Novelas, minisséries e a tv aberta no Brasil
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Novelas, Minisséries e a TV Aberta no Brasil

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A História de Ester

Ótimo texto sobre a situação atual das novelas brasileiras e da tv aberta no país.

.Realmente, as TVs abertas (*todas elas) do Brasil são vergonhosas! Se a Globo anda pecando com as suas novelas toscas sobre traficadas, passando por remake de besteirol dos anos 80 e até romance em paraíso turístico, o SBT é uma inundação de coisas sem sentido, mas as produções bíblicas da Record são interessantes e, aparentemente, serão uma constante na emissora nos próximos anos.

Com o retorno positivo obtido com as produções “A História de Ester” (*nem fiquei sabendo dessa!), “Sansão e Dalila” e “Rei Davi”, a emissora decidiu que produções nessa mesma linha serão o carro-chefe na busca pela liderança. Atualmente no ar com a minissérie “José do Egito”, que inicialmente teria o subtítulo “De escravo a governador”, a emissora se antecipou e já anunciou que as próximas duas minisséries serão sobre os “Dez Mandamentos” e “Jesus”. Tudo indica que as produções deverão estrear em 2014 e 2015, respectivamente.

José do Egito

No caso específico da história sobre os Dez Mandamentos, a emissora terá que investir muita grana em tecnologia (*mas isso ela não terá problemas, graças às generosas contribuições das ovelhinhas do Edir Macedo), para emprestar fidelidade aos efeitos especiais que deverão ser usados na representação da história. E como os diretores dessas produções estão bebendo da fonte do cinema, espero que pelo menos assistam a épica vida de Moisés (interpretado grandiosamente por Charlton Heston), da produção de 1956. Mas a Record pisa num terreno onde mesmo Hollywood tropeçou: a recriação de antigos e manipulados textos da Bíblia. Em “José do Egito”, por exemplo, não deu outra, claro: até as pirâmides estão fora do lugar.

Contudo, as curiosidades sobre os bastidores dessas produções tem me atraído muito. Para essa minissérie, vários atores, no Rio de Janeiro, se submeteram a certo sacrifício “pela arte”. Segundo fontes, mulheres tiveram a cabeça raspada, com o foi o caso da deslumbrante atriz Larissa Maciel, que interpretou a Maysa, na Globo, e a franquinha Escrava Isaura, esposa de pastor e ex-paquita Bianca Rinaldi. Além de passarem pela máquina zero, os marmanjos foram obrigados a depilar o peito, os braços e as pernas.

Maysa

Na minissérie, muita coisa tem sido alterada, ou simplesmente excluída em detrimento dos conceitos da Igreja Universal do Reino de Deus que é ridicularizar as religiões dos outros e alienar. Após ser jogado num poço e vendido como escravo pelos irmãos, o hebreu José, personagem do Gênesis e filho do patriarca Jacó, vivido pelo fraquinho ex-ator de “Malhação”, Ricky Tavares, enfim chegou ao país dos faraós. O pobrezinho já foi chicoteado, desde que chegou ao Egito ele continuar com as mesmas marcas de ferimentos no mesmo braço, já deu uns “pegas” na Azenate, vivida competentemente pela jovem atriz Ana Rita Cerqueira, já plantou árvores e está aprendendo a escrever.

Rei Davi

Contudo, a rede dirigida pelos bispos da Igreja Universal adentrou um terreno pantanoso, no qual mesmo produções de Hollywood caíram no ridículo. Pois, mesmo eu não sendo um historiador, sabemos que o antigo Egito é sempre um convite à extravagância e ao mau gosto, onde informações são sempre desencontradas. E não deu outra: o resultado é uma farofada de fazer a mais mansa das múmias revirar-se no sarcófago, onde não existe nenhum cuidado nem com o texto bíblico nem com a arqueologia. A gala rala vai durar até agosto – e, em 2014, deverá prosseguir numa série sobre Moisés.

Embora a Bíblia não forneça indícios sobre o período em que se desenrolaria a história, a série dá de barato que tudo se passou por volta de 1585 a.c., quando o Egito estava sob domínio de uma tribo estrangeira, os hicsos. Mas ao chegar à capital, Avaris, José enxerga as pirâmides como se estivessem logo ali. Segundo arqueólogos e vários historiadores, isso tudo é uma grande bobagem, pois elas ficavam a uns 200 quilômetros da cidade. Mas o que importa essa observação se essas minisséries são feitas para um público gigantesco e totalmente ignorante, pois, como diz na propaganda da emissora, EU SOU UNIVERSAL!

Sansão e Dalila

O ator Taumaturgo Ferreira está simplesmente ridículo como Potifar – com os músculos que ele nunca teve e sem vida na trama. Mas o sacerdote carecão Pentephres, vivido por Eduardo Lago, anda dando o que falar, às vezes pinta como vilão, batendo na própria filha Azetane (*uma moça de bom coração e que sempre obedeceu o pai, mas, no entanto, os dois nunca conseguem se acertar quando o assunto é o futuro. O pai quer que a filha siga a tradição da família e se torne uma sacerdotisa. Ela, porém, quer ter uma família e está apaixonada por José), ou cultuando o deus egípcio Seth – cuja figura, nos primórdios do cristianismo, se confundia com Satã – e dada a fixação dos bispos da Universal pelo tema, é de perguntar se tal contrabando foi só obra do acaso – ora curando o faraó e discursando sobre liberdade.

Captadas no Egito e no Chile, as cenas de paisagens dão para o gasto. O problema é que Deus, definitivamente, não mora nos detalhes da produção. O gasto anunciado é de 850.000 reais por capítulo, mas há itens que parecem saídos de loja de 1,99 – como observou uma matéria na revista “Veja”, onde a produção usou almofadas em “estilo oriental” novinhas em tendas de tempos remotos.

Record

Segundo informações, a Record queria evitar semelhanças com filmes como “Cleópatra”, por considerar a produção de 1963 com Liz Taylor muito “carnavalesca”. A suposta inspiração – não vá cair da cadeira, leitor – é a série “Game Of Thrones”, da HBO, além dos filmes “O Senhor dos Anéis” e a série “Spartakus”. Mas, diante das túnicas esvoaçantes, dos olhos de Cleópatra kitsch e dos cocos lustrosos, dá no máximo para extrair dali um refrão de marchinha: é dos carecas que os bispos gostam mais. P.S. em breve uma entrevista exclusiva aqui no blog com o ator Wendell Duarte, também fazendo sucesso na minissérie da Record.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.

 


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