Entrevista Lucas Santtana
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Entrevista – Lucas Santtana

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Lucas Santtana é atração brasileira no festival

Por Elenilson Nascimento

Lucas Santtana é um tipo de artista atípico bem difícil catalogar. Aliás, acho um saco essa coisa de catalogar músicas. Mas existem dois tipos de artistas: bons e ruins! E no caso desse cantor, compositor e produtor baiano a coisa nos orgulha além do ponto. Ao mesmo tempo que seus discos e composições têm uma ligação com a tradição da MPBoa, elas absorvem influências que vão do afrobeat ao dance hall, passando pelo dub, eletrônica, funk carioca, dentre outras, como ele mesmo contou rapidamente nessa entrevista, apesar de não ter respondido todas as minhas perguntas.

Iniciou sua carreira solo no ano 2000, lançando o CD “Eletro Ben Dodô”, produzido pelo renomado produtor Chico Neves e mixado no Estúdio Realworld, de Peter Gabriel. Que chique! Em 2003 lançou o  seu segundo CD, intitulado “Parada de Lucas”, dedicado ao geógrafo Milton Santos. Assim como o primeiro, esse trabalho também recebeu críticas ótimas dos principais jornais e revistas do Brasil e mais uma vez ganhou matéria no renomado “The New York Times”. Podre de chique!

Participou como instrumentista dos CDs de Chico Science e Nação Zumbi, Marisa Monte, Fernanda Abreu, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Como compositor teve suas músicas gravadas por Marisa Monte, Fernanda  Abreu, Arto Lindsay, Adriana Calcanhoto, dentre outros. Também participou da trilha do filme “Deus é Brasileiro” de Cacá Diegues, além de ter composto a trilha da peça “O Bispo” do ator João Miguel.

Em 2006 lançou o ótimo CD “3 Sessions In A Greenhouse” acompanhado da banda Seleção Natural. E juntamente com esse disco transforma seu selo musical Diginóis Records em um site-blogue-ponto de encontro: www.diginois.com.br – onde é possível baixar gratuitamente vários CDs e as faixas abertas para remixar e também enviar esses remixes para o site. Em seis anos e meio na internet o site já recebeu mais de 500.000 visitas e mais de 100.000 downloads já foram feitos. E mesmo com os seus CDs disponibilizados gratuitamente, seus discos continuam tendo boas vendagens. “Canso de repetir isso. Liberar download na web não faz você perder seus direitos como compositor. Se tocar num filme, numa novela, num comercial, na rádio, na TV, enfim, você irá receber por isso. Se você quiser vender na web também é possível. Uma coisa não desmerece a outra”, disse.

Um bom exemplo é o CD “Sem Nostalgia”, de 2009, que eu adoro, pois segue cheio de transgressões, derivadas de álbuns anteriores, mas com um recorte pop dos primeiros discos. Esse disco foi considerado o disco mais importante da década. A faixa que dá nome ao álbum abre com os arranjos que lembram o maestro Leitieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz. Um luxo!  “Quem baixa um disco e quer comprar acaba comprando, não tem essa. Eu fico feliz de mais pessoas em regiões distintas terem acesso a ele”, completou.

Como aqui não é a revista Caras, nem vou entrar na sua vida particular, mas o cara namora com uma das mais lindas mulheres desse país: Camila Pitanga. Em 2011, a atriz terminou o casamento de onze anos com Cláudio Amaral Peixoto, com que teve uma filha. Lucas e Camila teriam se conhecido em 2010, ano em que o casamento do músico chegou ao fim – momento registrado em seu quinto disco, “O Deus que Devasta Mas Também Cura”. Prestem atenção nas letras!

Lucas Santtana por Daryan Dornelles

O novo trabalho já foi considerado como o melhor disco independente no Prêmio Contigo – MPB FM de Música. O disco também foi indicado em duas categorias ao MVB MTV – melhor artista masculino do ano e melhor capa. Mas após um showzaço que reuniu cerca de três mil pessoas na Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), em janeiro deste ano, Lucas volta a Salvador para fazer o lançamento do seu mais novo CD – “O Deus Que Devasta Mas Que Também Cura”. A apresentação será realizada no próximo dia 26 de agosto, um domingo, no Largo Tereza Batista, no Pelourinho. Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) e podem ser adquiridos nos balcões Ticketmix. Agora, curtam essa entrevista (pela metade), mas que ficou legal:

Elenilson – Quando começou seu interesse pela música?
Lucas Santtana – Aos nove anos, quando vi o flautista Raul Mascarenhas tocando no TCA.

Elenilson – Sei que muitos irão discordar dessa escolha e posso até concordar que existam candidatos excelentes, como no caso da Tulipa Ruiz e da cantora Martnália, que talvez por terem discos até mais populares e fáceis de ouvir que o seu “Sem Nostalgia”, por exemplo, parecem que estão indo contra a maré. Você acha que muita gente está ocupando o espaço que não deveria com músicas de baixa qualidade e com refrões mais fácies do que propagandas para vender margarina?
LS – Acho o “Sem Nostalgia” bastante fácil. Tanto que ele popularizou bastante a minha música. Acho que cada um deve fazer o que é urgente, prazeroso e verdadeiro para si. Cada cabeça é um mundo, já dizia a Timbalada.

Elenilson – Seus discos são para serem ouvidos com fones… Muita sutileza e muita poesia. Você concorda que talvez isso possa ser interpretado como música para elite, como se só a elite consumisse coisas boas? Vide João Gilberto.
LS – Sim, meu trabalho é em cima de superposição de texturas sonoras. E com fone o prazer à escuta é maior e se prolonga a cada ouvida. Isso é papo da indústria que quer definir o que é popular para todo mundo. Temos dezenas de exemplos de coisas que tenham certa sofisticação e que, ao mesmo tempo, são populares. Frank Sinatra, Tom Jobim, Caetano Veloso, Radiohead, The Beatles, etc.

Lucas Santtana por Daryan Dornelles

Elenilson – Mas porque tantas músicas em inglês nos seus discos?
LS – Tenho cinco discos, e em quatro há o predomínio total de canções em português. O “Sem Nostalgia” veio com cinco músicas em inglês por coincidência mesmo.

Elenilson – Críticas na Bahia, por exemplo, parecem serem sinônimos de pendengas pessoais. Comenta. 
LS – Passo. Não curto pendengas, nem fofocas.

Elenilson – Como você define sua carreira?
LS – Acordo, tomo banho e trabalho (muitos risos).

Elenilson – Hoje em dia ser associado a “música baiana” soa como uma coisa pejorativa. Como você define a música que anda sendo produzido atualmente na Bahia?
Lucas Santtana – Excelente. Posso citar nomes que estão fazendo uma música inventiva na Bahia: Rumpilezz, Sapotone, Baiana System, Retrofoguetes, Ambulante Original, Russo Passaputo, Gilberto Monte, Neojiba…

Elenilson – Quando vai rolar um disco ao vivo?
LS – Não sei.

Elenilson – Qual sua visão da dicotomia entre letra e poesia na sua obra?
LS – Eu faço letra de música. Minhas letras são simples e servem ao que preciso dizer.

Elenilson – Numa pesquisa feita pela MTV, contabiliza que as músicas de axé dos anos 80 foram ouvidas mais de 500.000 vezes, como você encara, por exemplo, esse seu sucesso na internet com músicas que fogem totalmente esse padrão “mastigou-engoliu”?
LS – Como disse, cada um tem sua história e seus desejos. Eu quero que minha música chegue para o maior número de pessoas possível. Mas também quero que isso role com verdade, com a minha autoralidade.

Elenilson – Sendo um cara que está sempre fuçando na internet… como é que fica essa história de ter seu disco com tantas pessoas baixando de graça? E quanto tempo costuma passar conectado à internet?
LS – Muito tempo. Disponibilizo os discos porque a venda de CDs está cada vez pior para todo mundo. Então, para fazer uma distribuição melhor é preciso disponibilizar, mas não faço disso uma bandeira não. Disco custa caro para ser produzido, envolve o trabalho de muita gente. Quando o disco é bancado com dinheiro de edital público, acho justo disponibilizar.

Elenilson – Você já declarou que “liberar download na web não faz você perder seus direitos como compositor”. Muitos dos seus colegas têm uma opinião totalmente oposta a sua, não conseguem nem visualizar uma luz no fim da ribanceira. Comenta.
LS – Isso. Posso liberar uma música na internet e posso cobrar por essa mesma música caso ela entre na trilha de uma novela, ou de um filme, comercial de TV, etc. Uma coisa não tem nada haver com a outra.

Elenilson – “Acabou Chorare” dos Novos Baianos, lançado em 1972, foi eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos (pela revista Rolling Stones – Brasil). A que você atribui isso, à sua síntese de linguagens – samba, choro, bossa, rock? Ou a nova geração de artistas não aprendeu absolutamente nada?
LS – Como disse Tom Zé: “Os novos baianos é uma das representações do absoluto”. Simples assim.

Elenilson – O rótulo “desbunde cult” define bem a sua música?
Lucas Santtana – Não.

Elenilson – O que você pensa ou como se sente diante desse panorama cultural atual na Bahia?
LS – A cidade está castigada por esse prefeito. Mas do ponto de vista cultural, sei que é difícil o dia a dia na cidade, mas vejo de maneira positiva. Quando eu era adolescente em Salvador, não existia internet, então eu não encontrava pessoas que tinham os mesmos gostos que eu. Também não tinha festa de afrobeat, festa de dance hall, Zona Mundi com música experimental, jazz no MAM. Tinham menos salas de cinema. Enfim, muito menos opção cultural. Acho que hoje tem muito mais e por isso, apesar das dificuldades, tenho essa impressão otimista.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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