Família, de Guilherme Reis – Cabine Cultural
Cinema

Família, de Guilherme Reis

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Família

Família – um bom exemplo de longa vindo de Belo Horizonte

Uma mãe, viúva, e seus três filhos: dois rapazes e uma moça, a caçula. Todos vivendo na cidade de Belo Horizonte.

A mãe, apesar da idade, é uma senhora ativa, sai sozinha, vai à feira para fazer compras e, aparentemente, tem uma saúde boa, apesar de estar com o açúcar alto, provavelmente devido o fato de não controlar o vício de comer sonhos, todos os dias. O filho mais velho não só é corretor como também é o síndico do condomínio no qual ele – junto à esposa e filhas – mora e, além de ser aquele que tenta agir de maneira mais racional, ele é o mais pé no chão da família, inclusive cuidando das finanças da casa da mãe, função esta que, muitas vezes, pode lhe conceber a fama, talvez injusta, de chato.  Já o outro filho, um estudante de Sociologia, trabalha numa ONG e tem, no momento, o objetivo de ir a um congresso no Equador pois crê, categoricamente, que essa viagem vai ser um divisor de águas, não só na sua vida acadêmica como também pessoal, entretanto, não tem nem um cartão de crédito para comprar as passagens para fora do Brasil. E, por fim, a filha Doroti, que não faz absolutamente nada em casa, nem mesmo se levantar do sofá para abrir uma porta – função que deixa para a mãe. Entretanto, tem alguns objetivos na vida, como pintar o cabelo de uma forma que fique semelhante ao cabelo das atrizes da televisão, aprender forró e, sua principal meta, desenhar roupas e ser estilista, apesar de não fazer quase nada para atingir seu objetivo, já que nem um curso pré-vestibular ela se dispõe a fazer.

O enredo de FAMÍLIA concentra-se na vida desses quatro personagens principais, uma vez ou outra abrindo espaço para alguns personagens secundários, porém, toda a ênfase é dada, em quase uma hora e meia de filme, nessas quatro pessoas. O filme praticamente não tem trilha sonora e o fato de, aparentemente, as sequencias não se conectarem uma nas outras pode ser algo que impeça muitos espectadores de continuarem assistindo esse filme do diretor mineiro Guilherme Reis. Porém, é exatamente essa aparente descontinuidade que dá todo o barato de assistir FAMÍLIA. O que, nos primeiros dez, quinze minutos iniciais, parece ser o grande problema do filme, termina sendo, sim, a grande qualidade dele: uma narrativa que está em um caminho totalmente diverso de tudo aquilo que estamos acostumados a ver, tanto no cinema nacional quanto no cinema estrangeiro.

Injustamente, o filme não foi aceito em nenhum festival (pelo menos, até o momento deste texto ser publicado), o que nos mostra o quanto os nossos curadores ainda encontram-se um tanto quanto indispostos a aceitar algo novo, algo diferente, completamente bitolados ao que é comum, costumeiro. E afirmo: nada contra o que é costumeiramente produzido no Brasil, em termos de audiovisual – meus filmes, normalmente, seguem, inclusive, uma narrativa chamada de, digamos, clássica, tradicional. Contudo, é necessário que aqueles que estão à frente dos grandes e pequenos festivais de cinema, no Brasil, atentem – e aceitem – o diferente.

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E FAMÍLIA é um bom exemplo de um cinema feito de forma diferente. Um enredo que, inicialmente, parece ser difícil de acompanhar vai, gradativamente, não só nos conquistando como também nos envolvendo ao ponto de querermos saber mais sobre aqueles personagens ou, ainda, saber como se dará o desfecho de cada uma daquelas situações vividas por aquela família: o açúcar de Dona Augusta vai piorar, já que a mesma tanto assiste novelas como come doces? Doroti vai perceber que precisar acordar para a vida e, mais importante, vai perceber que ela não vive e precisa viver? Até quando Malton vai suportar os problemas familiares e profissionais? E Jhonata, vai para o Equador ou, pelo menos, vai conseguir a grana para fazer a inscrição no tal congresso, já que nem essa grana ele tem?

A equipe desse longa é, praticamente, toda de Minas Gerais. O próprio diretor e atores principais são de Belo Horizonte. Inclusive, no elenco, há a presença de Odilon Esteves, que já esteve no excelente filme BATISMO DE SANGUE, de Helvécio Ratton, além de ter sido o travesti Cíntia, da minissérie global QUERIDOS AMIGOS.

Guilherme Reis, por sua vez, roteirista e diretor do filme, alem de dividir a edição com Odilon, e acumular outras funções técnicas no filme tem, em FAMÍLIA, seu primeiro longa metragem. Entretanto, ele já tem uma trajetória como diretor de curtas. Guilherme afirma que planejou fazer esse filme focado na força dos atores (e, evidentemente, na força que cada um daqueles personagens têm) tendo, como fio condutor narrativo, as histórias do cotidiano. Daí não só ser aceitável como coerente uma longa sequência em que Doroti entra na farmácia e não sabe ao certo que tipo de produto para o cabelo ela irá comprar. Para muitos, uma sequência desnecessariamente longa. Porém, está ali, retratado, naquele momento (como em outros, no decorrer da história) o cotidiano daquele personagem: entrar numa farmácia e levar inúmeros minutos questionando o vendedor sobre esse ou aquele produto capilar faz parte do cotidiano daquele personagem. O diretor ainda afirma que o cinema independente, de baixo orçamento, com histórias quase que totalmente concentradas nos personagens, no cotidiano dos personagens, como era o cinema de John Cassavetes, foi a principal influência de FAMÍLIA.

De fato, FAMÍLIA teve um orçamento baixo, tem uma narrativa exclusivamente concentrada no cotidiano dos personagens, e tem aquela “pegada” de cinema de guerrilha, no qual todos – técnicos e atores – curtem o projeto e se comprometem em concretizar aquele sonho, mesmo sem receber um centavo de cachê, como foi o caso de FAMÍLIA e de tantos filmes produzidos aqui na Bahia, inclusive os meus!

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Só por essa iniciativa, já vale muito a pena conhecer essa produção que vem lá de Minas Gerais. Contudo, ao assistir FAMÍLIA, teremos a chance de, em vários momentos, lembrarmos da nossa família e da nossa relação e dos nossos posicionamentos perante essa nossa família.

Por fim, não posso deixar de mencionar o ótimo trabalho de todo o elenco, inclusive dos atores secundários. Os atores que fazem os componentes familiares estão ótimos, possuidores de uma naturalidade muito bem vinda à história. O ator Renato Parara, que faz o irmão mais velho, em vários momentos do filme, consegue deixar tão clara a incredulidade com que ele vê a forma como seus familiares encaram os problemas do dia a dia quando, mesmo com várias questões financeiras a serem resolvidas mas, mesmo assim, eles cogitam viagem ao exterior ou pensam em  aumentar o pacote da TV por  assinatura ou, ainda, se dão ao luxo de continuar em casa, sem trabalhar ou sequer estudar.

Odilon constrói seu Jhonata como um cara não só sonhador, mas como alguém que, de fato, sabe o que está acontecendo ao seu redor, não sendo só aquele estudante de Ciências Humanas que dá-se por satisfeito em promover discussões acadêmicas sem, contudo, levar todas essas discussões à prática. Parabéns a Renato Parara e a Odilon Esteves por tão coerentes e coesas construções dramatúrgicas. Gisele Werneck faz Doroti tão bem que não conseguimos sentir antipatia por aquele ser tão aparentemente desconectado da realidade do mundo. Suas cenas são boas e, graças à atriz, podemos perceber o quanto, para o personagem, é mais confortável se manter naquele estado de prostração, tendo como compromisso inadiável assistir, todas as noites, uma novela chamada Direito de Amar, na qual ela, muito provavelmente, projeta todos os seus sonhos para a heroína daquela trama, como uma forma de se defender da realidade que está à sua porta, realidade muito além das imagens daquela novela.

Família, de Guilherme Reis

E Neuza Rocha, que faz a doce matriarca da família, Dona Augusta. Como não se encantar por uma pessoa tão doce? Como não “fechar os olhos” a cada sonho que ela come, escondida dos filhos? A atuação de Neuza é doce, sim, posso até afirmar que é de uma candura maravilhosa de ser assistida. Porem, percebemos, com muita facilidade, a força daquela mãe, basta citar a cena em que, ao telefone, mesmo sob os prováveis protestos do filho mais velho, no outro lado da linha, ela afirma, categoricamente (mas, com doçura) que Jhonata também é seu filho e que ela o ajudará a ir ao tal congresso. Ao ver a Dona Augusta de Neuza Rocha, sentimos uma vontade imensa de que nunca a nossa mãe parta para uma outra dimensão. A última cena, então… Belíssima!

FAMÍLIA é um filme mineiro, um filme brasileiro. E todos nós, que curtimos e trabalhamos com cinema, temos a obrigação de estarmos disponíveis a conhecer o que é feito de novo, de diferente, ou o que não é tão diferente assim, mas que não é o comum produzido, cotidianamente, na indústria do cinema do nosso país e do mundo. FAMÍLIA é isso: um filme muito bem feito, muito bem interpretado e dirigido, sem maiores pretensões em planos de filmagens mirabolantes, com um câmera quase sempre parada ou em contidos movimentos, mas que tem sua grande força no roteiro e na atuação do seu elenco.

Um filme que, como já afirmei, merece ser conhecido e visto.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colaborador do Cabine Cultural.



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