Bienal do Livro da Bahia parece uma Quermesse
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Bienal do Livro da Bahia parece uma Quermesse

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Gala de encerramento com João Ubaldo Ribeiro e mediação de Rodrigo Lacerda

“No dia que esses gestores culturais perceberem que é convergente unir literatura com ações culturais teremos uma enorme evolução.”

Por Elenilson Nascimento

Ontem, 17/11, foi o último dia da Bienal do Livro Bahia – com a ilustre presença de João Ubaldo Ribeiro – que começou desde o dia 08. Contudo, esse ano foi mais um ano do mais do mesmo, num evento literário anunciado com um dos mais esperados no país. Mas como tudo na Bahia existe mais propaganda (*ainda vou morar na propaganda do governo da Bahia) do que a realidade possa explicar, nada justifica a total falta de organização numa programação que tinha tudo para ser top de linha, sem nenhuma novidade do mercado da literatura.

Os visitantes puderam contar até com leituras dramatizadas, atividades infantis e mesas redondas, mas de longe isso pareceu impressionar quem realmente deveria ter participado do evento: os leitores e amantes de livros. Autores de diversas partes foram convidados, realizando encontros com outros profissionais e com o público em geral, mas essas participações foram tão velozes quanto à passagem de um cometa.

A literatura produzida nas periferias do Brasil e, principalmente, em Salvador, por ter sido a anfitriã da festa nem de longe invadiu essa Bienal do Livro que mais parecia uma quermesse de comadres das letras. Quem teve a oportunidade de visitar o evento se viu perdido entre inúmeros estandes de editoras, sem nenhuma orientação lógica e com livros bons com preços além da imaginação, se bem que puderam encontrar livros baratinhos mais de gostos duvidosos.  Uma bienal que não teve música, não teve poesia, muito menos, como já foi dito, movimentos de comunidades periféricas, através de saraus, encontros literários e shows.

Muitos dos meus amigos escritores de outros estados se viram no meio de um enorme galpão infectado das celebridades provincianas dessa terra do acarajé. Muitos, por educação, elogiaram a iniciativa dos estandes da Bahia de trazerem à Bienal os livros baianos. Estandes esses jogados no fundão dos corredores. No dia que esses gestores culturais perceberem que é convergente unir literatura com ações culturais teremos uma enorme evolução. É preciso mostrar que a periferia da Bahia, por mais criativa que seja na música e no Carnaval, também sabe pensar. E também sabe fazer (e bem) na literatura. Onde estavam os autores negros, as prostitutas, os abaixo do nível social, os esquecidos das pesquisas, os anti-sociais essa polícia prende?  Resposta: pelas periferias perversas!

Bienal 2013

Temos que abrir espaço para os escritores novos, emergentes, da periferia, que são tão importantes como os conhecidos. Essa iniciativa dá voz ao que está acontecendo nas comunidades. Fiquei muito feliz com a movimentação literária em Salvador, mas demasiadamente enfadonho quando percebo que os bocós das letras continuam com os seus pensamentos vazios e total falta de visão quando se referem à literatura. Tratam a literatura como se fosse papel higiênico.

Ao contrário do que aconteceu nas bienais do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Amapá, diversas feiras de livros pelo país, e até na problemática Flica desse ano, os microfones não foram abertos ao público para interagir com poesia e música. As pessoas que visitavam a Bienal da Bahia puderam até param para ouvir alguns artistas que estiveram presentes nos saraus apertados e sem nenhum conforto, mas de longe ficaram satisfeitos com o que viram.

A Bienal da Bahia poderia ter sido muito mais movimentada com ricos acervos e boa programação, mas se revelou uma imensa vitrine para alguns pouco privilegiados e inúmeros escritores perdidinhos da silva no imenso galpão. Não existe nenhum esforço Governo do Estado da Bahia em potencializar a produção literária, investindo em todos os agentes da cadeia produtiva do livro, além de fortalecer o que já vem sendo feito de estímulo a leitura. Pelo contrário. Quais foram os investimentos de cultura no Estado da Bahia nesse (des)governo Wagner? Nenhum!

Bienal do Livro

Para alguns autores, se não fosse os prêmios literários nunca teriam aparecido nessas bienais para promover livros. Infelizmente, a exemplo do Brasil, não existe uma massa leitora vigorosa, como existe na Alemanha ou em países nórdicos. Mas não somos nórdicos, nem educados, nem comedores de livros, pois para um escritor de verdade, com uma carreira consolidada também como crítico, o momento não tão favorável para a literatura. Rejeito a tese de que existem muito mais pessoas interessadas em escrever do que exatamente um público leitor para absorver esses textos. Não concordo que existam mais escritores que leitores. Além do mais, o livro ruim também tem seu espaço. E não vejo nada de mal nisso. Prova disso, foi a quantidade de inúteis travestidos de escritores nessa Bienal.

A Bienal da Bahia, como um evento que propõe dar à população acesso aos livros, deveria ser trabalhada formas de atrair mais o público, pois “ela é um evento cultural, mas por falta de atrações direcionada à cultura, não recebeu a presença de público esperado”. A Bahia tendo grandes nomes na cultura e literatura, deveria haver mais lançamentos e temáticas com grandes nomes políticos e escritores no evento a fim de atrair o público. Cadê os pagodeiros, os axezeiros e afins num evento como esse? Esqueci: eles não sabem ler.

Suponho também, como uma das causas do baixo índice de público, a enfadonha mudança da data do evento: “a feira era dia dois de outubro, mudaram para novembro, período de festa, de comprar roupa, eletrodoméstico, reforma de casa, as pessoas não querem comprometer o dinheiro com livro”. Estranho, não é mesmo? Nem os “vale-livros” cedidos pelo governo incentivaram as vendas. Espero que algum dia a Bienal da Bahia conte realmente com espaços para debates, oficinas, exposições, apresentações de peças, poesia, cordel, além de lançamentos de livros, além do mais do mesmo.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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