Márcia Short e o show Sapoti | Cabine Cultural
Música

Márcia Short e o show Sapoti

Márcia Short

O espetáculo tem mais duas apresentações confirmadas em Junho: 10 e 17/6/2013, no Teatro Jorge Amado, às 20h30, com ingressos vendidos por R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).

Que o axé-music da Bahia está em decadência, abaixo da linda do lixão, todo mundo já percebeu – menos os produtores, os jornalistas puxa-saco da Rede Bahia e genéricas e os próprios artistas deslumbrados. Faz tempo que não podemos levar a sério as patéticas propagandas que mostram sempre os mesmos medalhões do deturpado e mercantilizado carnaval baiano “em alta” (Ivetes, Chicletes, Danielas, Leittes e etc.), porque o marketing tem desses truques, mesmo em campanhas travestidas em reportagens na Globo, monografias na UFBA, documentários nas grandes salas e cinema, etc.
Como um Big Brother Brasil da música brasileira (*as semelhanças não são meras coincidências), a atual axé-music leva como ênfase exagerada a curtição vazia, alcoolista, compulsiva e consumista. Um bando de idiotas pulando feito macacos atrás de algum trio e endeusando algum bocó milionário. Valores sócio-culturais são deixados em segundo plano, isso quando são considerados. E, além do mais, tudo virou um espetáculo de muita arrogância e estrelismo.

Em entrevista recente, uma de suas estrelas, Ivete Sangalo, disse condenar o estrelismo. Certamente deve condenar o estrelismo dos outros, mas não o dela, que há muito tem na superexposição na mídia a qualquer custo (um dos fatores de estrelismo) a sua obsessão pessoal. É muito constrangedor ver esses astros do axé mostrarem sua arrogância e megalomania nos trios elétricos, mas constrangedor mesmo é ver que eles integram um cenário musical considerado totalitário e imperialista, que pelo seu superficialismo artístico e pelo seu caráter exageradamente midiático (leia-se “velha mídia”), começam a provocar sua própria decadência, até mesmo em Salvador.

Contudo, alguma coisa já esta mudando nessa postura. Outros artistas muito mais interessantes andam dando o que falar, no bom sentido artístico da coisa. Lazzo, Gerônimo, Magary, Adelmo Casé, Manuela Rodrigues, Orkestra Rumpilezz e a Baiana System, Neogibá, Retrofoguetes, Márcio Mello, Rebeca Matta, Mariene de Castro, Ramiro Musotto, Cascadura, Vivendo do Ócio, Márcia Castro, Mariela Santiago e outros bons, afinal, a axé-music, na sua cidade de origem, sempre sufocou as outras manifestações culturais, apesar de todo seu papo de “diversidade” e “convívio harmonioso” (sic) de várias tendências culturais. Mas a verdade é que a axé-music de hoje só aceita as demais tendências quando puder cooptá-las, se apropriando delas para associá-las à sua imagem.

Márcia Short

E, talvez, pensando nisso, e surgindo num momento mais do que oportuno, a maravilhosa cantora Márcia Short resolveu se jogar de corpo, alma e cabelo num projeto completamente diferente do mais do mesmo  surgindo nos últimos tempos em Salvador. Short trouxe de volta o repertório da mais importante cantor popular brasileira de todos os tempos: Ângela Maria.

Com quase 60 anos de carreira, Ângela Maria – cujo nome real é Abelim Maria – se tornou a mais influente voz da canção brasileira a partir de 1955, já tendo gravado mais de 60 álbuns e com dezenas de sucessos clássicos da MPB. Sua influência sempre foi amplamente reconhecida por gente de peso como Elis, Bethânia, Gal, e praticamente todas as mais importantes cantoras brasileiras desde o final dos anos 50. E, agora, Ângela está vivíssima, mesmo que entre as estranhezas recentes de sua carreira, está o fato de ter concorrido, sem êxito, a uma cadeira na Câmara de Vereadores de São Paulo. Uma estrela maior como ela jamais deveria se submeter a tamanha humilhação. Mas enfim…

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Agora, a deslumbrante Márcia Short homenageia a Ângela com um show maravilhoso, de fazer gringos, baianos e perturbados caírem os queixos. Short para comemorar 25 anos de carreira com uma trajetória musical reconhecida e aplaudida por onde passa, participou do igualmente maravilhoso Projeto Domingo no TCA, no último dia 12 de maio, onde apresentou o show  “Sapoti”, em homenagem à diva da MPB.
Com uma voz  potente, versátil e dona de uma rouquidão inconfundível, Short alcança graves e agudos com a mesma facilidade e entoa do samba-reggae à MPB ou axé. Mas, foi o samba-reggae, a batida dos tambores africanos que a elevaram ao patamar de uma das mais belas e melhores vozes femininas da música baiana, conquistando públicos no Brasil e no mundo.

Acompanhada de uma banda maravilhosa, bem vestida e articulada – o que me fez lembrar do Bando da Lua, banda que acompanhou a Carmen Miranda nos anos 30 – Short encarou o público no TCA, meio nervosa, e isso deu para constatar, num desafio de interpretar sucessos consagrados na voz de Ângela Maria. “É transitar na contramão do que eu faço, porque eu canto a alegria nos trios e adoro”.  Mas desafios nunca foram novidades para ela.

Márcia Short

No repertório do show, propositalmente pensado para acontecer no Dia das Mães, Short resgatou alguns dos inúmeros clássicos que ficaram eternizados na voz de Ângela, tais como: “A Noite do Meu Bem”, “Vá, Mas Volte” e “Um Tango Para Teresa”. Short aproveitou também para fazer críticas ao mundinho fedorento da atual axé, à falta de patrocínio, à mídia baiana que nunca apoia projetos de artistas não tão midiáticos e afirmou ainda que a ideia do projeto era justamente reverenciar a importância de Ângela e toda sua influência na música popular brasileira.

E, no palco do TCA, mais uma vez, pudemos conferir, com uma iluminação maravilhosa, a baiana Márcia Short reverenciando a cantora fluminense desde o seu figurino, inspirado nos trajes que Ângela utilizava nos tempos áureos em que encantava todos com sua voz na Rádio Mayrick Veiga (*alias, o show começa justamente com uma locução típica da época. E o tributo a Ângela Maria, uma cantora que honra o Brasil desde a segunda metade do século XX como uma das maiores vozes femininas da história da música nacional, extravasa na emoção de Márcia no palco e nos gritos calorosos da plateia.

SAPOTI – O nome do show, “Sapoti”, não poderia ser melhor. Sapoti era o apelido de Ângela, dado, segundo a lenda, pelo presidente Getúlio Vargas, mas Sapoti também é uma fruta de gosto peculiar e cor brasileiríssima, que simboliza toda essa moreniçe brejeira. Nada mais adequado, portanto, que batizar o show com o nome da fruta que tão bem representa à homenageada.

E o público parece ter captado a mensagem, pois muitos estavam interagindo com sorrisos de felicidade, inclusive esse que agora escreve. Márcia retribuiu cantando mais clássicos como “Gente Humilde”, revisitado de forma singular. E num mundo em que “esquemas” articulam-se para produzir hits sob medida apenas para o mercado, “Sapoti” é um alento para quem ainda gosta de boa música. Com direção artística de André Simões (ex-Roda Baiana), o namoradão da maravilhosa repórter Karina Araújo, e direção musical de Gerson Silva, a alquimia que transforma a força que se expressa num trio elétrico na intensidade de um repertório passional é legítima.

Márcia Short

E a filha de Ana Nanci, a primeira soprano da Rádio Sociedade da Bahia, confessou que sempre ouviu a mãe cantando Ângela Maria. Nanci acabou não seguindo a carreira e trabalhou também como lavadeira, empregada doméstica e vendedora de acarajé, na guerra para criar seis filhos. Mas Márcia herdou o dom de cantar. E desse ainda que também ajudou a vender acarajé. Perdemos uma vendedora, mas, felizmente, ganhamos uma excelente cantora.

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BABALU – Foi o compositor Moá Bonfim quem descobriu que Márcia cantava. E Edu Casanova quem a convidou para subir num trio pela primeira vez. Nunca mais desceu: depois vieram o Papa-léguas, a Banda Mel, a Bandabah e a carreira solo. Assim como Ângela imprimiu sua verve na música “Babalu”, Márcia fez de “Crença e Fé”, seu mega-hit da época da Banda Mel, o seu “babalu”. É  só cantar  “Vou dar a volta no mundo, vou ver o mundo girar” que o mundo fica a seus pés.

Mas tem consciência que muitos não associam essa música a ela. “Sou o fantasminha camarada, as pessoas conhecem a minha voz. Naquela época, os contratantes não promoviam as pessoas”. E na tenebrosa época atual, há outros desafios. No fim do ano passado, chegou a anunciar pelo Facebook que tinha vontade de sair da Bahia. A seu ver, a divisão de renda da área cultural precisa ser mais justa. “A gente precisa parar de catar migalhas que caem da mesa dos outros, da farta mesa da cultura”.

RACISMO – O racismo é outra questão de fundo de olho: “Olha o cenário musical, quantos negros temos em situação digna? Só tem Brown aqui? Ele é brilhante, é o nosso mestre, mas ele puxa uma corda extensa”. Filha de Iansã e Xangô, Márcia não tolera injustiça ou intolerância. “Se alguém bate em menino, eu vou lá; com idosos, é a mesma coisa; briga de casal, chamo a polícia. Eu sou este vulcão”. Porém, mais que que investir no visual, a baiana conseguiu fazer o mais importante: incorporar, com a energia singular de seu timbre, o espírito e o talento de Ângela. E se a axé-music ainda impede a livre expressão de outras tendências culturais em Salvador, com o mesmo cinismo quer impor sua reserva de mercado até em cidades cuja maioria da população não é naturalmente receptiva a esse estilo, com esse show em homenagem a Ângela Maria, Márcia transgride a ordem vigente de fazer o que todo mundo anda fazendo.

FIM DO AXÉ? – E não é à toa que a “velha grande mídia” e as agências de publicidade igualmente decadentes andam veiculando a todo momento campanhas para atrair gente para o Carnaval baiano. Nos últimos anos, a elite da axé-music iniciou sua séria crise ao descuidar de seu mercado interno na busca obsessiva de outras reservas de mercado. Enquanto a axé-music é vista, no resto do País, como mais uma tendência neo-brega existente no Brasil, em Salvador ela recebe o tratamento de um “ritmo de elite”, tamanha é a fortuna e a fama de seus medalhões e tamanho o poderio econômico dos blocos carnavalescos. Talvez por isso que nomes como Chiclete Com Banana, que se apresenta nos melhores locais na capital baiana, no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, tem que se contentar com casas de espetáculos modestas, localizadas na Baixada Fluminense, no subúrbio carioca ou em São Gonçalo. Quando muito, uma emissora de rádio patrocina o grupo de Bell “chatinho” Marques e o coloca no Citibank Hall (antigo Metropolitan, antigo ATL Hall), na Barra da Tijuca, no Rio.

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Márcia Short

A queridinha da Globo, Ivete Sangalo, então, parece uma versão piorada de Caetano Veloso quando se refere à apropriação dos mais diversos estilos e tendências musicais. Caetano, com todo o seu pretensiosismo, pelo menos tem algum conhecimento de causa, sua inteligência é inegável neste sentido. Mas Ivete, sem a inteligência criativa do cantor-autor de “Alegria, Alegria”, tão somente se apropria dos outros estilos pelo puro gosto de oportunismo. É uma excelente interprete, mas agora vai ser transformada em atriz pela Globo.

Dessa forma, a axé-music anda cansando. Já chegou-se ao fundo do poço quando grupos de última categoria como como Leva Nóiz, 7495, É o Tchan lançam músicas de péssima qualidade, com letras eróticas envolvendo personagens em quadrinhos, músicas já adaptadas pelos grupos de “pagodão”. E a culpa vai para um mercado liderado pelos “grandes” da axé-music, porque estes criaram todo um “sistema de valores” que acabou resultando nessa baixaria toda.

Talvez, por isso, os abadás, fontes de renda dos grandes blocos carnavalescos, tiveram recentemente uma queda de 30% nas vendas. Uma rede de lojas de varejo teve que fazer uma promoção para levar premiados a curtir o Carnaval com adadás do bloco Eva. Sem falar da propaganda do evento já mencionada e em alta rotação até na TV paga.

No meio do caminho, até o “pai da axé-music”, Luiz Caldas (*que por sinal é um excelente músico, mas se negou a uma simples entrevista aqui no blog), se aproveita de seu ostracismo para se juntar à legião de “coitadinhos” que se julga “discriminada” pela velha grande mídia mesmo quando nela aparece. E, dentro da mediocridade cultural reinante e avassaladora, o cantor de “Fricote” se autopromove como um pretenso “grande gênio” da nossa música, um truque demagógico que fez Michael Sullivan voltar às rádios e fez a rapaziada chorar demais com a morte de Wando. Mas parece que a mediocrização cultural, num mundo em transformações, começa a se desgastar. Que venham enchentes de lágrimas em prol dos “coitados” de hoje e amanhã. Talvez os medalhões da axé-music, quando virem a sombra do ostracismo chegando aos seus pés, venham também a posar de “coitadinhos” e “sem mídia”. Mas até esse truque vai cansar.

Márcia Short

Salvador pode sim ter ter um cenário de rock, de blues, de MPB autêntica, de reggae, de afoxé. Mas se não houver uma “apropriação” por parte dos intérpretes de axé-music, nada feito. Os baianos de outros estilos que procurem um mercado em Recife, Belo Horizonte, Florianópolis e São Paulo. Em suma, Viva a Ângela Maria, Márcia Short! E já estamos esperando um CD Ao Vivo da Márcia cantando Ângela. Galera, que show lindo. Tudo massa! Luz, a banda e até o cílios para Márcia “vê melhor o mundo”. Quando essa galera do axé resolve fazer outras coisas, aí é que eu tenho certeza da perda total de tempo e desperdício de talento. Só faltou a Claudia Leitte no teatro para aprender a cantar e fazer um bom show. Agora, só espero que esse show de Márcia Short seja o começo de vários espetáculos maravilhosos para enterrar de vez essa mediocridade que teima em contaminar os artistas baianos. Mas se eu for preso por tá baixando os CDs da Ângela, a Márcia foi a culpada!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.








Uma resposta para “Márcia Short e o show Sapoti”

  1. “a deslumbrante Márcia Short homenageia a Ângela com um show maravilhoso, de fazer gringos, baianos e perturbados caírem os queixos”
    verdade. é um bom momento da Márcia que assim leva seu canto ao sentido bom da MPB e pode desde já trilhar rumos importantes para sua carreira e seu talento.

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