam inadequadas, de textos construídos para inverter a lógica do sentido; e a fonte para tudo isso é sempre o cotidiano. Como o machismo existe em nossa sociedade, temos machismo como pauta em espetáculos. Considero que cabe então ao artista e ao realizador definirem o que pretendem com a sua encenação: compactuar com a manutenção de valores machistas ou usá-los para expor os machistas ao ridículo, e podemos aqui substituir o machismo por qualquer outra prática ou crença desagregadora. Os humoristas e encenadores de comédia estão sempre lidando em seu trabalho com os tênues limites entre respeito e grosseria, cortesia e estupidez, sarcasmo e baixaria, e muitas vezes pesam a mão, recorrendo a lugares de machismo, racismo, preconceito para alcançar risos fáceis. Na minha opinião, o limite é – sempre – o respeito ao próximo: à mulher, ao gênero, à minoria. Somos responsáveis pelo entretenimento que oferecemos às pessoas que saem de suas casa para nos assistir, e felizmente os artistas com quem interajo também têm pensado assim.

Ciro Sales em Amor Barato

EN – O assédio dos fãs assusta você?
CS – O reconhecimento é um dos resultados do ofício do ator, e embora não deva ser objetivo ou motivação para nenhum trabalho, é prazeroso e gratificante. A depender de que projetos o ator esteja envolvido, ou de que condução dá para a sua carreira, o escopo deste reconhecimento amplia ou diminui. Por exemplo, com o espetáculo “A Paixão de Cristo” que é visto por mais de 20 mil pessoas em Salvador durante a Semana Santa, sei que serei mais reconhecido na rua do que fazendo outro espetáculo que, entretanto, pode trazer um reconhecimento distinto. O mesmo acontece com trabalhos na televisão, ou cinema, que tem chances de alcançar maiores públicos. Entretanto, um ator deve entender que a admiração que as pessoas sentirão não é pela pessoa que ele é, mas pela imagem que criam dele, e tentar preservar a sua individualidade e privacidade. Eventualmente, recebo – muito feliz – mensagens de pessoas que assistem aos espetáculos que faço: felicitações, críticas, curiosidades, desejos de se aproximar; e é muito interessante perceber o teor das abordagens de acordo com cada perfil de espetáculo. O personagem, o grau de exposição, a linguagem e a estética da montagem, tudo determina a imagem que as pessoas criam de mim ao se aproximar e a sua abordagem, entretanto, eu sou a mesma pessoa. Tenho muita clareza nessas percepções, e recebo com bastante leveza e carinho cada demonstração de admiração ou tentativa de aproximação, mantendo o distanciamento que acredito saudável.

EN – O que mais você quer?
CS – Crescimento, equilíbrio e leveza, para mim e para o mundo. Quero continuar vivendo do fruto do meu trabalho, com tranquilidade para fazer escolhas e responsabilidade para assumir seus ônus e bônus. Quero estar apto para receber o que estiver guardado para mim.

Esta entrevista também está disponível aqui

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.

 


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