Dia da Consciência Negra: será que temos alguma coisa para comemorar?
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Dia da Consciência Negra: será que temos alguma coisa para comemorar?

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Dia da Consciência Negra

“A questão da negritude é a de assumir-se negro, identificar-se negro, sentir-se negro.”

Por Elenilson Nascimento

Não tenho orgulho algum em escrever mais uma vez, para o incomodo dos que vivem me policiando, da minha vergonha de morar num país tão desigual como o Brasil. Desigual, violento, patético e sem oportunidades, principalmente, para os negros. Se alguns avanços já são registrados na questão da igualdade racial com o regime de cotas para afrodescendentes (*coisa que eu sou literalmente contra, pois não existe reparação alguma), no mercado inexistente de trabalho o panorama não é nada positivo. A população negra representa mais de 50% dos trabalhadores das regiões metropolitanas brasileiras, mas sua média do salário chega a ser mais de 40% menor do que a dos brancos – isso quando conseguem trabalho.

A mídia camufla a presença de alguns negros nas novelas e propagandas, mas e os outros? Recentemente o jogador Ronaldinho levantou polêmica ao dizer em alto e bom som que não é negro. Nem mesmo sua retratação posteriormente serviu para pôr panos quentes no assunto. Quando um dos maiores ídolos brasileiros da atualidade não assume suas raízes, é natural que a pergunta assuma proporções ainda maiores: a negritude estar ou não associado à cor da pele? O problema no Brasil é que, politicamente, ser negro é ser inferior, ser burro, e basta ver o depoimento de vários Ronaldinhos nas periferias.

Se para o nórdico Ronaldinho sua cor de pele não interfere na sua raça, eu, por outro lado, tenho a pele clara, mas meus bisavós maternos foram negros, por isso falo com orgulho que também sou negão (e do cabelo nada europeu). Minha família toda é do Nordeste, não tenho olhos claros nem por intervenção divina do fotoshop, nem por herança de alguma pulada de cerca dos meus antepassados com alguns holandeses. E por mais que os sociólogos deslumbrados da UFBA, pesquisas encomendadas do governo e afins preguem o contrário, o Brasil é miscigenado, desigual e continua massacrando os negros.

Nas escolas os livros continuam trazendo o negro como escravo, ladrão e mau caráter, além de apanhar mais do que o boitatá. Uma criança vai querer ser descendente de escravos? Acho que não. Uma vez, num colégio tradicional de Salvador, vivenciei uma cena bizarra de racismo, onde uma aluna do primário, com os seus seis ou sete anos, queria ser a princesa na peça do Dia da Primavera, chorava compulsivamente, pois a professora rejeitou o seu pedido de ser a Cinderela na apresentação. Mesmo não sendo da minha ousada, fui tirar satisfações com a colega professora. E para a minha surpresa, ouvi em alto e bom som: “Elenilson, onde você já viu Cinderela preta?”. Chocado, fui reclamar na coordenação que, como sempre, só fez ignorar a situação. Uma criança negra que está sofrendo este primeiro tipo de preconceito também vai querer fazer de tudo para não se sentir negra, porque o ídolo dela não se sente negro. É frustrante, principalmente porque vem de quem poderia dar o exemplo…

Dia da Consciência Negra

A questão da negritude não está só ligada com a cor da pele, ou no tipo de cabelo, no gosto musical, nas camisas com a imagem de Bob, está muito mais enraizada nos nossos genes. Muitas pessoas não têm consciência disso, pois elas acham que é só a cor da pele que define o ser negro. Somos miscegenados, porra, e isso não tem como negar, nossas raízes, nossa genética, não tem como negar… Se nos Estados Unidos tudo foi diferente, as Ações Afirmativas começaram com a abolição da escravatura, numa espécie de cadastro, onde todos aparecem no documento como negros de primeira geração. Aqui, nesse cu de mundo, as miscigenações que aconteceram depois, clareando as peles das pessoas, não as tornaram brancas.

No cinema, filmes como “Quarteto Fantástico”, “Os Vingadores”, “Superman”, “Thor”, “Sin City” e muitos outros, onde heróis são apresentados com poderes além da imaginação, nenhum deles é negro. Mas poderemos ainda ver atrizes como Jessica Alba ou Rosário Dawson felizes se assumindo como negras. Assim como Jennifer Lopez, Beyoncé, Rihanna e outras assumindo a sua negritude. Até Madonna já disse que seria a glória se tivesse nascido negona.  Lá, pelo menos até a quinta geração, vai constar negro no documento, independentemente da cor da pele. Contudo, ter de provar com documento pode ser radical, ainda mais aqui nessa terra de ignorantes, que 8 entre 10 brasileiros têm descendência negra. Por causa das nossas (bem-vindas) misturas, fica difícil saber quem é negro. E isso, em pleno século XXI, ainda é uma discussão sem fim.

Não precisamos de um dia da consciência negra, parda, branca, rosa, marrom, mas sim de 365 dias de consciência humana. Consciência e respeito pelo outro. Precisamos de mais educação, saúde, segurança pública, empregos, dignidade. Dizem que hoje em dia ninguém é mais racista, não é isso? Mas onde estão os negros nas lojas de shopping? Onde estão os negros nos caixas e gerências dos bancos? Onde estão os negros advogando? Onde estão os negros em cargos políticos? Triste mesmo é aquele que não confessa que existe sim a excludência pela cor de pele nesse país de idiotas! A questão da negritude é a de assumir-se negro, identificar-se negro, sentir-se negro. É mais reconhecer-se, independentemente da cor da pele. Por que eu posso me assumir negro, embora não seja preto. Sou de uma família numerosa e ausente. Sou o mais branco entre os negros da minha família. Tenho cabelos crespos, olhos míopes. Mas desde cedo eu sei que ser negro é sentir-se negro pela da minha ascendência.

Esse Dia de Consciência Negra seria realmente uma luta mais justa e honesta se o nosso inimigo tivesse cara, tivesse voz, tivesse arma. Mas nenhuma liberdade pode nos ser tirada, nem a de errar – se tivéssemos tentando mudar essa situação todos os dias. Nossa luta agora é pela “reparação simbólica”. Mas ate quando? O que realmente estamos reparando? Nosso país estará com um pé no Primeiro Mundo quando um menino negro na rua não representar mais risco de assalto, drogas, ignorância, camelô, vendedor de qualquer coisa nos ônibus, cordeiro ou carnaval… Prefiro acreditar que quando um menino negro lá da periferia representar o menino que é, com a sua infância roubada, a possibilidade que é, teremos conseguido a “reparação simbólica” que muitos adoram encher as bocas, e teremos outro lugar nesse mundo. Vamos fazer a nossa parte nos contrapondo aos petralhas, retardados, urubus e ratazanas que tentam deslustrar a reputação do ministro Barbosa…

Dia da Consciência Negra

Espero que nesse dia 20 de novembro, mais do que caminhar em marchas na Praça Castro Alves, possamos valorizar e conhecer mais os nossos símbolos, os nossos ídolos: Joaquim Barbosa; Denzel Washington; Zumbi; Lázaro Ramos; Aldri Anunciação que venceu o Prêmio Jabuti com o seu livro “Namíbia, Não!”; Elza Soares; Jimi Hendrix; Tina Turner; Garrincha; Seal; Lima Barreto, Martinho da Vila; Louis Armstrong; Mandela; Michael Jackson; Benedita da Silva; Machado de Assis; Jamie Foxx; o líder da Revolta da Chibata José Candido; José do Patrocínio; Whitney Houston; Chuck Berry; Jhe Oliveira; BB King; o ator de “A Espera de um Milagre”, Michael Clarke Duncan; Milton Santos; James Brown; Little Richard; Ray Charles; Lenny Kravitz; o secretário-geral da ONU Kofi Anan; Stevie Wonder; Aretha Franklin; Nat King Cole; Lauryn Hill; Sandra de Sá; Jorge Ben Jor;  Will Smith; o Sansão preto da minissérie da Record; Marvin Gaye; o homem de “Don’t Worry, Be Happy”, Bobby McFerrin; Luther King; o primeiro (e acho que único) super herói negro da Marvel, o Pantera Negra; Bob Marley; Donna Summer; Ella Fitzgerald; Djavan e Gilberto Gil, mesmo com as suas demências com as histórias de proibição de suas biografias, além de muitos outros.

Mas quando se trata da questão negra no Brasil é sempre o mesmo discurso clichê e conservador. Queria que esses discursos com dia e hora marcada pra acabar fossem tão humanistas na hora das ocupações das melhores terras, dos melhores empregos, das melhores faculdades, das melhores bucetas (*com exceção dos jogadores e pagodeiros), do mando empresarial e no acesso as melhores qualidades de vida. Também poderiam ser tão humanistas, quando ocorrem os assassinatos dos pretos pobres nas periferias, o atendimento diferenciado pelo SUS, e as vagas nos presídios então nem se fala, neste caso, deveria haver cotas para brancos, engravatados e políticos também.

Querem agora tirar o Dia da Consciência como se fosse uma coisa de segundo plano – como os blogs e sites excluídos pelo Google. Se nos tiram da consciência: nos tiram a consciência. Por trás da circulação dessa mensagem que poucos vão ter acesso, na verdade, rola um alerta contra o interesse direto e imediato da burguesia, da gangue do PT, desses políticos safados, que é cassar o Dia 20 de novembro com a desculpa que o mês já tem muitos feriados e dá prejuízo às empresas. Mas ninguém fala de cassar o Dia dessa República falida, do Natal meramente comercial  ou demais feriados que homenageiam santos da igreja católica (nada contra). Por que justo o Dia da Consciência Negra? Dia da Consciência Negra SIM. E Consciência Negra todo dia SIM. E quer saber mais? Conservadores, racistas e humanistas de meia pataca: todos os pés cansam um dia de tanto caminhar. O Dia 20 de novembro é aniversário da morte de Zumbi, grande líder guerreiro do quilombo dos Palmares, assassinado em 1695, há mais de 300 anos. Ele é considerado símbolo da resistência contra a escravidão, por isso, as entidades e organizações não governamentais dos movimentos negros no Brasil definiram esse dia para manter viva a memória dessa figura histórica e sua importância na luta pela libertação dos escravos.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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1 comentário

  • Elenilson, boa tarde. Li o texto que escreveu acerca do dia da consciência negra e achei-o muito bom. Realmente o Brasil ainda é muito atrasado ou omisso em afirmar que é racista, pois não revela abertamente o descaso e as barreiras impostas a nós, negros. Também lhe faço pergunta para ampliar nossa reflexão sobre o tema. Será que estamos em posições inferiores tb por nossa causa? A pergunta ocorre por entender que nós, negros, temos problemas intrínsecos que contribuem para a discriminação que sofremos. Por exemplo, vc se considera negro pela sua ascendência, mas, pela imagem que postou, não se parece com um africano como eu e outros negros pareçemos. Aprendemos em nossos lares através dos nossos pais que ter lábios grossos, nariz horizontalizado, cabelos crespos é sinônimo de beleza, que somos inteligentes e capazes de assumir posições melhores na vida, que as mulheres negras são bonitas e melhores do que as pardas e as brancas e que todos nós, negros, deveríamos nos unir? Certamente que não. Pelo contrário, já vi mulheres negras porem defeitos na aparência de seus filhos e nunca dizerem que eles são bonitos ou que serão pessoas importantes na vida. Quando um de nós alavanca na escala social, pensa que é branco e nada faz pelos da sua etnia (ou raça), nem ao menos adota uma criança negra para proporcionar-lhe um futuro melhor. Por que quando houve a abolição os negros mais esclarecidos não cobrou do governo brasileiro indenização por termos sido tirados, maltratados e desculturados forçosamente neste país? Por que Gilberto Gil, Djavan ou qualquer outro negro da mídia nunca lutou para que tivéssemos uma emissora e mídia exclusiva para os negros, para que apreciássemos nossa beleza e desprezássemos à latina brasileira e à sulista européia? Portanto, Elenilson penso que somos discriminados, de fato, pelos que são diferentes e não gostam da nossa imagem e não acreditam em nosso potencial, mas há os que são como nós que tb nos discriminam. Alguém me disse que essa desunião advém desde África, onde os nossos ancestrais brigavam tribalmente e até hoje isso se reflete em nosso inconsciente.As brigas acontecem até hoje naquele continente e a paz, amor, união e valorização humana são inexistentes. Portanto, meu amigo, lutemos por nosso espaço, mas admitamos a necessidade de realizar mudanças no pensamento e comportamento da nossa espécie. E é por isso que não gosto e nem apoio os movimentos afrobaianos (Ilê Ayê e outros) que, para mim, são compostos por pessoas interesseiras e que demonstram o valor do negro apenas no bater tambor, tocar berimbau e vender acarajé, mas não na ciência e na tecnologia. Aliás, nem sei se esses movimentos já estiveram na África para mostrar o seu valor aos habitantes negros que lá vivem, já que se fala que nossa cultura foi herdada de lá.

    José Alves.

    J.a.s.1970@hotmail.com

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