Entrevista Maviael Melo
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Entrevista – Maviael Melo

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Maviael Melo

A poesia é a minha prática de vida. É a minha maneira de estar vivo, com ou sem direito, útil ou inútil, mas com o estômago cheio de vazios necessários para a fome. Meu interesse sempre foi pela arte e, por esse motivo, me interessa a vida em sua totalidade, os poetas mortos, as palavras bem ditas e as cabeças interessantes do meu tempo. Nela, tudo está entrelaçado: religião, ciência, arte, filosofia. Com o tempo, vejo menos e menos distâncias entre cada coisa, porque me vejo menos separando o todo em partes. Menos separando a arte em artes. Os gregos sabiam que, no teatro, na literatura, na música, tudo é poesia: tudo é um.

Por isso mesmo, um dos poucos poetas mais interessantes da atualidade surge nessa entrevista exclusiva, que me honra muito pela delicadeza e por sua atitude de se mostrar como artista, num tempo em que artistas passaram a ser sinônimos de mercenários – no sentido mais feio que a palavra possa ter.

Maviael Melo

Maviael Melo é um pernambucano de Iguaracy, tem 43 anos, criado nas águas do Velho Chico. Adotou Petrolina como sua desde 1978, mas reside atualmente em Salvador. Músico, poeta, cordelista e ser pensante atuante. Radicado na Bahia há cerca de dois anos, sempre conectado à vida cultural de Pernambuco através da internet ou através da participação em eventos de cantoria e recitação. Já se apresentou em diversas cidades de Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio de Janeiro, dentre outros estados.

Aos 14 anos, o jovem Maviael decidiu tocar em barzinhos, colocando assim, em prática, tudo o que havia ensaiado e aprendido com o pai desde criança. Tempos depois, já como pedagogo por formação, passou a escrever canções, que são uma mistura de música e poesia. Já conhecido pelo seu público, canta há 20 anos e tem várias premiações em festivais. Em suas apresentações, o que mais chama atenção são as suas performances, não só como compositor e intérprete, mas também como um declamador marcante de cordéis de sua autoria e de outros poetas. Só falta agora ele declamar um poema desse estrevistador que, por sinal, ama as poesias de livros como “Viagem de Lotação” (2005); “A chegada de Manuel Filó no céu e a Peleja com Antonio Marinho” (2005) e o lindo “O Cordel das Águas” (2007).

Maviael Melo

Atualmente, além de cuidar da sua carreira artística Maviael vem trabalhando como arte-educador ambiental, trabalho este que, segundo o próprio, o tem gratificado muito. As canções, poesias e cordéis de Maviael são expressões críticas com vidas próprias que fazem parte da vida do cantor, compositor e cordelista, mas que também arrebatam as nossas almas carentes de bons artistas. Para ele, uma das maiores dificuldades pessoais que enfrenta é conviver com a saudade quando está longe de casa fazendo shows. “Uma dificuldade é a saudade que ‘você’ sente de casa, mas tem que aprender conviver com ela… Inclusive é dela que me abasteço para fazer poesia e canção”, confessa o artista.

Recentemente,  Maviael acabou de relançar o seu terceiro livro “Ciclos” e o primeiro DVD de sua carreira “Entre Versos e Canções”. Mas divide seu tempo entre seus três filhos; oficinas de literatura de cordel, feiras de livros e festivais. Além do violão que sempre carrega nas costas, o artista leva algo muito mais valioso por onde vai, o discurso de um nordestino que luta por aquilo que acredita e se sente honrado pelo que faz. “A arte escolhe a gente, escolhe cada um de nós e a gente decide se acredita ou não”, diz encerrando a entrevista.

Elenilson – No seu site tem que o senhor “é pernambucano de nascimento, pedagogo de formação constante e apaixonado por poesia e cordel”, como foi a sua caminhada até chegar na Poesia?
Maviael Melo – Primeiro vamos deixar o Senhor no Céu, que ele é quem nos guia nessa caminhada, acho que foi assim minha caminhada, sempre agradecendo e louvando em meus versos, levando nas canções palavras que falem de coisas boas, de sentimentos bons, assim vou formando a cada dia um jeito mais leve de conduzir essa nossa pena de escrever versos e compartilhar risos.

Maviael Melo

Elenilson – O que é ser chamado de “matuto letrado”? 
Maviael Melo – A principio matuto é um caboclo que já nasce letrado, letrado nas coisas da vida, do bom caminhar, do saber labutar com as agruras constantes da maioria de realidade matuta. Acho que matuto letrado é um adjetivo comum na minha terra, normalmente é gente do bem!

Elenilson – Lançar a segunda edição de um livro cheio de gritos como “Ciclos”, que resgata poemas que ficaram guardados a sete chaves ao longo da sua jornada – como folhas caídas nas estradas – e que revelam muito sobre o autor não é uma coisa meio clichê hoje em dia não?
Maviael Melo – Rapaz, pra falar a verdade, acho que não. Eu sou poeta e assim como o padeiro vende pão, o leiteiro vende leite, o açougueiro vende carne, o psicólogo vende palavras que se pretendem ajudar outras pessoas, o poeta vende versos… vive  versos diariamente, é a minha jornada de trabalho diário, como você disse o meu grito a minha voz e não acho clichê soltar a voz, é necessário às vezes falar.

Elenilson – O senhor é autor do “Cordel das Águas”, publicação feita pelo Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia – INGÁ, com mais de 50 mil cópias distribuídas nas escolas públicas de todo o Estado. Será que, hoje em dia, o pico de um autor é ser editado e distribuído por algum órgão do governo?
Maviael Melo – Depende muito. O “Cordel das Águas” foi uma publicação institucional, direcionada para as atividades de Educação Ambiental do INGÀ, por isso o PICO. Mas nem sempre significa, a gente não tem como definir o pico de nada, o ser humano é muito mutável, o que hoje é riso, pode amanhã ser choro. O pico do autor é quando ele escreve independente de saber até onde vai a palavra escrita.

Maviael Melo

Elenilson – Como foi a ideia de disponibilizar o seu livro “Ciclos” no seu site para download?
Maviael Melo – A gente já disponibiliza as poesias nas nossas páginas, do Facebook, no blog e no site, como a tiragem do livro é limitada, mesmo sendo um projeto aprovado pelo Governo do Estado de Pernambuco, resolvemos disponibilizá-lo completo em PDF e o CD de áudio em MP3. É uma contrapartida nossa por ter feito o livro com verba pública, assim como foram distribuídos 300 livros em bibliotecas das escolas publicas do Estado.

Elenilson – O senhor é um dos poucos poetas nessa província que ainda tem espaço na mídia. Como é conciliar trabalhos tão diferentes (poeta, músico e produtor de si mesmo) numa cidade que não valoriza a poesia?
Maviael Melo – E quem disse que a cidade não valoriza a poesia? É fato, existe uma poesia feia pelos ares, mas não é a única, talvez a que a grande mídia tenta convencer que é o popular, mas as pessoas logo esquecem, e eles jogam outra, e outra, mas não podemos dizer que a cidade não valoriza a poesia, talvez os acessos e espaços ainda estejam em construção. Existe um público e a prova disso são os eventos culturais crescentes. Conciliar as atividades é uma coisa natural, acho que quando vim pra cá, já havia vivido algumas experiências administrativas e com produção, quando de fato o tempo das palavras me chamou, eu fiz da poesia e da canção minha lida diária e como todo profissional, tenho meus horários de trabalho. Não adianta fazer a poesia se o objetivo não for mostrá-la, declamá-la. “ Lugar de poesia é na calçada” já dizia Sergio Sampaio. Contudo pra isso é necessário seriedade, dedicação e organização, o tempo dos poetas loucos, foi o tempo deles. A loucura nossa é do Pajéu. Na minha terra pra ser louco tem que ser inteligente.

Maviael Melo

Elenilson – Seus shows sempre são recheados de poesias e cordéis, além de belas músicas, que já lhe renderam diversas premiações em festivais. Premiações ainda são coisas necessárias na vida de um cara tão ligado às artes?
Maviael Melo – Os festivais de músicas e poesias, assim como os bares em que toquei por quase 20 anos, foram escolas pra o que hoje faço no palco, ser premiado é sempre bom, mas os maiores prêmios que recebi, foram às dezenas de amigos cantadores que fiz em cada viagem pra festival. Meu premio hoje é ver um sorriso ou um olhar de encanto por uma música ou um verso.

Elenilson – Como é feita a direção do seu trabalho? É uma autodireção?
Maviael Melo – Podemos dizer que sim, mas escuto muito os músicos com quem trabalho, a minha equipe é de amigos.

Elenilson – Para o senhor, quem é o Zé Buscapé da literatura que cuida das galinhas de Virgilio para entrar na ABL?
Maviael Melo – Esse é um assunto que não posso me expressar a respeito, pois não tenho conhecimento de fato. Para quem faz a poesia popular a Academia Brasileira de Letras é o pé de parede, a cantoria na varanda, os repentistas das feiras, dos congressos e o povo que aprecia.

Elenilson – O senhor não acha que a literatura contemporânea está em crise?
Maviael Melo – Não acho que esteja em crise, acho que de certa forma, quem cresceu educado na leitura, é muito mais exigente, acho que existe uma literatura nova, que a meu entender deve buscar o encanto dos novos leitores, líamos mais á nossa época.

Elenilson – Por que é tão difícil fazer literatura no Brasil? O que está faltando para as coisas acontecerem?
Maviael Melo – A literatura brasileira é uma das mais ricas e belas do mundo. Acredito que a falta do incentivo maior a leitura, livro é um troço caro hoje, então acho que quando a gente puder ter livros por preços menores, subsidiados não só pelo estado, mas também pelos empresários, a iniciativa privada precisa acreditar no patrocínio a projetos culturais como fator de crescimento dos seus consumidores gerais. Já existem editais, é necessário aumentar a tiragem. Então pra quem faz literatura independente é difícil fazer um livro bem editorado, sem contar que as editoras são empresas com fins lucrativos e pelo nome, vivem do capital produtivo dos seus livros, assim como os empresários que preferem patrocinar festas de camisa, com musicas de poesias “tristes”, do que a projetos culturais, o nosso publico ainda é pouco pras suas marcas.

Elenilson – Esse seu livro “Ciclos” está tendo repercussão porque o senhor é um antigo (e querido) conhecido no meio cultural e pela sua contribuição nessa província chamada Bahia. Como o senhor encara essa situação da cultura desprezada até por aqueles que deveriam incentivá-la?
Maviael Melo – A cultura forma pensamentos, isso deve preocupar quem tem medo da verdade, quem por gestão deve incentivar. Por isso acho que é também uma atividade de quem a faz, ir às escolas, sempre que possível. Já percebemos o real interesse cultural de quem produz a “cultura de massa”, eu já algum tempo parei de reclamar, escrevo meus projetos, minhas oficinas e em cada projeto o foco é a escola, pois é o espaço de transformação, se numa prosa com 40 jovens, um ou dois saiam da aula querendo saber mais, a gente vai caminhando.  Acho que por isso o livro tem sido bem aceito, não queremos a arte só pela premiação e sucesso, a nossa arte deseja um mundo melhor, sem desprezo de nada. Nem da cultura, nem do pobre, nem da mulher, nem do homem, criança ou adolescente, quer somente falar de um sentimento nosso.

Maviael Melo

Elenilson – O senhor acha que falta às autoridades abrirem os olhos e ver o quanto é importante a cultura para o nosso País ou isso é querer demais – uma utopia?
Maviael Melo – Elas sabem disso, o Brasil ainda está em construção, passamos centenas de anos sendo colonizados por ninguém, e ainda temos muito dessa colonização sem cara. Ainda tem muita gente de olho fechado, com medo de ser vista, tem cargos e cargos, funções e funções. Por ser poeta sou utópico, e acredito que a nossa cultura será reconhecida, e já existem trilhas, mas somente de utopia não vai, acho que quando a nossa militância cultural for mais unida e comprometida realmente com o crescimento dela, a utopia permanecerá, mas com metas estabelecidas.

Elenilson – É bom lembrar que a iniciativa privada também tem responsabilidade, igual a qualquer governante. Tem que patrocinar escritores, cineastas, cantores, compositores e as produções culturais. É uma negligência dos empresários achar que não devem patrocinar a cultura. E a culpa é também dos artistas, que não se manifestam. Para que o Brasil seja um centro de cultura todos têm que abrir os olhos. Comenta.
Maviael Melo – Sim, acho que o empresariado precisa investir mais na cultura, mas como disse antes, as grandes marcas querem está em exposição, em eventos que juntem as pessoas em milhares, a cultura popular não vai juntar milhares, o objetivo dessa cultura de massa é somente divertir, entreter e “alienar” aos que se deixam, as pessoas vão em efeito manada, a cultura popular quer tocar, fazer sentir, transformar.

Elenilson – A literatura foi uma descoberta tardia em sua vida?
Maviael Melo – Eu comecei a ler desde os sete anos, os livretos de cordel que meu pai comprava, e sou de uma época que a gente lia o livro mesmo, não copiava a resenha no Google, então eu já nasci num ambiente literário, meu pai se comunicava com os meus tios escrevendo cordéis, a literatura me acompanhou esse tempo todo, eu um mero apreciador e curioso, quando resolvi escrever meu primeiro livro, foi uma forma na época de falar o que não conseguia dizer em oralidades, a descoberta literária é sempre no tempo dela.

Maviael Melo

Elenilson – Mas num País de analfabetos, como é o caso do Brasil, não acha que pelo menos o senhor conseguiu ser diferente da grande massa? O ex-presidente-idolatrado-salve-salve Lula já disse que leitura lhe dá azia. Comenta.
Maviael Melo – Pelo menos eu? Antonio Marinho, Lupeu Lacerda  e mais uma centena de poetas novos que escrevem acreditando que o Pais de analfabetos já foi muito mais analfabeto, que ainda tem muito cartilha pra ler. Acho que Lula não disse isso, não ouvi. Lula é Um Matuto Letrado.

Elenilson – Falando em governo, o governo, qualquer governo, faz mal à imprensa. A imprensa, toda a imprensa, faz bem ao governo – principalmente quando critica. Governo não precisa do “sim” de imprensa nenhuma. Governo evolui com o “não” da imprensa. Contudo, esse governo do PT do Lula/Dilma acha justamente o oposto. Comenta.
Maviael Melo – Eu acho que esse é um tópico de varias linhas, e de muito pano pra manga. Nem sempre o Governo faz mal a imprensa e vice versa. Para falar a verdade temos hoje um governo bipolar, os conceitos de esquerda e direita se misturam, de acordo com as necessidades e interesses, assim também com sempre foi na imprensa, a depender do interesse, a matéria sai de sim ou de não.

Elenilson – O que o senhor pensa sobre as leis de incentivo a arte (Rouanet, Mendonça, etc…)? Elas realmente funcionam?
Maviael Melo – Na Lei Rouanet aprovei um projeto de um CD há dois anos, mas captar recurso não é coisa pra o musico fazer, e as grandes marcas como disse, preferem entrar pela lei, quando são eventos grandes, e isso inviabiliza a lei pra quem faz projetos culturais, a capitação é muito burocrática, pois inviabilizam pequenos projetos. Já os prêmios do MINC, através da Funarte e os prêmios da Fundação Cultural, pelo menos a daqui da Bahia e a de Pernambuco funcionam sim, eu já participei de vários projetos com financiamento do governo, acho somente que ainda falta simplificar os processos e ampliar ainda mais os editais.

Maviael Melo

Elenilson – Para mim, fazer poesia sempre foi uma necessidade atávica, indispensável para não enlouquecer em meio à balbúrdia. E para o senhor?
Maviael Melo – Um bom vício, um exercício diário de brincar com as palavras, às vezes elas vêm como necessidade de chorar em letras, mais na sua maioria uma forma de viver num país tão maltratado, onde percebemos jovens acreditando que levantar a patinha, ralar a theca é a música, e ainda acreditam porque são vítimas de um processo de alienação de massa, onde a grande mídia afirma que um tal de Michel Teló é o maior fenômeno da música brasileira, vem de forma indispensável pra que a gente possa manifestar o nosso pensamento de que podemos fazer pela gente. Fazer poesia pra mim é o meio pra aprender, formar, informar, falando de temas diversos, sexualidade, de violência contra mulher, de drogas, de política e politicagem. É a minha ferramenta de seguir nessa vida pelo o mundo que acredito está a nossa frente. De pessoas melhores, humanas.

Elenilson – É possível viver exclusivamente de literatura no Brasil? Qual seria a melhor alternativa para aqueles que sonham em viver da escrita?
Maviael Melo – É possível sim, contanto que a literatura não seja apenas pelo sucesso, pela fama, que saia do livro, pra escolas, pros palcos, pras prosas, viva.

Elenilson – O sistema educacional brasileiro de hoje favorece a um cara da periferia das grandes cidades ou lá do “cu do mundo” a querer fazer literatura?
Maviael Melo – Bom, se esse cara quiser fazer literatura, ele faz. Mas pra isso ele tem que se cuidar, o sistema está posto, sempre esteve, de uma forma a algum tempo e de outra hoje, certamente de outra amanhã, e em cada tempo desse fizeram-se literatos e poetas.

Elenilson – Definir-se como artista não soa pretensioso ou pejorativo no Brasil?
Maviael Melo – Eu não sou artista!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.

 


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