Cobertura do Panorama Coisa de Cinema: Os Pássaros
Cinema

Cobertura IX Panorama – Os Pássaros

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Os Pássaros

Um dos grandes destaques desta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema é a Mostra Hitchcock, que traz para as excelentes salas do Espaço Itaú de Cinemas algumas das obras primas do verdadeiro mestre do suspense, o Senhor Alfred Hitchcock.

E para começar com brilho, nada mais adequado que exibir um dos maiores exemplares do gênero, que absorve vários elementos de terror (psicológico e físico), mas que possui – o diferencial – a função de complementar uma história até bem comum, focada no desenvolvimento dos personagens, sem em momento algum querer se sobressair.

Sim, em Os Pássaros (1963), a história de Melaine Daniels (interpretada pela bela Tippi Hendren) e Mitch Brenner (Rod Taylor) é o componente central, é o que move toda a narrativa. Desde o momento em que se conhecem, até o instante em que ela viaja até a hoje icônica Bodega Bay, toda a atenção e imaginação do espectador se volta para o que abrange esta possível e inusitada relação amorosa.

Os Pássaros

A cereja do bolo se dá quando uma estranha anomalia se instala na cidade, fazendo com que todos os pássaros se revoltem contra os humanos e os ataquem quando bem entender.

Como estamos falando de um filme prestes a completar 50 anos de idade, destrinchá-lo como se fosse uma estreia da semana talvez não seja o mais adequado, então irei ater-me à experiência de ter assistido em uma grande e tecnicamente perfeita sala de cinema, sinalizando algumas passagens que ganham muito em qualidade quando assistidas em grandes projetores, que definitivamente elevam sobremaneira as sensações absorvidas durante o filme.

O que mais impressiona, ou ao menos o que chama a atenção logo de imediato é a trilha sonora; bem, a ausência de uma trilha sonora, mas, principalmente, a inclusão perfeita dos sons ambientes, sobretudo a dos pássaros, com suas variadas nuances. É infinitamente mais aterrorizante se ater aos sons que os pássaros emitem do que vê-los em ação. Em uma das cenas finais, quando os personagens centrais estão dentro da casa e esta passa a ser encoberta por eles, os espectadores ficam sem saber o que há de fato do lado de fora, pois as câmeras acertadamente escolhem contar a história da perspectiva dos humanos, mas o som ambiente que é captado, com aquela gritaria produzida pelos pássaros, proporciona uma sensação grandiosa de medo e de pavor, que talvez fosse enfraquecida se eles decidissem colocar uma trilha sonora de suspense no lugar.

Os Pássaros

A fotografia do filme é outro elemento que salta os olhos, mais acentuadamente a partir do momento que Melaine Daniels viaja para Bodega Bay. É sabido por quase todos que este foi o primeiro filme de Hitchcock com filmagens externas, até então os seus filmes eram gravados exclusivamente em estúdios. Pode-se dizer que, para um iniciante, o mestre soube elevar ainda mais o nível de Os Pássaros, com algumas tomadas plasticamente muito belas (ela viajando pela estrada rumo a Bodega Bay), outras impressionantes (a cena em que Melanie senta-se do lado de fora da escola para fumar um cigarro e aos poucos os pássaros vão pousando em uma das estruturas metálicas do pátio é primorosa) e outras emblemáticas (a cena inicial, num céu acinzentado, que já fornece uma ideia do que virá acontecer tempos mais tardes é bem perspicaz).

Na história ainda existem muitos outros bons personagens, como a irmã de Mitch, Cathy Brenner (Verônica Cartwright), a misteriosa professora Annie Hayworth (Suzanne Pleshette), e a mãe possessiva e carente de Mitch, Lydia (Jessica Tandy, de Conduzindo Miss Daisy). Interessante como quase todos eles (exceto Cathy, talvez) parecem ter saído de um filme de David Lynch (Twin Peaks é minha primeira lembrança), pois suas personalidades são tão ambíguas que nunca saberemos ao certo o que as movem na história. E para ser justo, o nome de David Lynch só veio como elemento complementar, pois o provável é que Lynch tenha sido bastante influenciado por estas nuances dos filmes hitchcockianos.

Os Pássaros

E o mais incrível de Os Pássaros é que já estamos no fim do texto, com muitas palavras escritas, mas que não cobrem nem cinquenta por cento do que a obra oferece (o filme em si mesmo e os seus elementos externos). Faltou-nos falar da precisa direção de Hitchcock, do roteiro escrito brilhantemente por Evan Hunter, baseado num conto de Daphne Du Marier, dos efeitos especiais – grandiosos para a época e que levou o filme para uma indicação ao Oscar – e dos eventos extras, como a relação peculiar que o diretor desenvolvia com suas atrizes, no caso aqui a linda Tippi Hendren, que já afirmou em entrevista que Hitchcock arruinou sua carreira.

Rever Os Pássaros, agora em uma tela digna, foi uma experiência das mais mágicas para este dito cinéfilo, pois de algum modo trouxe resquícios de nostalgia de como eram as sessões de cinemas de décadas atrás, quando ir ao cinema era o grande evento da semana, mas ao mesmo tempo veio junto com uma sensação de conforto e de alegria com o apuro técnico proporcionado pelas salas contemporâneas, propiciando uma visão mais completa do filme.

A Mostra Hitchcock segue durante a semana no Panorama e é certamente um evento imperdível.


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