Teus Olhos Meus, uma bela e sincera história de amor | Cabine Cultural
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Teus Olhos Meus, uma bela e sincera história de amor

Teus Olhos Meus

Teus Olhos Meus

Belo, sincero e emocionante são os três principais adjetivos que eu utilizo para descrever esse filme de Caio Sóh. Dizem que o filme foi feito com cinco mil reais. Chega a ser assustador pensar que existem obras cinematográficas, feitas com muito mais grana, que não chegam aos pés da beleza narrativa de Teus Olhos Meus

Por Mauricio Amorim

Nasci na década de 70. E, muito antes do inicio dos anos 80, já era um assíduo freqüentador de cinema: minha mãe sempre me levava para ver os filmes dos Trapalhões. Durante a década de 80, outros filmes nacionais passaram a ser apresentados a mim e, nos anos 1990, já sabia que queria ser muita coisa nessa vida, principalmente, escritor e diretor de cinema. E já era, também, um admirador e super defensor do cinema nacional. Porém, um defensor com olhar crítico.

Sempre foi muito evidente a deficiência que a maioria dos filmes nacionais, em especial os produzidos nas décadas passadas, tinha no que se referia ao roteiro. Quase sempre, ótimas produções, atuações convincentes e, até, dignas de grandes prêmios, porém, roteiros ruins, confusos, de uma insistente incoerência narrativa… Roteiro era o calcanhar de Aquiles do cinema nacional.

Digo “era” porque, com a retomada do cinema nacional, ainda na década de 90, muito mais passou a ser investido no nosso cinema. As produções se tornaram melhores e, o mais maravilhoso de tudo isso, escolas e faculdades de cinema surgiram em todo o país, cursos de capacitação áudio visual pipocaram em cada esquina – alguns, ótimos, outros só caça níquel – e as funções, dentro de uma equipe de cinema, passaram a ser bem mais delineadas, definidas. E aí surge a figura do roteirista, aquele que conta a história. Não que ele – o roteirista – não existisse antes. Óbvio que sim! Porém, a importância que vem sido dada a esse profissional, decididamente, não existia nas décadas passadas.

Atualmente, temos produções brasileiras com roteiros impecáveis. Como não citar 2 COELHOS,  AMANHÃ NUCA MAIS, o bem recente FLORES RARAS, o excelente COMO ESQUECER, como bons e atuais exemplos de filmes brasileiros com histórias muito bem escritas?

Entretanto, assisti, há poucos dias, por indicação de um amigo meu, um filme brasileiro que me surpreendeu e me agradou por uma série de motivos, apesar de ser uma produção claramente modesta (se bem que o fato de ser, ela, uma produção bastante modesta tenha, também, sido um dos pontos que mais me conquistou). O filme chama-se TEUS OLHOS MEUS, foi dirigido por Caio Sóh e foi lançado em 2011.

Eu adoro títulos! De novelas, de CDs, de shows, de filmes. E TEUS OLHOS MEUS é, de longe, um dos títulos mais bonitos que já vi numa obra! O título foi o que, de imediato, me fez assistir esse filme. Contudo, à proporção que os minutos iam passando, enquanto eu assistia aquela história, o envolvimento com a obra foi se tornando inevitável: eu não consegui desgrudar os olhos de TEUS OLHOS MEUS. E, ao término da projeção, enquanto, evidentemente, eu enxugava as lágrimas, eu só conseguia pensar em três coisas:

que história linda e trágica;

quão maravilhosos são esses roteiristas, entre eles, o diretor do filme e

 eu vou imediatamente escrever sobre esse filme.

Há dois protagonistas em TEUS OLHOS MEUS: Gil e Otávio. Inicialmente, no filme, acompanhamos a história desses dois homens paralelamente:

Gil é um jovem na faixa dos 20 anos, tem uma namoradinha, passa a vida tocando violão, cantando, compondo e bebendo. Bebendo muito. É órfão e vive, desde pequeno, sob o cuidado dos tios: a tia, irmã de sua mãe, que o ama como filho, e o tio, que o detesta, sendo, na mesma proporção, detestado por Gil. No início do filme, vemos que a situação de Gil, na casa dos tios, está insustentável, devido ao ódio recíproco entre o sobrinho e o tio e, antes que um mate o outro, Leila, a tia, decide mandar Gil para a casa da avó. Gil sai, de fato, de casa, mas decide não ir pra casa de avó nenhuma e, após não ter abrigo na casa da namorada, nem de um colega de música e bebedeiras, decide vagar, de noite, pelas ruas da cidade, parando, numa lanchonete, para mendigar um copo de vodka, prometendo pagar só Deus sabe quando…

Teus Olhos Meus

Teus Olhos Meus

Otávio é um quarentão charmoso, bonito, super resolvido financeiramente e sexualmente. Vive com Carlos por um longo período, e fica claro, logo nos momentos iniciais do filme, que a relação dos dois está pra lá de desgastada: Carlos é bastante ciumento, ao ponto de ter ciúmes de uma mulher que Otavio namorara há mais de vinte anos, mulher esta que sumira, totalmente, da vida de Otavio. Mas, mesmo assim, Carlos tem fortes ciúmes dessa mulher e, com uma freqüência cada vez maior, briga com o companheiro, afastando-o, cada vez mais.

Num desses momentos de afastamento, Otavio sai de noite e, numa dessas coincidências da vida (apesar de eu crer, categoricamente, que não existe coincidência), ele chega à mesma lanchonete de praia onde está Gil que, a essa altura, já conseguira sua vodka, de graça, e está sentado, tocando violão e compondo. Como produtor musical que é, Otávio se interessa pelo som, puxa conversa com o jovem e, a partir daí, surge uma empatia imensa entre os dois. Gil passa a beber do uísque que Otávio bebe, os dois passam a falar ainda mais de música, do som que cada um curte, das influências musicais que acompanham Gil… Gil leva Otávio para uma roda de música, num apartamento de uns amigos, muito mais som, maconha, cigarro e bebida, no decorrer da noite e, madrugada adentro, os dois vão parar na praia e, a cada instante, vai ficando ainda mais explícito o quanto esses dois homens se entendem e estão felizes em curtir aqueles momento juntos.

Surge, a partir daí, uma história de amor. Diga-se de passagem, uma linda história de amor.

O grande barato de TEUS OLHOS MEUS é o fato de não ser, ele, um filme militante. Não curto muito essa de obras militantes… Direito meu! Admiro, aprecio e defendo histórias bem contadas, isso sim! E este filme tem uma história muitíssimo bem narrada. A gente torce, durante todo o filme, pelo amor daqueles dois homens, ambos com passado heterossexual, mas que se descobrem apaixonados, passam a morar juntos e, casados, percebem que não podem mais viver separados um do outro.

Belo, sincero e emocionante são os três principais adjetivos que eu utilizo para descrever esse filme de Caio Sóh. Dizem que o filme foi feito com cinco mil reais. Chega a ser assustador pensar que existem obras cinematográficas, feitas com muito mais grana, que não chegam aos pés da beleza narrativa de TEUS OLHOS MEUS.

Sem contar que há, no filme, excelentes atuações:

Paloma Duarte – uma das melhores atrizes do Brasil – faz uma Leila firme, na defesa do sobrinho, porém, uma mulher frágil que se deixa ser espancada pelo marido violento; Claudio Lins, perfeito como o namorado ciumento que, graças a tanto ciúme e inconformismo com a separação, mostra o ser agressivo e violento que é; Remo Rocha, muitíssimo bom como o equilibrado, sensato e apaixonado Otávio; Roberto Bomtempo, sem comentários… Um dos melhores atores nacionais, maravilhosamente bem como o grosseiro tio e, por fim, algumas palavras sobre Emílio Dantas.

Que ótimo ator é esse rapaz! Eu não o conhecia de outros trabalhos. Sei que ele é contratado da Rede Record, atua na novela DONA XEPA, até já o vi em cena, na novela. Não assisti a série SANSAO E DALILA, na qual ele também atuou, e nunca o tinha visto no cinema. É muito bom quando a gente, que faz cinema, se depara com uma atuação tão verdadeira, tão honesta, como a de Emilio fazendo o jovem Gil. Afirmo, ciente de que não estou sendo exagerado, que é tranquilamente possível colocarmos a interpretação de Emílio Dantas como uma das melhores atuações masculinas, do cinema nacional, dos últimos tempos.

E assim é essa bela produção: simples, sincera e emocionante.

Sinto orgulho de TEUS OLHOS MEUS ser uma produção brasileira.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colunista do Cabine Cultural.

 


14 respostas para “Teus Olhos Meus, uma bela e sincera história de amor”

  1. O filme me surpreendeu. É maravilhoso, se desenvolve de uma maneira tão natural q me surpreendi chegando a pensar q aquela história estava acontecendo de verdade. Nem lembrei da maquiagem, figurino, fotografia o q costuma fazer sempre. Me atentei a história e me choquei de verdade com o final, vindo a rirdemim depois, ao lembrar que era só um filme. Belíssimo!!!

  2. O que eu posso dizer? Uh… Esse filme me deixou sem palavras. Simplesmente belo, de tão simples que é, o que eu achei mais interessante foi as cenas, não entendo muito sobre isso, nem sei bem como explicar, mas tornou tudo real, e não fictício, pra mim esse foi o ponto brilhante que tornou o filme tão maravilhoso, eu amo simplicidade, e tudo que ocorria, era o que eu sentia, simplicidade, mas com aquela pegada de sentimentalismo forte, e o amor deles, foi algo tão natural, que fez sentido total com o final, e o que eles disseram “me vejo nos teus olhos” foi como uma peça se encaixando, trágico, totalmente, eu não consegui imaginar o que aconteceria após aquela verdade, eu acho que eu não me permiti, não consigo, é doloroso demais, me senti basicamente na pele do personagem, totalmente perturbador.

  3. Eu nunca fiquei tão perturbada com um filme, durante todo o decorrer eu torci para que os dois descem certo e no final quase morro com aquele desfecho. Fiquei querendo mais, saber a decisão que foi tomada e tudo mais.

  4. Li o comentário de Maurício Amorim como se fosse meu: ele disse tudo o que tive vontade de dizer ao diretor depois de um forte abraçode parabens pela bela obra. O trabalho de Emílio Dantas é merecedor de prêmio, mas nãoposso de ôr mais um pouquinho de sal na atuação de Remo Rocha: a bondade que ele passa mexe com a gente.
    Uma tragédia moderna “à grega”, com uma trama tão cheia de astúcia que pega de surpresa até um velho cinéfilo como eu.
    O professor comentarista (detesto os a empáfia dos que se dizem críticos) tem uma narração não apenas excelelente, preciosa, fazendo jus a sua formação intelectual e profissional; li sempre admirando-a (sou escritor, contista e poeta), e a cada frase mais e mais.

  5. O filme é lindo demais. O final inesperado e triste. Nao tenho visto muito filmes brasileiro porque nao sou do Brasil mas espero encontrar mais deste tipo. Parabéns.

  6. Olá,
    sou aluna do terceiro ano de letras é há dois anos me dedico a estudar o cinema brasileiro.Concordo totalmente com você, Teus Olhos Meus sem dúvida alguma foi umas das produções mais lindas que eu já vi. Filme que encanta pela simplicidade de sua produção e pelo roteiro impecável. Seu texto descreve perfeitamente o filme,PARABÉNS!!

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