Entrevista exclusiva com a cantora Luíza Britto
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Entrevista – Luíza Britto

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Luíza Britto

“A espontaneidade, o suingue e a riqueza melódica fazem a Bahia soar mundial.” (L.M.)

Por Elenilson Nascimento

Apesar de constar que o nível musical da Bahia despencou muitíssimo com essa invasão de analfabetos funcionais que mal sabem ler e escrever, mas que começaram de uma hora para outra a “serem” compositores musicais, resultando nessa orgia sem enredo, geralmente denegrindo a mulher e rebaixando-a, com forte apelo sexual (bastante explícito, mas que antigamente era camuflado), onde a própria mídia de Salvador é a maior incentivadora destes pseudos-artistas, impondo a população o péssimo gosto musical, como se essa porcaria camuflada de música fosse cultura, as coisas parecem que começaram a mudar. Hoje, ouvir músicas decadentes, monossilábicas e com refrões de duplo sentido ocupando uma mesa num bar não é só o que os ouvidos mais atentos poderão encontrar nas noites quentes de Salvador.

Se a decadência é cultural é um fator preponderante numa cidade provinciana, sem oportunidades de empregos e ascensão social, a música é apenas um reflexo disso. No passado, Gal, Bethânia, Caetano e Gil eram os principais expoentes da música baiana e tínhamos compositores do naipe de Caymmi. Hoje, a função deles está nas mãos de Leittes, Chicletes, Parangolés e outros grupetes do gênero, além da saltitante Ivete Sangalo. É a sociedade quem determina o que é sucesso e o que não é. Mas a decadência é social e não está restrita só à Bahia.

E só para arrematar a interminável lista de semelhanças entre a capital da Bahia e a principal cidade da ilha de Fidel Castro, cinco casas de espetáculos de Salvador já adaptaram seu cardápio musical a uma maré de melodias cubanas. Existe uma bar inspirado no mais famoso boteco de Cuba, que serve bebidas e pratos típicos do país dos velhinhos milongueiros do Buena Vista Social Club. Mas não é só os cenários “criados” da velha Havana que turistas e soteropolitanos puderam encontrar um espelho, enfim, bacana de sua própria cidade, enquanto a rumba, o merengue e a salsa embala alguns poucos. Felizmente, surge no cenário artístico da Bahia uma jovem cantora e compositora que merece muita atenção:  Luíza Britto.

Luíza Britto

Com apenas 17 anos, Luíza subiu pela primeira vez no palco de um teatro para se apresentar ao público no show, elegantérrimo, Meu Primeiro Show, no Teatro Jorge Amado. Nesse espetáculo de apresentação, ela cantou e encantou com músicas de sua autoria, além de sucessos de outros artistas, como “Pérola do Prazer”, com letra da cantora Rosa Nunes, e “Tempo de Amar”, de Val Macambira e Cinho Damatta.  Filha do músico baiano Cinho Damatta e da cantora Rosa Nunes, Luíza caiu nas graças do produtor musical e radialista Andrezão Simões (*uma espécie de Madonna da cultura baiana, ou seja, onde ele coloca o dedo funciona) e foi apresentada ao público num show maravilhoso.  Luíza cresceu acompanhando os pais em shows e talvez por isso tenha uma bagagem riquíssima para apresentar, além de ser uma candidata forte ao posto de salvadora do bom gosto musical na Bahia. Confira um pouco mais dessa estrela que já nasce com a minha admiração:

Elenilson – Como foi seu primeiro contato com a música e quando foi que resolveu que a ela seria aquilo que você queria para a sua vida?
Luíza Britto – Não lembro do meu primeiro contato. Minha mãe, Rosa Nunes, entrou em trabalho de parto no palco, enquanto cantava com meu pai, Cinho Damatta. Ela conta que o período em que mais cantou na vida foi durante a gestação. Desde que nasci, minha mãe compunha música para tudo: hora de tomar banho, hora de comer, hora de dormir… E eu amava. A primeira vez que me registraram cantando eu tinha 3 anos, e cantava Samba em Prelúdio, do Vinicius. Resolvi que música seria a minha profissão aos 15 anos.

Elenilson – Quando pequena, que tipo de discos costumava ouvir em casa? Alguns desses, em especial, te influenciou a também querer fazer música?
Luíza Britto – Difícil listar… Meus pais consomem música 24h por dia, e eu cresci no meio desse bombardeio musical. Lembro que eu adorava escutar Bossa, Samba, Bolero, Jazz e Forró. A minha principal influência vem desses estilos, sim. Mas principalmente quando interpretados por meus pais.

Elenilson – Pergunta repetitiva: como você caracteriza seu estilo musical?
Luíza Britto – Não sei e espero que eu nunca saiba. Estou me descobrindo musicalmente, e pretendo continuar nesse processo até o fim. Adoro me desafiar e tentar novos caminhos. Apesar de ter como base o Choro, a Bossa, o Jazz e o Samba, hoje consumo de tudo, me influencio com tudo. Adoro misturar sem preconceitos.

Elenilson – As artes em geral sempre me influenciaram, os processos são distintos, mas a entrega é a mesma. A pintura, esculturas, fotografias, música e, em especial, a literatura, para mim são sempre manifestações de amor, de alegria, de inquietação. Eu me envolvo, me questiono, faço as pazes. Como você encara o fato da arte hoje em dia ter virado apenas um fator comercial? Ou seja: os que são considerados artistas hoje são aqueles que vendem milhões de qualquer coisa pra lá de Marraqueche! Comenta.
Luíza Britto – Nada contra os estilos considerados comerciais, apenas acho que outros artistas também merecem ter seu espaço.

Luíza Britto

Elenilson – Quando nasceu o desejo de produzir “Meu Primeiro Show”? Como foi a experiência? Vai rolar CD e DVD?
Luíza Britto – O desejo é antigo, e desde que Andrezão Simões gentilmente pediu para produzir meu primeiro show, coloquei em prática minhas ideias até então engavetadas. A partir da minha história, Andrezão costurou um roteiro maravilhoso, e me deixou pronta para atuar neste rito de passagem. A experiência foi mágica. O show foi todo gravado em áudio e vídeo. Penso em lançar clipes na internet, e talvez gravar um DVD – nada formal.

Elenilson – Nas formas de arte, eu, como autor, dou meu recado a quem estiver por perto, no coração, na fila para pegar autógrafos ou via internet. Tudo é arte e forma de expressão. Cada artista tem seu método, suas linguagens. Mas sou meio arredio quanto ao mau gosto. Bandas de pagode e axé da Bahia envergonham o que deveria ser bacana para o gosto popular. Como você encara essa mediocridade musical que estamos acompanhando na Bahia? 
Luíza Britto – Não posso negar que já curti muito ao som de “qualquer coisa pra lá de Marraqueche”. Nas festas do colégio, nunca fui de fazer birra por conta do estilo musical escolhido entre meus amigos. Axé, pagode, arrocha, funk carioca e afins têm levadas super envolventes. No geral, me entristece a mediocridade das letras e das melodias.

Elenilson – Você é uma artista muito jovem, muito afinada, muito competente, muito gata e, provavelmente, já foi  questionada sobre como é ser uma “cantora de verdade” na Bahia, devido ao estereotipo de que todo baiano só ouve axé. De tudo o que você já vivenciou na cena musical de Salvador, que aspectos foram determinantes para a sua construção artística e que você não teria vivenciado em outro lugar?
Luíza Britto – Primeiramente, obrigada! Já fui questionada, mas não me preocupo muito com isso, não… Estamos aqui pra provar o contrário. A espontaneidade, o suingue e a riqueza melódica fazem a Bahia soar mundial. Esses aspectos são gritantes e me influenciam artisticamente.

Elenilson – Como foi feita a escolha do repertório para o seu show de estreia e como as músicas chegaram a você? 
Luíza Britto – Escolhi juntamente com Andrezão, Ivan Bastos (diretor musical) e meus pais a lista de músicas inéditas e não-inéditas: Minhas composições preferidas, um reggae do meu pai com Val Macambira (Tempo de amar), uma composição da minha mãe (Pérola do Prazer), um xote lindo, fruto da parceria  de Ivan com sua esposa Sandra Loureiro (“Xote na Varanda”) e alguns sucessos, como “Dindi” (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), “Noite dos Mascarados” (Chico Buarque), “Mar de Gente” (O Rappa), dentre outros.

Elenilson – E qual música que te marcou profundamente?
Luíza Britto – “Minha voz, minha vida”, de Caetano Veloso.

Elenilson – “Me Adora”, de Pitty, tem uma letra forte e direta sobre a mídia. E eu adoro essas contestações.  Acho que você vai sempre sofrer com a imprensa baba ovo de Salvador com relação às comparações mal colocadas ou críticas baseadas em senso comum. Comenta.
Luíza Britto – Comparações e críticas são inevitáveis… Espero enfrentá-las com naturalidade, pois apesar da pouca idade, estou muito segura com relação à minha postura musical. Portanto, podem vir que eu traço! (muitos risos)

Elenilson – Recentemente, um artista da Bahia se queixou do fato de transformarem em manchete polêmica algo que ele estava apenas comentando no Twitter. Como é que você lida com esse tipo de situação?
Luíza Britto – Procuro ser muito cautelosa com o que eu comento nas redes sociais, justamente para evitar esse tipo de situação desagradável.

Elenilson – As escolhas das letras no seu show são bastante pessoais, em que aspectos ou temáticas você acredita que essas composições tenham mudado ao longo dos anos?
Luíza Britto – Eu componho há pouco tempo… Ainda não é perceptível esse tipo de mudança.

Luíza Britto

Elenilson – Tem músicas do começo da sua trajetória que hoje em dia você não se identifique mais?
Luíza Britto – Não. Comecei a compor com 13 anos, praticamente ontem. Ainda me identifico demais com minhas primeiras composições!

Elenilson – O “Meu Primeiro Show” é uma compilação de sucessos dos outros, mas que te acompanha desde sempre.  Qual foi o critério para determinar quais músicas entrariam para este show? Este repertório a agrada ou você prefere as músicas ‘lado b’?
Luíza Britto – A maioria das músicas do Meu Primeiro Show são de minha autoria. Quanto às não-autorais, escolhi aquelas que eu mais sinto prazer em interpretar – independentemente do estilo musical.

Elenilson – Segue alguma rotina para compor ou nunca tem hora/lugar?
Luíza Britto – Qualquer hora, qualquer cantinho, qualquer violão.

Elenilson – Ser mulher, compositora e musicista no Brasil é difícil? Pois percebemos que há uma fácil aceitação de intérpretes, isso que vem da era do rádio e continuou com a MPB, enquanto as compositoras e musicistas ainda têm presença tímida na mídia.
Luíza Britto – Desde a infância, os garotos são mais estimulados à tocar um instrumento do que as meninas. Como cobrar uma desenvoltura melhor à elas, se o estímulo dado aos dois não é compatível?

Elenilson – O que importa mesmo é a música e a reação que ela provoca no coração das pessoas, ou o fato de você ter que ser uma artista vendável?
Luíza Britto – Eu faço música por amor. Talvez toque o coração de algumas pessoas e é isso o que importa. Não tenho a obrigação de ser vendável…

Elenilson – Você acha que música é uma competição, e não apenas uma expressão?
Luíza Britto – “Somente” expressão.

Elenilson – Você demonstrou ter bastante influência da literatura e do teatro no palco. Quais os artistas e obras mais te inspiram?
Luíza Britto – Adoro Fernando Pessoa. Em especial “O Livro do Desassossego”.

Elenilson – De um modo geral, quanto às músicas e ao momento em cada época, o que merece ser destacado de cada um desse seu trabalho?
Luíza Britto – Difícil falar de todas. Mas “Amor luz”, por exemplo, fala sobre a morte como uma simples passagem. Luz, calor, evolução. Não tristeza, despedida. Foi minha primeira composição (música e letra).

Elenilson – Você ousou no palco do seu show com uma proposta e um estilo de som bem diferente do que as pessoas consomem em Salvador e estão acostumadas. Apesar de ter sido algo descompromissado, rolou alguma insegurança?
Luíza Britto – Minutos antes do show eu estava ansiosa. Insegura, não…

Elenilson – Tem alguma banda dessa nova safra do rock, MPB e etc. que você costuma ouvir e recomenda?
Luíza Britto – Adoro o Cícero. “Canções de Apartamento” é um disco lindo e cheio de personalidade.

Elenilson – Você tem uma boa extensão vocal e uma respiração perfeita, foram muitos anos de estudo de canto ou alguma outra receita?
Luíza Britto – Obrigada! Mas nunca estudei música. Sou desprovida de técnicas e teoria, por enquanto. Não vejo à hora de aprender tudo isso! Tô precisando…

Elenilson – Você gravaria uma letra de um autor clandestino e desaforado? No caso eu! 
Luíza Britto – Se a sua clandestinidade e o seu desaforo combinarem comigo, por que não?

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina. (indisponível no momento)


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