A carta aberta do Teatro Vila Velha – Cabine Cultural
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A carta aberta do Teatro Vila Velha

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Teatro Vila Velha

Dias atrás o Teatro Vila Velha publicou uma carta aberta direcionada ao Governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner, ao Secretário de Cultura Albino Rubim e ao Conselho de Cultura. Seu conteúdo, bem crítico, visa basicamente questionar e refletir algumas das muitas ações do Estado no campo da cultura, principalmente as ações que, com o intuito de popularizar o consumo de atividades artísticas na Bahia, acabam por cobrar sempre valores simbólicos, quando não gratuitos, aos seus espetáculos promovidos. O problema é que esta estrutura acaba por trazer uma série de efeitos colaterais danosos para a comunidade artística local. Cria-se uma dependência demasiada para com o Estado e sobretudo constrói-se no público uma ideia errônea (infelizmente) de que espetáculos culturais devem custar sempre valores simbólicos. Sem entrar profundamente no mérito da questão, acreditamos que ao menos este é um dos assuntos que devem ser seriamente discutidos pela comunidade artística, pelo Governo e pela sociedade como um todo. Reproduzimos agora a íntegra da carta.

CARTA ABERTA DO TEATRO VILA VELHA

“Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, proporcionar condições necessárias para a criação e a produção de bens culturais, sejam eles artefatos ou mentefatos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, promover o desenvolvimento cultural geral da sociedade”. O trecho do discurso de posse do então ministro da Cultura, Gilberto Gil.

A possibilidade de construção de autonomia para os espaços culturais de Salvador tem sido afetada drasticamente por uma série de programas lançados, desde o “Verão Cênico”, pela SECULT-BA. A meta é promover uma formação de platéia. Mas ingressos a um real ou gratuitos têm sido um desastre em vários lugares do mundo que adotaram em algum momento essa estratégia. Tem sido demonstrado que o percentual de novos espectadores é reduzidíssimo. Ou seja: as mesmas pessoas que iriam pagando o preço proposto pelos produtores continuam indo, de graça ou a um real, e se desacostumam, ou estranham outros preços a partir daí.

Na última semana do mês de maio, a Secretaria de Cultura lançou, em coletiva de Imprensa, a sua programação para a Copa das Confederações, intitulada “Cultura em Campo” seguida do slogan “Se no Brasil o futebol é arte, na Bahia a Cultura entra em campo”. De que Cultura será que falam? Da Cultura que apenas o Estado é capaz de promover e gerir? Em evento, o programa foi apresentado para alguns artistas convidados, jornalistas, produtores e representantes de equipamentos culturais. Criou-se a expectativa de uma proposta governamental que também contemplasse os espaços não-governamentais ou independentes e descentralizasse o papel da máquina estatal como promotora, produtora e gestora no mercado da cultura. Mas não foi o que ocorreu.

A impressão que fica é que o Estado, neste momento, quer ter o controle dos holofotes, num evento com esse potencial de projeção, que reúne times campeões de várias partes do mundo, representantes de todos os continentes, inclusive do país sede, por cerca de duas semanas, onde Salvador recebe jogos na Arena Fonte Nova. No atual contexto em que o mundo se conecta e se comunica por meio de infinitas redes, como pode o Estado não apresentar um projeto que se articule com outros equipamentos e espaços importantes para a cena cultural baiana?

Não se reclama aqui alguma forma de “inclusão”, no sentido paternalista da coisa, se o fazemos é por uma preocupação com a sobrevivência econômica do setor. É preocupante perceber que não houve planejamento nem pensamento de programa, visando a Copa das Confederações, que fortalecesse os diversos segmentos da cadeia produtiva nessa área e que realmente esboçasse um formato eficiente de política cultural. A programação, promovida pela Secretaria de Cultura do Estado, faz um recorte de cunho quase figurativo ou ilustrativo para o evento. É evidente que os espaços culturais da SECULT precisavam de uma boa programação. Mas isso limita a exposição da diversidade ao único olhar da curadoria estatal. O que soa autoritário e está longe do ideal republicano desse Governo.

Os ingressos a R$ 1,00 no Teatro Castro Alves funcionam no projeto “Domingo no TCA”, por ser uma ação pontual de acesso àquele espaço. Entretanto, sua aplicação de maneira seqüencial no mês de junho, no “Cultura em Campo”, torna inviável o funcionamento de outros espaços não-governamentais, já impactados pela concorrência com as festas juninas e os próprios jogos. Sem levar em conta a estimativa de que apenas 1% da população vai ou foi ao teatro (uma vez por ano). Isso não fomenta o crescimento e o desenvolvimento do setor. Na verdade, é um verdadeiro gol contra a Economia da Cultura.

O acesso gratuito é um escândalo, se pensarmos que o Estado fomenta a indústria e a agricultura e nem por isso exige a distribuição gratuita dos produtos advindos desse fomento. O fomento ou subsídio em criação de infra-estruturas e renúncia fiscal visa a viabilidade da produção e sua distribuição além de outros insumos que essas atividades alavancam e benefícios para o desenvolvimento local. Nessa perspectiva, diante da estratégia do projeto “Cultura em Campo”, de simplificar e focar apenas na estrutura do Estado, não há outra alternativa para os equipamentos culturais independentes senão correr o imenso risco financeiro de abrir suas portas, como sempre temos feito,.durante a Copa das Confederações.

Esperamos ainda que a SECULT repense seu plano de ação para o verão, a Copa do Mundo de 2014 e sempre. Para que a produção cultural baiana não se torne novamente refém e dependente unicamente do Estado como foi outrora.

Aguardamos ainda uma saída para a fragilidade criada.

Atenciosamente,

Teatro Vila Velha

 


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