Amantes Passageiros – Cabine Cultural
Cinema

Amantes Passageiros

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Os Amantes Passageiros

O mais novo filme com direção e roteiro de Pedro Almodóvar, Amantes Passageiros é uma comédia espanhola hilariante escrachada mesmo, bem diferente dos seus últimos filmes dramáticos, Abraços Partidos e A Pele que Habito.

O filme é praticamente passado dentro de um avião em pleno voo de Madrid para o México, com três comissários de bordo como personagens, tentando entreter os passageiros da classe executiva, numa situação singular, o avião com problema técnico que fica dando voltas à espera de autorização para um pouso de emergência. Diante desta situação fora de controle, os comissários de bordo, gays assumidos e tipos estereotipados e engraçados, se enchem de bebidas, drogas, fazendo o mesmo com os passageiros da classe executiva, pois os da classe econômica são nivelados por baixo, estão todos a dormir devido a  efeito de um sonífero dado pela própria tripulação.

Os passageiros alterados, sentindo-se com horas contadas de vida, o desespero tomando conta e através do álcool e  mescalina, dão lugar às confissões sobre seus segredos e seus últimos desejos. Temos um casal em lua de mel, um financeiro fraudulento, uma vidente virgem, um D. Juan inveterado,  uma rainha sadomasoquista do jet set, e por aí vai. Vários tipos diferentes, onde Almodóvar com seu humor ácido não economiza nas piadas chulas, todos interagindo no mesmo ambiente dentro do avião com interpretações afetadas, chegando ao caricato.

Junta-se a esta chanchada espirituosa um colorido vibrante, inclusive os primeiros créditos do filme é  apresentado como uma história em quadrinhos, com muitos ritmos presentes, fazendo-nos lembrar o Almodóvar de seus primeiros filmes  nos anos 80, como Maus Hábitos, Mulheres à beira de um ataque de nervo, O que Eu fiz para Merecer isto.

O diretor faz uma crítica à situação econômica da Espanha que passa por uma crise com os escândalos da Realeza e da política, de forma divertida, típica do autor. O avião é usado como metáfora da sociedade atual, com sua situação de perigo, como se tivesse perdido o rumo e o controle desta situação adversa, assim como a Espanha atual. Há uma sátira também a homossexualidade, as transgressões, tudo no superlativo, como se Almodóvar no auge dos seus 64 anos quisesse realizar a mais louca das comédias. Uma verdadeira e alegre subversão de valores, onde as drogas, o sexo, as perversões são utilizados de forma anárquica e politicamente incorreto.

As músicas são muito bem selecionadas, utiliza-se desde Beethoven na abertura do filme às músicas portenhas, chegando ao clímax com os três comissários gays interpretando a música Ï’m so Excited¨do grupo The Point  Sisters, um dos momentos mais hilários do filme, onde o expectador tem vontade de se soltar e se mexer na cadeira.

A fotografia se fixa em cores fortes como os seus primeiros filmes e já se observa desde o início a ironia e o material fotográfico diferente.

Os atores Javier Câmara (Fale com ela), Carlos Areces, Hugo Silva, Raúl Arévalo, Antonio de la Torre estão bem sintonizados em suas figuras caricatas, e as atrizes Lola Duenãs e Cecília Roth dão um show de interpretação, com suas personagens Bruna e Norma.

Antonio Banderas e Penélope Cruz, queridinhos de Almodóvar, fazem uma participação no início do filme numa situação engraçada mas incidente no desenrolar da trama.

Filme picante e transgressor, comédia do absurdo, capaz de incomodar os mais conservadores com suas piadas chulas, que utiliza personagens como gays enrustidos ou não, mulheres histéricas, mafiosos, associados a drogas e inversão de valores, para fazer crítica à sociedade atual, ao governo espanhol, de forma superficial. Mas parece que foi justamente isso que o Almodóvar quis conceber, sem condenações nem aprovações, Almodóvar por si só, como a pedir que não levar as coisas muito a sério.

Como o próprio Almodóvar disse em entrevista,¨ofilme mais gay que já fiz¨, o público ao mesmo tempo ri e se choca com seus personagens caricatos e suas histórias absurdas, seja por declarações inesperadas, livre de julgamentos morais, um estilo brega de alto nível, este é o Almodóvar na sua essência, sem maiores pretensões além de nos divertir e transgredir.

Marcia Amado Bessa é enfermeira e escreve para o ótimo blog CineAmado



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