Jards – Ouvindo Para Ver Melhor – Cabine Cultural
Cinema

Jards – Ouvindo Para Ver Melhor

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Jards

Jards é um desses filmes de grande intensidade imagética, sem preocupações aparentes em explicar o que está sendo visto ou interesse em buscar conectar linearmente os fatos para gerar uma narrativa convencional. O espectador médio vai provavelmente achar tedioso, enfadonho, um quase sonífero, o apreciador de cinema talvez ache estranho, incômodo, quase delirante e o cinéfilo empedernido quem sabe enquadrará logo no gênero experimental, com um viés transgressor e vanguardista, quase vídeo arte. Antes de assistir ao filme sabia que se tratava do registro da gravação de um disco do cantor e compositor Jards Macalé feito por Erik Rocha, diretor de obras marcadamente autorais, filho de Glauber Rocha.

Jards

Depois de assistir eu continuava sabendo apenas disso e digamos logo que não se trata de uma nota necessariamente negativa mas apenas a constatação de que a horizontalidade racional é cortada pela verticalidade dos apelos sensoriais imagéticos e sonoros que somos convidados a mergulhar ao longo das cenas. Praticamente o tempo inteiro a câmera está colada ao cantor, registrando suas performances vocais, sua interação com as outras pessoas no estúdio, seus gestos e seus silêncios. Jards Macalé é único mas aparece múltiplo pelas imagens em silhuetas, em preto e branco, em filmes antigos, saindo da luz, voltando das sombras.

O filme é também intensamente sonoro, como não poderia deixar de ser e se não há concessão nem para a identificação imediata de quem está falando, podemos identificar figuras conhecidas como Adriana Calcanhotto, Luiz Melodia e Frejat assim como fiquei particularmente satisfeito em ver o grande sambista Elton Medeiros, parceiro de Paulinho da Viola, portando sua velha caixinha de fósforos percussiva e entoando com Macalé o clássico Juízo Final de Nelson Cavaquinho, em um grande momento do filme. Jards é um desses filmes que se tiver de passar por um crivo avaliativo formal vai parecer com aquela história do copo pela metade. Ele está meio cheio ou meio vazio? Para mim esse filme aponta para uma resposta tão pouco convencional quanto a sua própria natureza: os dois.

Josival Nunes é escritor, cineasta e colaborador do Cabine Cultural.

 


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