O Dia das Mães e o Cinema | Cabine Cultural
Cinema

O Dia das Mães e o Cinema

Alice não mora mais aqui

Alice não mora mais aqui

Dia das Mães e um texto sobre ALICE, do filme ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

Por Mauricio Amorim

Mês de maio é considerado como o mês das noivas e, principalmente, como o mês das mães, sendo que, no segundo domingo de maio, oficialmente, comemora-se o Dia das Mães. É um dia que passamos com as nossas mães, almoçamos com elas, damos, a elas, presentes, mostramos nosso amor, nossa gratidão. Confesso que, assim como todas essas outras datas (Dia dos Namorados, Dias das Crianças, e afins…), vejo o Dia das Mães como algo meramente comercial. Para mim, deve-se ter – e demonstrar – esse amor, essa gratidão, em absolutamente todos os dias do ano. Mas, se foi decretado que, num dia específico do mês de maio, devemos dedicá-lo exclusivamente a elas, eu não só aceito como acato e faço tudo conforme o que deve ser feito. Com amor e gratidão!

Como minha função aqui é escrever sobre cinema, nada mais justo que o meu texto do mês de maio seja um texto em homenagem a algumas mães que já passaram pelo cinema pois, desde que o cinema existe, foram muitas personagens – mães – batalhadoras, guerreiras, cuidadosas e amorosas, felizes, algumas infelizes, outras bem mais imaturas do que seus próprios filhos, muitas sonhadoras, algumas bem pé no chão, porém, quase todas dispostas a, muitas vezes, dar a vida pelos seus filhos. Basta lembrarmos da mãe vivida por Susan Sarandon, no filme O ÓLEO DE LORENZO, ou a mãe desesperada que tenta tirar a filha das garras do marido iraniano, no filme NUNCA SEM MINHA FILHA, interpretada pela sempre ótima Sally Field, ou ainda a mãe feita por Meryl Streep, que protagonizou uma das cenas mais tristes da história do cinema (se não a mais triste) no excelente A ESCOLHA DE SOFIA, ou a mãe vivida por Fernanda Montenegro, em CENTRAL DO BRASIL (ou alguém duvida que Dora tenha sido, durante aqueles dias de peregrinação, uma mãe para o menino Josué?). São muitas as mães das histórias narradas nos filmes que nos fazem crer, categoricamente, que o amor de mãe é, de fato, o maior amor do mundo.

Entretanto, dentro deste enorme leque de mães guerreiras, batalhadoras, da história do cinema, vou discorrer sobre duas mães que sempre que eu as vejo, na tela, eu as admiro, exatamente pela garra e pelo amor incondicional que elas dedicam a seus filhos: Alice, do filme ALICE NÃO MORA MAIS AQUI, um filme da década de 70, e Aurora, do drama premiado com vários Oscars LAÇOS DE TERNURA, do início da década de 80.

Sobre ALICE, o texto que segue, e sobre a AURORA, de Shirley Maclaine, em breve.

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI é um filme dirigido por Martin Scorsese e, mesmo tendo dado a Ellen Burstyn um Oscar de Melhor Atriz, em 1975, não é um dos filmes mais conhecidos de Scorsese, nem mesmo da própria Ellen, já que muitos se lembram dela mais pela mãe de Linda Blair em O EXORCISTA, ou pela mulher (e mãe) problemática de REQUIEM PARA UM SONHO do que, propriamente, a mãe envolvida nas dificuldades da vida, tentando criar um filho sozinha, em ALICE NÃO MORA MAIS AQUI.

A princípio, pode até parecer que Alice não é uma mãe amorosa e/ou preocupada com o filho, envolta com um marido bastante grosso, preocupada em agradar esse homem em todos os momentos, sentindo-se infeliz por não conseguir agradá-lo muito menos ter a atenção dele, até que fica viúva e se ver na necessidade de mudar de cidade, levando consigo um pouco de dinheiro, o carro e, evidentemente, seu filho TOMMY, de onze anos.

Afirmando sempre que cantar é o seu ofício, Alice consegue emprego de cantora numa outra cidade e, em pouco tempo, envolve-se com um cara mais novo que ela, interpretado pelo então novinho, e até bonitinho, Harvey Keitel. Porém, logo Alice e todos nós sabemos que o cara é extremamente violento, quase um psicopata. Alice e Tommy são obrigados a fugir dessa cidade e, mais uma vez, dentro do carro, pelos Estados Unidos a fora, essa mulher, ao lado do filho, muitas vezes chato e irritante, porem, sempre presente, parte em busca da felicidade. É importante dizer que ALICE NÃO MORA MAIS AQUI, muitas vezes, assume ares de road movie.

Nesta nova cidade, ela não consegue emprego de cantora e, sim, de garçonete, para seu desgosto inicial. Entretanto, ao se envolver com o galante fazendeiro interpretado por Kris Kristofferson, Alice começa a ganhar um pouco mais de luz própria pois, apesar de alguns desentendimentos entre o novo namorado e o filho (pois, Tommy, de fato, é chato como que!), ela percebe que um sentimento de amor está acontecendo e, numa bela cena entre ela e a amiga garçonete, ela confessa que ama o fazendeiro.

Esse é o enredo básico desse ótimo filme de Scorsese.

Alice não mora mais aqui

Alice não mora mais aqui

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI foi uma das minhas escolhas para falar das mães, no cinema, exatamente porque, acima do desejo de encontrar emprego como cantora, acima do desejo de encontrar um homem que, digamos, ame-a, o que Alice quer, de fato, o que ela almeja encontrar é a felicidade ao lado do filho. Até porque, as melhores cenas desse filme são (com a exceção da citada cena em que ela afirma, a colega, amar o fazendeiro) aquelas que mostram a relação muitas vezes conturbada, porém, sempre amorosa, entre Alice e Tommy.

Para aqueles que já assistiram, e queriam rever, ou para os que desejam conhecer esse belo exemplar cinematográfico da década de 70, atentem para três ótimas cenas desse drama, exatamente algumas das cenas que mostram toda uma relação mãe-filho.

A primeira, já viúva, e antes da primeira mudança, Alice toca piano e canta. Tommy, do lado de fora da casa, apesar de estar um tanto quanto entediado, ouve, com atenção, o que a mãe canta e toca sem, porém, ser visto por ela.

A outra, após chegar num quarto do hotel, da cidade para qual eles se mudam, toda produzida para parecer bonita e jovem e conseguir um bom emprego, Alice depara-se com uma certa indiferença do filho, além do fato de ele bombardeá-la de perguntas sobre o futuro, perguntas que ela não tem a mínima condição de saber as respostas. E, acuada, Alice exaspera-se e grita com o filho. A reação silenciosa do filho, e o imediato arrependimento de Alice, já vale ver o filme.

E, por fim, a cena que mostra a chegada de Alice após conseguir um emprego de garçonete, e não de cantora. A decepção desta mulher em ver seus sonhos artísticos indo por água abaixo, a conformidade em aceitar um trabalho totalmente fora do perfil que ela procurava, e o apoio dado pelo filho, ao alisar os cabelos da mãe quando ela se deita no seu colo, faz com que consideremos ALICE NÃO MORA MAIS AQUI como um filme importante dentro da história do cinema. Datado? Talvez. Contudo, um belo e digno filme que mostra uma bonita relação entre mãe e filho. Relação difícil, muitas vezes beirando o conflituoso, mas uma relação de amor e de companheirismo.

Um ótimo filme a ser conhecido ou revisto nesse mês de maio, nesse mês das mães.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colaborador do Cabine Cultural.

 







Deixe uma resposta