Ana Cristina César: Um anjo marginal e sua alma de batom
Literatura

Um anjo marginal e sua alma de batom

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Um anjo marginal e sua alma de batom

Já avisava: “…baralhar bem antes de ler…”- Ana Cristina César ou Ana C.,  “C” de cortante, corrosiva, carnal e, paradoxalmente, cândida, dual, tal como a vida  a ela se apresentou. Uma nau frágil, onde naufrágios eram essenciais para treinar seu fôlego, sua respiração, pois a superfície, a terra a vista era muito chão para suas asas. Sobrevoava as cidades com sua alma de batom, marginal leveza de anjo rebelde que repousava nas letras toda sua angústia de ser tão estranha a si.

Nem no passado nem no futuro, Ana C. saltava eternamente no presente de um indicativo perigoso, sempre indefinido, com a urgência de todos os sentidos em plena ebulição. Seu tempo: agora. Tal sentimento também compartilhado por um outro poeta marginal, Renato Russo, em uma das suas belas composições, “La vita è adesso “. E era de instantes que ela alinhavava seu diário e cartas, antigas e soltas, dispersas como seu “eu”, incapaz de concentrar-se em uma coisa de cada vez, porque trazia a agonia de quem sabia ser tudo fugaz, inclusive ela mesma. Velocidade. Tinha pressa, apesar de não saber para onde ir ou ia.

Então, escavava, escavava desesperadamente o momento, em busca de alguma profundidade, profundidade essa que sempre escapava e a lançava em seu próprio abismo. Trazia a intensidade dos segundos em seu respirar, e, na sua desesperança, a dor aguda de estar viva, dor que cortava o silêncio em versos ácidos, com doses desconcertantes de sarcasmo, diante de uma sociedade hipócrita que não lhe dava paz.

Pode-se notar sua ironia com a vida, ao guardar seus escritos tão densos em uma pasta rosa, que, tempos depois da sua morte, seriam organizados por Viviana Bosi e publicados como: “Antigos e soltos – Poemas e prosas da pasta rosa”. Sua leitura é uma experiência abismal, não há como não sentir sua angústia como algo visceral atravessando todo o mar de sua obra literária, tão denso como o verde mar dos seus olhos. Mas mergulhar é preciso, e é impossível sair imune às suas ondas.

Não cabia. Nunca coube. Transbordava. Molhava as palavras com sangue, saliva e secreções, dizendo: “Hoje acordei com uma coceira terrível no hímen”- provocar era sua forma de pertencer a essa aventura brutal: a existência.

Ao citar Murilo Mendes, com os versos:

O juízo final começa em mim / Nos lindes da minha palavra ”,

na verdade, falava de si, do seu auto-julgamento explícito, entre as linhas que  iam costurando seu ser tão complexo.

Voyeur do cotidiano, Ana despia as ruas, bebia todo seu álcool, e, embriagava-se da vida que roubava dos transeuntes das largas avenidas de uma Copacabana efervescente, onde, posteriormente, daria seu derradeiro salto, nascendo, talvez, através da morte, para outra vida mais possível.

“Ao infinito deixo a minha ânsia, nela espero e dela vivo.”

E foi assim que Ana C, com seus excessos e abcessos incuráveis, voou sobre o Rio, num salto mortal, como um anjo marginal perdido em um mundo nada celestial.

 A teus pés, Ana C., deixo minhas mãos em profunda reverência e meus dedos inquietos em querer traduzir o intraduzível: você.

(RaiBlue)

Um anjo marginal e sua alma de batom

 

Raivane Sales é graduada em Letras Vernáculas, Professora de Língua Portuguesa, graduanda em Psicologia, poetisa cheia de prosa e vice -versa. Seu pseudônimo é RaiBlue e vocês podem encontrá-la em um de seus blogs pessoais.

 


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