O Príncipe das Marés, o melhor filme dirigido por Barbra Streisand | Cabine Cultural
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O Príncipe das Marés, o melhor filme dirigido por Barbra Streisand

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The Prince of Tides

Barbra Streisand produziu, dirigiu e co-protagonizou O Príncipe das Marés, no ano de 1991. Dos vários excelentes filmes que eu já assisti e que revejo, O Príncipe das Marés é uma dessas ótimas obras que se tornou para mim, enquanto espectador e enquanto alguém que estuda e produz audiovisual, um filme importante e necessário que eu preciso rever, quase que sempre. E, toda vez que revejo este longa, me pergunto: Meu Deus, por que Barbra demora tanto para dirigir um novo filme???

Yentl, em 1987, O Príncipe das Marés, em 1991 e, o último, O Espelho Tem Duas Faces, lá no longínquo 1996… E, desde então, mais nenhum filme dirigido por ela.

Barbra não é só uma das cantoras americanas que mais vende álbuns, ou a ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, em 1969, com Fanny Girl, e em 1977, com a melhor canção do filme A Star is Born, ou a ganhadora de vários Globos de Ouro, como a de melhor produtora e diretora, por Yentl. Ela é talentosíssima, um dos principais nomes de Hollywood, uma cantora excepcional, que grava muito (e vende pouco, aqui no Brasil) e é, também, uma talentosa diretora de cinema.

Yentl, no qual o personagem de Barbra está presente em cem por cento das cenas é, de fato, um filme muito bem produzido: é um drama-musical. O Espelho Tem Duas Faces, também, um filme ótimo, novamente estrelado por ela, tendo Jeff Bridges como seu par romântico e com um elenco secundário bastante competente, com a glamourosa participação de Lauren Bacall.  Porém, O Príncipe das Marés é, para mim, o melhor filme produzido, dirigido e estrelado por Barbra Streisand.

The Prince of Tides

Nesse filme, acompanhamos a história do treinador e professor de Inglês Tom Wingo, um homem que cresceu no Sul dos Estados Unidos, irmão gêmeo de Savannah, uma escritora com graves problemas psicológicos que tentou, pela segunda vez, o suicídio. Disposto a ajudar sua irmã, Tom se vê obrigado a passar uma temporada em Nova York – cidade que ele detesta – contando sua infância para a psicanalista Susan Lowenstein, interpretada por Barbra. Tom passa a ser, então, a “memória” de Savannah, mesmo mostrando-se, inicialmente, bastante relutante em narrar os acontecimentos do passado para a psicanalista. Susan, contudo, é firme em querer saber – e entender – a infância que Tom e Savannah, junto a outro irmão já morto, Luke, tiveram, e a relação deles com os pais. Inevitavelmente, Tom e Susan se envolvem emocionalmente, e passamos a conhecer, a partir daí, a infeliz vida que a psicanalista leva, ao lado do prepotente marido, um famoso maestro, e as tentativas de ela se dar bem com o filho adolescente Bernard, interpretado por Jason Gould, filho de Barbra, na vida real.

À época do seu lançamento, O Príncipe das Marés fez muito sucesso, chegando, inclusive, a ser considerado, pela crítica americana, o melhor filme do ano. Concorreu a vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro e o Oscar. Levou o Globo de Ouro de melhor ator para Nick Nolte e foi indicado à direção, mas Barbra perdeu para Oliver Stone, por JFK. No Oscar, por sua vez, Barbra não foi sequer indicada e Nolte perdeu a estatueta para Anthony Hopkins que, naquele ano, interpretava nada mais nada menos que o serial killer Hannibal Lecter, do premiadíssimo O Silêncio dos Inocentes.

The Prince of Tides

Esse segundo filme de Barbra é um drama sério, que trata de assuntos não só sérios como pesados, difíceis de serem contados e assistidos. Entretanto, foi um sucesso de bilheteria, e uma prova de que a perfeccionista, e considerada chata, por muitos, Barbra Streisand sabe conduzir uma narrativa com tais características, e que também sabe, com exatidão, extrair o melhor do seu time de atores. Pois as atuações é o que há de melhor nesse filme. E não falo, aqui, única e exclusivamente de Nolte e da própria Barbra (perfeitos nos seus respectivos personagens). Falo dos coadjuvantes. Falo de Kate Nelligan, perfeita como a mãe das crianças, interpretando um personagem que tanto causa admiração, nos seus filhos, como recebe, deles, rancor e desprezo. E Melinda Dillon, já indicada ao Oscar, mas que não fora por O Príncipe das Marés. Ou até mesmo Jeroen Krabbé, como o marido de Susan, um homem prepotente, arrogante, e que, em poucas cenas, consegue com tranqüilidade passar todo o desprezo que ele sente por Tom Wingo, não só pelo fato de estar óbvio o envolvimento de Tom com a sua mulher, como também pelo fato de Tom ser do Sul, uma região bastante menosprezada e discriminada nos Estados Unidos.

Contudo, na parte técnica, devemos também parabenizar essa produção: a trilha sonora é esplendida, composta por James Newton Howard e a edição consegue dar um bom ritmo ao filme, e nem percebemos que a narrativa tem mais de duas horas de duração, graças, também, ao excelente roteiro adaptado.

São muitos os filmes que tentam estudar a personalidade humana. De dramas a suspenses. Até mesmo alguns filmes de terror tentam fazer esse estudo. São muitos! Porém, poucos conseguem fazer tal estudo com maestria. E O Príncipe das Marés consegue! Não temos, nele, um filme para adolescentes e, sim, um filme adulto e para adultos. É um filme que retrata não só as desgraças que podem acontecer na vida, como também mostra como somos obrigados não só a superá-las, mas também a fingir que, muitas delas, nunca nos aconteceram, por mais que o resultado destas desgraças esteja implicitamente claro, no cotidiano e nas ações de cada um de nós.

Sim, O Príncipe das Marés, por mais que termine bem para alguns dos personagens, ainda é um filme triste. No clímax narrativo então… É difícil segurar as lágrimas. Entretanto, não é um filme piegas muito menos um dramalhão.

The Prince of Tides

Muito menos é um filme datado. É uma obra que deve ser vista, revista, conhecida por aqueles que, até mesmo, só ouvem falar de Barbra mas, de fato, ainda não conhecem nada dela, fora, talvez, as suas mais recentes participações – como atriz – nos filme Entrando Numa Fria Maior Ainda e Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, nos quais contracena com Dustin Hoffman.  Se, de fato, ela for uma profissional perfeccionista e que muitos a consideram uma criatura chata, para se conviver, só temos, então, que agradecer a tanto perfeccionismo e a tanta chatice, pois, a (boa) consequência destas duas controversas características, pode ser comprovada, não só n’O Príncipe das Marés, como também nos outros dois filmes dirigidos e produzidos por Barbra.

Que Barbra Streisand possa dar um tempo nas constantes turnês, como cantora, e possa se dedicar a um novo projeto cinematográfico, no qual ela não só atue, como possa fazer o que ela bem sabe: conduzir a produção e a direção de um filme.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colaborador do Cabine Cultural.



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2 respostas para “O Príncipe das Marés, o melhor filme dirigido por Barbra Streisand”

  1. Gostei muito de seu comentário, pois gosto muito desse filme. Já perdi a conta de quantas vezes assisti, mas a cada vez que vejo me encanto novamente. Sua crítica retrata com perfeição tudo que se vê nesse lindo filme. Realmente Kate Nelligan, está pra lá de perfeita nesse papel; conheço algumas mulheres muito parecidas com sua personagem e ela o interpreta muito bem. Nike Nolte, fantástico, não é para qualquer ator fazer esse papel. Deus veracidade ao personagem. Um dos dez filmes da minha vida.

  2. Maurício, infelizmente Barbra Streisand aposentou-se, recolhendo-se com seu esposo numa vida longe de seus fãs… só nos resta aproveitar o que ela já fez… O PRÍNCIPE DAS MARÉS é um filme pouco lembrado. Achar um DVD é difícil, porém nesse momento tanto a Americanas como Submarino o oferecem!! Parabéns por sua crítica.

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