O TERMINAL e os Problemas Gerais de Comunicação – Cabine Cultural
Cinema

O TERMINAL e os Problemas Gerais de Comunicação

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

O Terminal

Steven Spielberg é um dos melhores diretores de cinema que existe. Passou pela década de 70 e 80 produzindo obras de suma importância para o cinema mundial, atingindo – e conquistando – público de todas as idades, graças a obras como Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Indiana Jones (toda a trilogia), E.T. O Extraterrestre, A Cor Púrpura (uma excelente obra e um dos filmes mais injustiçados no Oscar: concorreu a onze estatuetas e não levou nenhuma, numa explícita demonstração de racismo, por parte da Academia), e entrou, na década de 90 e nos anos 2000, mostrando, para o mundo todo, o porquê de ele ser um homem de cinema, aquele que sabe muito bem fazer o que faz, seja na direção ou produção, seja na produção executiva… Basta lembrarmos do extraordinário Amistad, ou do tecnicamente perfeito O Resgate do Soldado Ryan, que tem uma das cenas mais dramáticas e tristes e silenciosas da história do cinema e, não falo, aqui, dos mundialmente conhecidos vinte minutos inicias desse filme e, sim, da cena da mãe, vendo um carro se aproximando da casa, deduzindo que aquele é o carro que dá a noticia da morte dos filhos que estão na guerra, ela infere que seu, ou seus filhos, morreu – morreram, e desaba no chão, em frente da casa. É de cortar o coração. E outras aulas de cinema vieram, como A Lista de Schindler, Inteligência Artificial, Jurassic Park, entre outros.

Até os filmes não tão badalados, pela crítica e pelo púbico, são dignos de nota. São, minimamente, ótimos, quando não são, de fato, excelentes obras.

O Terminal

Ou alguém não concorda da excelência cinematográfica de Prenda-me Se For Capaz, ou que Guerra dos Mundos pode ser o que for, mas que diverte, sim, e mantém um clima de suspense durante quase todo o tempo de projeção? Ou que Munique ou Lincoln podem ser, tranquilamente, encarados como um bom exercício de História? Ou que O Terminal, de 2004, conta uma das mais inusitadas situações passadas, por um homem, num país estrangeiro? Inusitada, sim, porém verdadeira, já que o roteiro de O Terminal é inspirado num caso real.

E é exatamente sobre O Terminal ou, mais precisamente, sobre os vários problemas de comunicação enfrentados pelo protagonista desse filme, o tema central deste texto.

Temos, nesta obra de Spielberg, a história de Viktor Navorski, um homem comum que viaja, da sua terra natal, o fictício país Krakozhia, no Leste Europeu, para os EUA. Quando Viktor desembarca no aeroporto de Nova York, as autoridades americanas percebem que estão com um grande e delicado problema nas mãos: enquanto Viktor voava, Krakozhia sofreu um golpe de Estado e teve seu poder tomado, perdendo, por conta disso, o seu reconhecimento de Estado, por parte dos Estados Unidos. Um grande problema diplomático instaura-se: sem culpa alguma, Viktor não pode voltar ao seu país de origem, já que, em tese, este país não existe mais, e está inserido numa guerra, e não pode pôr os pés fora do aeroporto de Nova York, pois não tem visto para entrar nos Estados Unidos. Sem poder voltar para seu país nem entrar nos Estados Unidos, Viktor fica fadado a passar os dias confinado no aeroporto de Nova York, sem entender quase nada do idioma inglês.

O Terminal

Essa situação, descrita acima, proporciona os melhores momentos do filme, pois Viktor precisa se virar para conseguir sobreviver, já que seu principal empecilho é o fato de ele não entender inglês. E quando eu digo “melhores momentos”, refiro-me aos momentos maravilhosamente hilários – como não rir na sequencia em que o guarda explica a delicada situação a Viktor, utilizando, evidentemente, o idioma inglês, e Viktor, feliz da vida, aperta a mão do guarda seguro de que, em poucos minutos, ele sairá daquele aeroporto e cumprirá sua missão (que será explicada no clímax do filme) nos EUA – como também me refiro aos momentos esplendidamente dramáticos, como na sequencia em que um desesperado Viktor vê, nas TVs do terminal, cenas da guerra e da situação caótica, em Krakozhia, e não consegue compreender uma palavra utilizada na reportagem, tentando um entendimento tendo, por base, apenas as imagens da destruição e sofrimento, no seu país.

Normalmente, eu trabalho O Terminal com as minhas turmas de Português Instrumental pois, nesta obra cinematográfica, é possível identificar uma série de questões relacionadas à Teoria Comunicacional, como código lingüístico inapropriado, escolhido pelo diretor da alfândega (interpretado por Stanley Tucci) para se comunicar com Viktor, a enorme dificuldade de Viktor, em decodificar tais códigos, muitas vezes, culminando em graves erros comunicacionais, que terminam por dificultar, ainda mais, a vida desse estrangeiro no aeroporto americano; as imagens servindo como código comunicacional para um estrangeiro; além da óbvia necessidade que o protagonista tem de sobreviver e, sobreviver, numa terra estrangeira, significa, evidentemente, aprender o idioma estrangeiro.

O Terminal

Ao encontrar o personagem de Catherine Zeta-Jones (sempre linda), nas idas e vindas dessa aeromoça no aeroporto, e se apaixonar, gradativamente, por ela, Viktor já está um pouco mais conhecedor do idioma inglês. Porém, ainda á através das palavras não muito bem compreendidas por ele, ditas por Amélia (nome da personagem) que o amor dele, por ela, é construído.

O Terminal é um filme muito bom de ser visto. Há tramas paralelas, sendo que, a mais interessante é a que envolve os personagens de Zoe Saldana (de Avatar) e Diego Luna (de E Sua Mãe Também), tendo Viktor como uma espécie de pombo correio dos dois. Não só interessante como engraçada pois, para se alimentar, através da comida dada pelo personagem de Luna, Viktor precisa colher informações a respeito da personagem de Saldana e passar para Enrique (Diego Luna).

Entretanto, por mais divertidas que sejam as tramas paralelas, por mais bela que seja Zeta-Jones, por mais que tenhamos 120 minutos de história para um professor de Teoria Comunicacional usar e abusar em sala de aula e por mais que a direção de arte e de fotografia sejam altamente eficazes, em O Terminal, é a Atuação, com A maiúsculo mesmo, de Tom Hanks que determina ser, esse filme, uma obra ótima.

O Terminal

Que Tom Hanks é um dos melhores atores de cinema, do mundo, isso tudo mundo sabe. Não é qualquer um que segura um filme de quase duas horas e meia, nas costas, literalmente sozinho, como ele já havia feito, alguns anos antes, no excepcional Náufrago. Em O Terminal, ele faz de forma sublime esse homem estrangeiro, que não fala inglês, num país também estrangeiro, inicialmente desesperado para ir embora e quando, por fim, entende sua situação, busca as mais diversas e proveitosas formas de passar o tempo, recluso naquele ambiente de idas e vindas, enquanto ele própria não pode ir muito além.

O Terminal tem algumas falhas no roteiro que, decididamente, não chegam a comprometer o resultado final, muito menos o fato de ter alguns minutos a mais do que deveria, dando uma sensação de que o filme está se arrastando um pouco. Contudo, o desfecho dado a Viktor e Amélia é muito interessante, fugindo totalmente do convencional e, quase sempre, esperado.

E, além do mais, O Terminal é um filme de Spielberg, um cara de cinema que entretém como poucos e que sabe contar uma boa história, mesmo que a história caia, algumas vezes, nos velhos e – por que não dizer – deliciosos clichês narrativos.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colaborador do Cabine Cultural.


  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta